Luiz Paulo Faccioli

Eppur si muove - Marcelo Gleiser

Luiz Paulo Faccioli


Ci√™ncia e religi√£o desde sempre viveram √†s turras. E n√£o haveria como ser diferente. Enquanto a prospec√ß√£o do novo √© o que impulsiona o pensamento cient√≠fico, a f√© religiosa est√° necessariamente atada √† tradi√ß√£o. Noutras palavras, a ci√™ncia caminha focada no futuro e a religi√£o, no passado. Essa diverg√™ncia via de regra n√£o impede o homem do s√©culo 21 de ter convic√ß√Ķes firmadas em ambas, √†s vezes contradit√≥rias, e de conviver com isso sem grandes dilemas. Por outro lado, nem passa pela cabe√ßa do cientista moderno conduzir seu trabalho de forma a preservar alguma verdade can√īnica.

N√£o era assim nos tempos l√ļgubres da Santa Inquisi√ß√£o, que de santa nunca teve rigorosamente nada. Durante os s√©culos intermin√°veis em que a Igreja tinha poder de fogo e monopolizava o conhecimento no mundo ocidental, a curiosidade cient√≠fica era inapelavelmente cerceada por dogmas n√£o raro nascidos da m√° interpreta√ß√£o das Escrituras. E ai de quem ousasse ver al√©m do que a Igreja sacramentava, com sua vis√£o sempre m√≠ope e voca√ß√£o √† crueldade. Fala-se aqui obviamente da Igreja Cat√≥lica. Contudo, a partir da Reforma o protestantismo tamb√©m vigiou a ci√™ncia com igual sofreguid√£o.

No limiar do s√©culo 17, uma not√≥ria quest√£o balizava o avan√ßo da astronomia. Com o advento da Contra-Reforma ¬ó a rea√ß√£o cat√≥lica √† expans√£o do protestantismo que, entre outras, ressuscitou a Inquisi√ß√£o medieval ¬ó e d√©cadas depois de o polon√™s Nicolau Cop√©rnico ter apresentado ao mundo seu modelo helioc√™ntrico, ambas as Igrejas faziam agora do geocentrismo de Arist√≥teles e Ptolomeu uma cl√°usula p√©trea, refutando todo e qualquer racioc√≠nio que tivesse como premissa rebaixar a Terra da posi√ß√£o de centro do universo. Essa orienta√ß√£o baseava-se mais uma vez em preceitos b√≠blicos bastante discut√≠veis ¬ó se fosse poss√≠vel discuti-los √†quela √©poca sem correr o risco de ir parar na fogueira. (Anos mais tarde, coube √† Igreja Cat√≥lica criar o mais c√©lebre exemplo da eterna disputa religi√£o versus ci√™ncia, quando fez o italiano Galileu Galilei, seguidor da teoria helioc√™ntrica, enfrentar o Santo Of√≠cio. Condenado a abjurar publicamente suas id√©ias, o astr√īnomo murmurou ent√£o o famoso ¬ďeppur si muove¬Ē: contudo, era a Terra que se movia, embora n√£o pudesse diz√™-lo em alto e bom som.)

