Luiz Paulo Faccioli

Tristes Exemplos - Paulo Sandrini

Luiz Paulo Faccioli


Ind√ļctil. Eis a√≠ um atributo que, se alguma vez me serviu como resenhista, a partir de agora j√° n√£o serve mais. Sen√£o, vejamos. Esta √© a trig√©sima quarta resenha que assino para o Rascunho. N√£o √© obviamente um n√ļmero assim t√£o expressivo, tampouco redondo para que ele sugira algum tipo de comemora√ß√£o. O turning-point √≠ntimo √© que hoje escrevo rompendo de um s√≥ golpe com dois de meus princ√≠pios mais caros. Um deles: nas trinta e tr√™s resenhas anteriores preferi sempre a terceira pessoa.

Houve apenas uma meia exce√ß√£o, quando comentei um livro que traz um narrador mentiroso e criei de galhofa um falso resenhista que se intrometia no trabalho do verdadeiro a bordo de um ¬ďeu¬Ē opini√°tico. Pode parecer bobagem essa preocupa√ß√£o, mas ela expressa meu respeito pelos livros e autores que tenho tido o privil√©gio de comentar. Algo como usar a senhoria, h√°bito cada vez mais restrito por conta do bom argumento de que respeito nada tem a ver com formalidade, e vice-versa (basta assistir a dois parlamentares trocando amabilidades no plen√°rio).

Portanto, apenas para fugir do tal adjetivo aí em cima, a inovação já seria legítima sem causar maiores transtornos, ou seja, sem comprometer o exigido respeito à obra e seu criador. Mas existe um motivo mais sólido para a mudança e ele está relacionado com a quebra do outro princípio, sobre o qual falarei logo mais. Por enquanto, posso adiantar apenas que a intenção é relatar a intimidade de uma experiência de leitura, e para isso a primeira pessoa cai como luva.

¬ďInd√ļctil.¬Ē Assim come√ßa a primeira das treze narrativas de C√≥dice d¬í√≠ncr√≠veis objetos & Hist√≥rias de Lebensraum de Paulo Sandrini, terceira colet√Ęnea do paulista radicado em Curitiba e que vem no formato dois em um, op√ß√£o nada original mas ainda freq√ľente por diversas raz√Ķes; aqui, para dar carona no mesmo volume a um livro pequeno, o Hist√≥rias..., cuja publica√ß√£o individual talvez n√£o fosse comercialmente vi√°vel. Antes de conhecer o texto de um escritor para mim ainda in√©dito, segui o ritual de sempre. Comecei provando a incr√≠vel maciez do papel da capa ¬ó supremo 250 g com lamina√ß√£o fosca, esclarece a √ļltima p√°gina ¬ó, depois prestando aten√ß√£o aos detalhes todos do belo projeto editorial assinado pelo pr√≥prio Sandrini, que tamb√©m √© designer gr√°fico, desde a interessante e colorida figura da capa at√© as fontes das letras, passando pelo papel chamois luna do miolo, as v√°rias ilustra√ß√Ķes de Guilherme Zamoner e a ep√≠grafe com a c√©lebre frase do pintor Francisco de Goya: ¬ďlos sue√Īos de la raz√≥n engendran monstruos¬Ē. Confesso ter aspirado, como de h√°bito, seu cheiro inigual√°vel de livro novo. Li a contracapa e encontrei um trecho enigm√°tico e bem escolhido. Li a orelha assinada por Marcelo Benvenutti, que teve a divertida id√©ia de dividir o texto em duas partes, Esquerda e Direita, pondo cada qual no respectivo lado.

At√© agora, o bom gosto s√≥ fez agu√ßar a curiosidade. Li o bizarro pref√°cio assinado pelo autor, sob o t√≠tulo de Codice degli oggetti incredibili, explicando a origem do primeiro livro: um manuscrito trazido de It√°lia pelo bisav√ī dos Sandrini, depois perdido e resgatado parcialmente pela mem√≥ria da fam√≠lia, e que continha as hist√≥rias mirabolantes sobre as quais se baseiam agora seus cinco contos. Tudo corria √†s mil maravilhas.

