Luiz Paulo Faccioli

Efeito purpurina - Carola Saavedra

Luiz Paulo Faccioli


A primeira impressão é que se trata de um comuníssimo papel cartão pardo, recurso não muito original usado às vezes para sugerir despojamento ou despretensão. As letras do título, que ocupam quase toda a metade superior da capa, têm um tipo gorducho mas são vazadas, e seu contorno é uma cor indecisa entre o vermelho e o marrom. O nome da autora aparece logo acima, em letras menores e pretas. No canto inferior direito, o logotipo da editora.
A singeleza evoca aquele conceito um pouco vago de estilo clean, mas embute o risco de fazer o volume passar despercebido numa estante onde ele figure em meio a capas mais vistosas. A id√©ia inicial come√ßa a se desfazer quando, ao se provar a textura do papel, este mostra uma inesperada aspereza. Com a curiosidade assim despertada, basta volt√°-lo em dire√ß√£o √† luz para que ele rebrilhe e revele uma insuspeita sofistica√ß√£o: longe de ser pardo, o papel √© na realidade de um dourado antigo cujo brilho possui a discri√ß√£o da eleg√Ęncia, enquanto as letras v√™m delineadas com um fino tra√ßo de verniz bord√ī. (Neste ponto, um fundo musical perfeito teria a voz suave de Lucinha Lins e os versos de Purpurina, sucesso da d√©cada de 80: Pode ser, mas eu sou feito purpurina / Se uma luz n√£o ilumina / N√£o h√° jeito de brilhar.)
Mais que um exerc√≠cio de bom gosto e criatividade, a capa assinada por Kiko Farkas e Elisa Cardoso para Toda ter√ßa tamb√©m reflete √† perfei√ß√£o o conte√ļdo do primeiro romance de Carola Saavedra, onde a palavra ¬ďsutileza¬Ē parece ter sido n√£o apenas um rasgo de entusiasmo de S√©rgio Sant¬íAnna ao escrever a orelha do livro. Tal como a purpurina da can√ß√£o, √© um texto repleto de nuan√ßas que s√≥ v√™m √† tona sob um facho de luz ¬ó met√°fora precisa do alto grau de participa√ß√£o que ele exige do leitor. De resto, Sant¬íAnna √© o respons√°vel direto pela publica√ß√£o da obra na Companhia das Letras. Numa atitude digna de aplauso, o consagrado escritor empolgou-se ao ler os originais da quase estreante e prontamente os levou ao editor Luiz Schwarcz que, tocado pela mesma empolga√ß√£o, decidiu public√°-los.

Toda ter√ßa estrutura-se em tr√™s narrativas na primeira pessoa. Duas delas se alternam ¬ó e eventualmente chegam a se entrecruzar ¬ó nos dezesseis cap√≠tulos da Primeira parte e que respondem pela maior por√ß√£o da obra. No trecho final, um terceiro narrador assume o comando e leva o romance a seu desfecho. √Č quando tamb√©m v√£o aparecer os v√≠nculos entre as hist√≥rias. Aos que n√£o dispensam o preciosismo das defini√ß√Ķes, trata-se aqui de um romance na acep√ß√£o exata da palavra: apesar de sua brevidade, a coexist√™ncia de mais de um conflito n√£o permite que se o tome por novela.

Uma das vozes √© a de Laura, jovem entediada com a vida e sustentada pelo amante casado e rico que a incentiva a fazer psicoterapia. A a√ß√£o se desenrola no Rio de Janeiro e tem como cen√°rio o consult√≥rio do psiquiatra Ot√°vio. Saavedra afirma que sua inten√ß√£o era escrever uma hist√≥ria onde o essencial n√£o estivesse dito. Na consecu√ß√£o desse objetivo, as sess√Ķes de terapia de Laura ¬ó sempre √†s ter√ßas, e eis a√≠ uma das justificativas do t√≠tulo ¬ó equivalem a uma mina de ouro. A narradora, na condi√ß√£o de paciente, √© tamb√©m quem mais fala, em contraponto a uma atua√ß√£o obviamente mais econ√īmica do analista. Diante das provoca√ß√Ķes de Laura, Ot√°vio mant√©m uma neutralidade para ela irritante. A tens√£o cresce √† medida que os di√°logos v√£o revelando aos poucos um jogo intrincado e de solu√ß√£o imprevis√≠vel:

¬ďDesviei o olhar para o teto e fiquei calada, como se estivesse ruminando alguma coisa.
N√£o sei por que eu gostava disso, de testar a paci√™ncia de Ot√°vio, come√ßava a dizer algo e parava na metade, ficava ali, distra√≠da, sem dizer nada, como se de repente houvesse me lembrado de alguma coisa, de algo muito importante, e esse era sempre o melhor momento, longos minutos de sil√™ncio, e Ot√°vio ali, suspenso em minhas palavras.¬Ē