Foi nesse contexto que o alem√£o Johannes Kepler, um luterano convicto que se preparava para seguir a carreira religiosa, descobriu seu talento para a matem√°tica e se interessou pela astronomia. Progredindo nos estudos, logo percebeu que o modelo coperniciano era o mais l√≥gico e que sua aceita√ß√£o de forma alguma contradizia nenhum princ√≠pio de sua f√©. Da√≠ a passar inc√≥lume pela censura da Igreja, exercida no semin√°rio por seus mentores, eram outros penosos quinhentos. Michael Maestlin, um desses mestres e importante astr√īnomo √† √©poca, j√° havia chegado antes √†s mesmas conclus√Ķes mas n√£o tivera coragem de assumi-las. Tampouco apoiava agora seu disc√≠pulo. Kepler, ao contr√°rio, lutou a vida inteira para defend√™-las. E avan√ßou na teoria de Cop√©rnico ao propor que os planetas descreviam √≥rbitas el√≠pticas e n√£o circulares. Tamb√©m muito cedo conheceu o rev√©s: antes mesmo que pudesse concluir os estudos, a universidade em T√ľbingen livrou-se dele indicando-o para um cargo de professor de matem√°tica em Graz, na √Āustria. Naquele momento pesava contra o aluno t√£o-somente sua rebeldia. Mas em seguida, com a persegui√ß√£o aos protestantes recrudescendo na Europa, Graz acabou sob o dom√≠nio dos cat√≥licos. Para fugir da convers√£o compuls√≥ria, Kepler transferiu-se para Praga, onde trabalhou com outro astr√īnomo ilustre, o dinamarqu√™s Tycho Brahe, herdando-lhe o cargo e os dados de suas pesquisas. Quando Rodolfo II renunciou ao trono da Bo√™mia, Kepler teve de voltar para a √Āustria, estabelecendo-se ent√£o em Linz. Al√©m dessas atribula√ß√Ķes, sua vida foi pontuada por trag√©dias, que iam desde a sa√ļde prec√°ria √† perda de tr√™s filhos ainda crian√ßas.

Essa notável biografia é o tema de A harmonia do mundo, mais recente livro de Marcelo Gleiser e sua primeira incursão pelo romance.

Entusiasta de sua profiss√£o, Gleiser tornou-se conhecido no Brasil por um talento rar√≠ssimo no mundo da ci√™ncia: ele consegue discorrer sobre quest√Ķes complexas com grande simplicidade e fluidez, popularizando um conhecimento que se costuma ver restrito a especialistas.

Para compor seu novo livro, realizou um minucioso trabalho de pesquisa em documentos e manuscritos originais, na tentativa de resgatar a alma de seu biografado. Gleiser assim resume a experi√™ncia: "Segui os passos do Kepler por tr√™s semanas: Alemanha, √Āustria e Rep√ļblica Tcheca. Sentei na mesa (sic) em que ele sentava, li o livro que ele estava lendo. Tenho a correspond√™ncia trocada entre Kepler e Maestlin. Li toneladas de coisas. Tentei encarnar a vida dele". Esse exerc√≠cio resulta de fato num dos grandes m√©ritos do romance. Gleiser foi fiel ao modelo para construir um personagem denso e humano, n√£o cedendo √† tenta√ß√£o de idealiz√°-lo, v√≠cio t√£o comum aos bi√≥grafos. Em dado momento, at√© mesmo o descuido de Kepler com o asseio pessoal vem √† baila.

A harmonia do mundo estrutura-se em quatro partes, que correspondem √†s cidades onde Kepler viveu e produziu seus estudos: T√ľbingen, Graz, Praga e Linz. A narrativa tem como ponto de partida um Maestlin j√° octogen√°rio √†s voltas com a decrepitude e o remorso de ter por v√°rias vezes negado a Kepler o apoio do qual ele necessitava.

Atrav√©s de suas lembran√ßas, avivadas na leitura recorrente das cartas e do di√°rio do pr√≥prio disc√≠pulo, que lhe chega no decorrer da hist√≥ria pelas m√£os de um emiss√°rio muito especial, a trajet√≥ria de Kepler em flashback logo se imp√Ķe como o verdadeiro foco do romance. Nesse aspecto, chega a parecer √≥bvia a analogia entre os pap√©is de Maestlin e do Salieri concebido por Peter Shaffer em sua pe√ßa Amadeus, que deu origem ao estupendo filme de Milos Forman. Mas as semelhan√ßas param por a√≠: enquanto Salieri √© um tipo complexo e fascinante que divide a cena com Mozart, o Maestlin retratado por Gleiser personifica a mediocridade na figura de um ser caricato que serve apenas de contraponto √† riqueza humana do protagonista. Repetir a mesma f√≥rmula, mas fazendo encolher seu conte√ļdo, talvez n√£o tenha sido a melhor op√ß√£o.