¬ďInd√ļctil. Eu sempre fora um sujeito assim.¬Ē Depois do arca√≠smo no t√≠tulo e da abertura com uma palavra pouco ou nada usual no portugu√™s contempor√Ęneo, surge uma constru√ß√£o no pret√©rito mais-que-perfeito. ¬ďO Papa morrera¬Ē foi o que me veio √† cabe√ßa, lembran√ßa boa de um in√≠cio famoso dentre as minhas leituras adolescentes. ¬ďUm inflex√≠vel incur√°vel (...) uma soberba inexaur√≠vel distinguia, inapelavelmente, a minha personalidade.¬Ē Estava clara a predile√ß√£o de Sandrini pelos adjetivos e adv√©rbios, mas talvez a recorr√™ncia do prefixo ¬ďin¬Ē tenha sido mero descuido... ¬ďManifestava sempre minhas ila√ß√Ķes sobre os mais variados assuntos e opini√Ķes sobre as mais insignes personalidades com a m√°xima acuidade em minhas declara√ß√Ķes a respeito delas (...) tal compila√ß√£o causaria um furor indel√©vel nos indiv√≠duos assestados (...) mais dinheiro nos nossos coadunados bolsos...¬Ē Minha nossa! N√£o tinha chegado ainda ao fim do primeiro par√°grafo, e esse desfile de termos esnobes sugeria que talvez fosse bom deixar √† m√£o o dicion√°rio. O que estaria ainda por vir? Procurei com os olhos o velho Aureli√£o, j√° aposentado pela vers√£o eletr√īnica do Houaiss, imaginando que ele exultaria em voltar √† ativa. ¬ďEssas enchidas de bola no meu ego, √© preciso dizer, corroboravam meu comportamento individualista insensato megaloman√≠aco e de senhor de todas as verdades.¬Ē Nesse ponto comecei a me preocupar. Que o narrador apresentasse um discurso empolado, talvez como elemento de caracteriza√ß√£o, ainda seria aceit√°vel. Mas ¬ďenchida de bola no ego¬Ē, al√©m de destoar do resto, √© medonho e, por isso mesmo, nem um pouco liter√°rio.

Segui pelo conto O capacete da imortalidade, esbarrando ora em voc√°bulos cultos e constru√ß√Ķes pomposas ¬ó ¬ďdo s√≥lio em que acomodava meu adiposo traseiro como sumo pont√≠fice regional da religi√£o do capital¬Ē ¬ó, ora em solu√ß√Ķes coloquiais ¬ó ¬ďestou de fu√ßa pro ch√£o molhado¬Ē ¬ó e em algumas passagens de gosto mais do que duvidoso ¬ó ¬ďmas que lhes beijei os rostos e pedi-lhes perd√£o umas mil vezes, ah, isso eu fiz.¬Ē. Talvez a pretens√£o tenha sido a ironia; nesse caso, o autor pecou pelo excesso. A hist√≥ria √© absurda, mas isso por si s√≥ n√£o quer dizer rigorosamente nada, nem a favor nem contra. Um empres√°rio bem-sucedido e com inclina√ß√£o nazista sofre um atropelamento ao tentar fugir de um assalto, fica em coma por dois meses e, ao sair dele, resolve promover uma radical mudan√ßa em sua vida. Um de seus novos objetivos √© uma longa viagem de motocicleta, e para isso precisa de um capacete adequado √† vulnerabilidade craniana que ele imagina ter adquirido. Encontra ent√£o o objeto referido no t√≠tulo, sofre um novo acidente, a cabe√ßa permanece viva depois de ter sido brutalmente apartada do corpo.

Nova mudança, ele se torna escritor e ganha o Nobel. Acaba perseguido pelos árabes por ter permitido a tradução de sua obra para o hebraico, no afã de se transformar em best-seller também no mundo judeu. Haja tragédia para tanta mudança.

¬ďA literatura n√£o √© feita de id√©ias, mas sim de palavras¬Ē. O conselho de Flaubert ao amigo Degas (narrei o epis√≥dio na resenha do m√™s passado) foi a primeira coisa que me veio √† lembran√ßa ao terminar o conto, frustrado. Mais que isso: profundamente irritado. N√£o era poss√≠vel que a boa expectativa tivesse acabado dessa forma: uma historieta rid√≠cula e mal narrada. Ali√°s, ela s√≥ se torna rid√≠cula na medida em que n√£o √© bem contada, ou algu√©m se atreve a qualificar de rid√≠culo o argumento de A Metamorfose de Kafka?

Faltavam doze contos, e decidi que n√£o iria perder mais meu tempo com eles. Acalmado o primeiro impulso e tentando ser justo, dei ao livro uma segunda chance: escolhi outros tr√™s de forma aleat√≥ria. Infelizmente, a m√° impress√£o persistiu. Resolvi ent√£o desistir da empreitada. N√£o via sentido algum em assinar uma resenha de todo negativa, mesmo com o pressuposto que seria apenas uma opini√£o e, como tal, sujeita a r√©plicas, tr√©plicas e toda sorte de discord√Ęncia. Sempre defendi o sil√™ncio como a cr√≠tica mais contundente. Entretanto, minha inten√ß√£o durou apenas tr√™s dias, o tempo de descobrir na internet um artigo bastante elogioso ao C√≥dice... que me fez atinar que, se algu√©m conseguira encontrar beleza numa obra que tanto me desagradava, o contradit√≥rio precisava ser dito. Foi como decidi romper com outro princ√≠pio e retornar ao trabalho, garantindo a mim mesmo uma esp√©cie de benef√≠cio da d√ļvida. Certa feita uma leitora do Rascunho escreveu comentando que talvez eu tivesse lido de cabe√ßa para baixo determinado livro, obviamente por n√£o ter concordado com minha opini√£o sobre ele. Quem sabe tenha acontecido algo semelhante com a leitura do C√≥dice...? Aceito, de bom grado, qualquer contraponto. Estou apenas pondo minhas cartas na mesa. O leitor que decida.