Do outro lado do mundo, em Frankfurt, Javier é mais um latino-americano perdido na Europa e morando de favor na casa da namorada, Ulrike. Jovem culto, cínico e bem-humorado, a despeito da precariedade de sua situação de imigrante, Javier já experimentou toda a sorte de subemprego e agora ganha a vida servindo de acompanhante de cães. Como não poderia deixar de ser, ele adora cinema. E, como também não poderia deixar de ser, acaba envolvido com outras mulheres enquanto vive com Ulrike, buscando dar um lustro de originalidade à mais comezinha das fraquezas humanas. Uma de suas escapadas repete-se justamente às terças — e eis aí uma segunda razão para o título —, quando o apartamento onde mora fica vazio. Mas, antes que se pense em estereótipo, convém ressaltar que Javier é um personagem rico e multifacetado cuja construção passa ao largo de qualquer maniqueísmo. O discurso assume com ele ares de monólogo interior, o que propicia um adequado contraste com a narrativa mais ortodoxa adotada por Laura:

¬ďE ent√£o Ulrike mudava de assunto e voltava ao dia na faculdade, um dia cheio de detalhes e filmes e professores e x√≠caras de ch√° e mais tarde de pratos e tequilas e clientes de restaurante, e, finalmente, perguntas sobre o que eu tinha feito, e voc√™, o que voc√™ fez hoje?, perguntava Ulrike com premeditada displic√™ncia, como se tratasse de uma pergunta sem import√Ęncia, algo casual.¬Ē

A √ļltima voz √© a de Camilla, personagem que viaja de Frankfurt para o Rio e a quem √© entregue a costura do final. Dela, mais n√£o se poder√° dizer, sob pena de atrapalhar o pouco de surpresa que ter√° o leitor ¬ó e √© justo se admitir que, dentro da concep√ß√£o intimista da obra, n√£o haveria mesmo lugar para qualquer desfecho estrepitoso.

Para quem recém estréia no romance, é absolutamente notável a segurança com que Saavedra move-se na estrutura complexa que concebeu. Dito noutras palavras, a um iniciante é sempre mais fácil propor uma idéia genial do que ter a capacidade real de executá-la. E no caso de Saavedra, o mais impressionante: sem nunca pesar a mão.

Ao contrário, Toda terça é um livro dotado de exemplar leveza e fluidez, não obstante seu denso subtexto. Contribui para isso um senso de humor afiadíssimo e... sutil — e aqui se repete a palavra por não haver outro adjetivo tão apropriado.

A linguagem, em suas v√°rias modula√ß√Ķes, √© contempor√Ęnea na tend√™ncia ao coloquial mas sem dispensar o apuro com o ritmo, a eufonia, a precis√£o vocabular. De uma fei√ß√£o igualmente contempor√Ęnea, e √† primeira vista paradoxal, ela reflete ainda a perplexidade e apatia dos personagens diante do desafio que significa comunicar-se no mundo de hoje. Seja no div√£ do psicanalista, seja no estrangeiro, seja na afli√ß√£o de uma espera, a incomunicabilidade √© o leitmotiv e o verdadeiro elo a unir as hist√≥rias.

Um √ļnico reparo se faz necess√°rio ¬ó e s√≥ se o faz aqui porque junto tamb√©m existe a firme convic√ß√£o de que muito ainda se ouvir√° falar de Carola Saavedra como destaque nesse universo a que se poderia chamar de nova gera√ß√£o de ficcionistas. Como j√° se falou antes, o final proposto por Saavedra reserva um grau de surpresa compat√≠vel com o car√°ter da obra. Mas h√° uma armadilha intr√≠nseca na maneira aberta como o romance est√° estruturado: ela propicia mais de uma possibilidade de desfecho. E a op√ß√£o da autora peca por sua fragilidade, se comparada √† primorosa urdidura que a precede. Assim, ao se fechar o livro uma pequena frustra√ß√£o nasce com a inevit√°vel pergunta: tanta coisa para se chegar a isso?

Por mais alvissareira que seja esta quase-estr√©ia, √© de certa forma salutar que se possa ao mesmo tempo vislumbrar algum aspecto a ser melhorado no futuro. √Č isso, em √ļltima an√°lise, o que faz mover as pesadas engrenagens da boa literatura: a eterna busca do acerto.

Trecho:

Camilla fechava os olhos levemente enquanto bebia, e os c√≠lios eram longos e negros, e ca√≠am feito uma cortina sobre o rosto, Camilla parecia desenhada, contornos imprecisos, esbo√ßos, tra√ßos esfuma√ßados, o seu nome escrito em idiomas indecifr√°veis, e eu pensando que o seu nome soava a c√≠rculos, curvaturas, repeti√ß√Ķes, como se eu j√° o houvesse lido, como se de algum lugar da minha mem√≥ria surgisse Camilla, perfeita, terminada. (...) Eu pensava que Camilla era um nome grego, e o seu rosto agora era o de uma est√°tua eg√≠pcia, Camilla, voc√™ parece uma rainha eg√≠pcia, eu at√© poderia ter dito, e eu talvez tenha dito algo assim, palavras que nem sequer eram minhas, Camilla, como voc√™ faz isso de colocar palavras na minha boca?

A autora:

Carola Saavedra nasceu em Santiago do Chile, em 1973, e aos tr√™s anos de idade mudou-se com a fam√≠lia para o Brasil. Vive atualmente no Rio de Janeiro, mas j√° morou na Alemanha, onde fez mestrado em comunica√ß√£o, na Espanha e na Fran√ßa. Seu primeiro livro, Do lado de fora, √© uma pequena colet√Ęnea de contos lan√ßada em 2005 pela editora 7Letras. Toda ter√ßa √© seu segundo livro.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de janeiro/2008


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