Por outro lado, as 328 p√°ginas s√£o vencidas com facilidade gra√ßas √† maneira objetiva com que Gleiser constr√≥i a narrativa. Com o tempo presente fixado nos √ļltimos dias da vida de Maestlin, a din√Ęmica de cortar para a hist√≥ria em flashback e retornar ao presente cria v√°rios pequenos suspenses no decorrer do romance, mantendo uma discreta por√©m constante tens√£o. Quando o assunto √© astronomia, Gleiser mais uma vez exerce seu reconhecido talento para tornar acess√≠vel ¬ó e agora literariamente palat√°vel ¬ó a letra fria da ci√™ncia.

O exerc√≠cio de explicar em detalhes para deixar compreens√≠vel uma id√©ia pode ser uma virtude em certos casos, mas talvez n√£o funcione muito bem em literatura. Talvez seja ele indiretamente o respons√°vel pelo calcanhar-de-aquiles da obra: o excesso. Gleiser tem o h√°bito de refor√ßar uma id√©ia repetindo-a com outras palavras, o que em nada parece combinar com a sofistica√ß√£o do assunto. Um exemplo: ¬ďO velho mestre virou-se de lado na poltrona, tentando estimular a circula√ß√£o. Ur√Ęnia miou em protesto, agarrando-se √†s roupas do dono, insatisfeita.¬Ē N√£o chega a ser √ļnico, e portanto √≥bvio, o motivo que leva algu√©m a mudar de posi√ß√£o numa poltrona, mas ser√° mesmo necess√°rio explicar tintim por tintim um movimento do personagem para enfatizar a sensa√ß√£o de tempo transcorrido? Quanto √† situa√ß√£o da gata que mia em protesto, existe alguma possibilidade de ela estar ao mesmo tempo satisfeita?

Como se pode confirmar pela enésima vez, o excesso enfraquece o discurso e leva inapelavelmente ao lugar-comum. E — o mais grave — não deixa margem para que o leitor exerça sua sempre ávida imaginação.

Mesmo com esses trope√ßos, A harmonia do mundo √© uma obra s√©ria e consistente que coloca o p√ļblico brasileiro em contato com um personagem dos mais importantes e sedutores da hist√≥ria universal. N√£o ser√° nenhuma surpresa se ela, a exemplo de seu autor, ganhar o mundo e o destaque em outras paragens.


Trecho do livro:
¬ďMaestlin finalmente convenceu Maria a deix√°-lo sozinho na beira do rio. Tinham acabado de fazer as compras no mercado da primavera, sempre o mais festejado. As sacolas estavam cheias de repolhos e nabos, amoras e framboesas, e at√© de algumas flores. A fartura dos campos enfeiti√ßava o ar, as pessoas agiam como se algo importante estivesse por acontecer, quem sabe at√© o fim do conflito entre cat√≥licos e protestantes? A ilus√£o da mudan√ßa inspirava a todos.
O velho mestre sentou-se em seu banco favorito, a poucos metros da √°gua. O Neckar flu√≠a apressado, inchado pela neve que ainda derretia nas montanhas. (...) Olhou em torno para certificar-se de que ningu√©m o espiava e apalpou o bolso interno do manto, procurando o pequeno livro. L√° estava ele, protegido de Ludwig ou de qualquer outro curioso.¬Ē


O autor:
Marcelo Gleiser nasceu no Rio de Janeiro em 1959. Doutor em f√≠sica pelo King¬ís College em Londres, atuou como pesquisador nos Estados Unidos, primeiro no Fermilab em Illinois e depois na Universidade da Calif√≥rnia. Desde 1991 √© professor de f√≠sica e astronomia no renomado Dartmouth College em New Hampshire. Tem diversos livros publicados em sua especialidade, dois deles merecedores do Pr√™mio Jabuti: A dan√ßa do Universo e O fim da Terra e do C√©u. Articulista do jornal Folha de S.Paulo, participa regularmente de programas de divulga√ß√£o cient√≠fica em televis√Ķes do Brasil, Estados Unidos e Inglaterra.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de maio/2007


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