A indecis√£o entre dois estilos, um pendendo ao culto e outro, ao coloquial, √© o grande problema da obra no que diz respeito √† linguagem. Pior: muda o narrador, mas o registro permanece inalterado. Uma rara exce√ß√£o ¬ó e o melhor momento do livro ¬ó √© o conto Sand√°lias de Hermes que, se n√£o est√° livre de alguns trope√ßos, eles ali s√£o menos comprometedores. Uma boa revis√£o teria minimizado o impacto de algumas solu√ß√Ķes, mas ela tamb√©m cochilou de forma vergonhosa:

¬ďDite pela sua pujan√ßa atual, ao contr√°rio de outros tempos, j√° n√£o pode ser considerada um mundo crasso; a metr√≥pole √© hoje um lugar de refinamento e muita badala√ß√£o, seus poss√≠veis embustes culturais n√£o mais devem implicar em ignor√Ęncias e equ√≠vocos. Ali, poetas n√£o precisar√£o mais de poesia para provar talento. Bastar√°-lhes a classifica√ß√£o: Poeta.¬Ē (sic)

Foi necess√°rio um sic geral, tantos s√£o os deslizes encontrados nesse pequeno trecho do conto Em frente aos port√Ķes de Dite. Dois deles atentam diretamente contra o vern√°culo: ¬ďimplicar em¬Ē, erro de reg√™ncia bastante comum na l√≠ngua falada mas inadmiss√≠vel no texto liter√°rio, e ¬ďbastar√°-lhes¬Ē, √™nclise imposs√≠vel que chega a causar arrepios ¬ó o correto, ¬ďbastar-lhes-√°¬Ē, tamb√©m d√≥i no ouvido, e a solu√ß√£o teria sido construir a frase de outra maneira. Afinal, √© justamente esta a sensibilidade que se espera do escritor, cujo compromisso maior deve ser sempre com a est√©tica. Por outro lado, h√° express√Ķes pretensamente inteligentes que n√£o conseguem ir al√©m da vacuidade: o que √© um ¬ďmundo crasso¬Ē ou um ¬ďposs√≠vel embuste cultural¬Ē? Existe uma boa raz√£o para se flexione no plural o substantivo abstrato ¬ďignor√Ęncia¬Ē? Talvez as respostas estejam na pen√ļltima frase: no ex√≥tico mundo idealizado por Sandrini, ¬ďpoetas n√£o precisar√£o mais de poesia para provar talento¬Ē, e ele ainda insiste na sucess√£o de ¬ďp¬Ē, a mostrar que o futuro j√° est√° a√≠, fora dos limites de Dite.

Fica evidente, desde o come√ßo, que a grande preocupa√ß√£o de Sandrini √© com a hist√≥ria propriamente dita, e ele se restringe a cont√°-la quase sempre de forma linear, na ordem exata em que os epis√≥dios v√£o surgindo em sua mente de ilimitado poder imaginativo. Vem da√≠ a prefer√™ncia pela narra√ß√£o no presente. E tamb√©m um aspecto positivo da obra: os contos todos s√£o vencidos com facilidade, n√£o h√° desvios nem sobressaltos que n√£o sejam os intr√≠nsecos √† pr√≥pria maluquice dos enredos, o discurso n√£o sai nunca dos trilhos. Mas o m√©rito logo se transforma em v√≠cio. Preocupado em contar, Sandrini apenas conta. Nada sugere mas revela tudo. N√£o constr√≥i um √ļnico personagem de carne e osso nem explora suas contradi√ß√Ķes. Tampouco se interessa por ambig√ľidades: tudo √© sempre p√£o, p√£o, queijo, queijo. E, maior entre os maiores pecados, n√£o d√° a m√≠nima ao subtexto. Se o personagem √©, como ele mesmo diz, ind√ļctil, limita-se a qualific√°-lo como tal e n√£o acha necess√°rio descrever uma √ļnica cena em que o leitor possa enxergar por ele mesmo essa caracter√≠stica t√£o importante que, sozinha, √© chamada a abrir o conto. Sem √Ęnimo ou paci√™ncia para criar o subtexto, Sandrini vale-se de todos os adjetivos e adv√©rbios que encontra, poluindo a narrativa com uma ret√≥rica f√°tua e afastando perigosamente a participa√ß√£o do leitor, algo que o verdadeiro artista sabe que jamais pode se dar ao luxo de dispensar.

Prevejo me acusarem de ter iluminado apenas defeitos pontuais e, atrav√©s deles, tentado desmerecer todo o conjunto. N√£o √© verdade. Se os exemplos escolhidos se referissem a situa√ß√Ķes eventuais, juro que eu seria o primeiro a ignor√°-los. Infelizmente eles s√£o apenas uma pequena amostra.

Alheio a todos esses comentários, o Códice... permanece ao meu lado, onde sempre deixo o livro sobre o qual esteja escrevendo. Continuo olhando com carinho para ele: a belíssima capa, a ilustração, as cores, a maciez do papel, o cheiro de livro novinho... Como eu queria estar enganado sobre tudo o que falei.
Talvez ninguém acredite, mas esta resenha me entristeceu.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de fevereiro/2006


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