Luiz Paulo Faccioli

A greve da indesejada - José Saramago

Luiz Paulo Faccioli


Detenhamo-nos por um instante na figura mai√ļscula e inconfund√≠vel de Jos√© Saramago: enquanto seu porte avantajado mostra a solidez e o vigor do camp√īnio de origem ¬ó e consegue a rara proeza de ocultar a octogen√°ria idade ¬ó, o rosto de angulosos contornos, sobrancelhas fartas e olhos pequenos atr√°s dos enormes √≥culos, conjunto que faz a alegria dos caricaturistas, comp√Ķem o ar grave e algo blas√© do intelectual. Aliada a essa ligeira incongru√™ncia no visual, a fala serena, em tom sempre baixo e um pouco arrastada, no sotaque caracter√≠stico dos de al√©m-mar. A imagem em nada combina com a velocidade e o depauperamento cultural do mundo contempor√Ęneo, com a corrida tecnol√≥gica ou o consumismo exacerbado. Muito menos com o fen√īmeno da globaliza√ß√£o, lugar-comum entre os modismos de hoje. √Č dif√≠cil at√© mesmo imagin√°-lo √† frente de um microcomputador, pilotando o correio eletr√īnico.

Saramago √© um cavalheiro √† la antiga, que ¬ó assim idealizamos ¬ó continua a escrever seus livros de pr√≥prio punho, talvez com caneta-tinteiro, unindo a paci√™ncia de um oriental e a vis√£o de um humanista. √Č, sobretudo, um ser inofensivo, que construiu a carreira liter√°ria passo a passo, como convinha a uma √≠ndole desdenhosa √† pressa. Aos poucos, por√©m, conseguiu atrair a aten√ß√£o do mundo todo para sua prosa barroca e inimit√°vel, mescla de densidade reflexiva, discurso sinuoso e humor, que ele classifica, modestamente, de ¬ďinten√ß√£o da oralidade¬Ē.

O prest√≠gio de Jos√© Saramago no universo das artes veio num crescendo ao longo das √ļltimas quatro d√©cadas e culminou com o Nobel em 1998, na primeira e √ļnica vez em que o pr√™mio internacional mais importante da literatura foi concedido a um escritor de l√≠ngua portuguesa. Como era de se esperar, a conquista trouxe a notoriedade e, junto com ela, tamb√©m a controv√©rsia. Primeiro foram os apaixonados de primeira hora da literatura lusitana, para quem o brilho da premia√ß√£o a Saramago acabou por ofuscar o trabalho de outros escritores portugueses de igual ou maior quilate. Estes, contudo, usando a polidez caracter√≠stica, afirmam e reafirmam que s√£o gratos a Jos√© (assim mesmo eles o chamam) por ele ter iluminado com seu pr√™mio a produ√ß√£o liter√°ria de Portugal e de outros pa√≠ses lus√≥fonos. Talvez essa demonstra√ß√£o de eleg√Ęncia espelhe mesmo a verdade. Mas alguns coment√°rios de natureza pol√≠tica feitos pelo escritor geraram celeuma. Opinando sobre o eterno conflito no Oriente M√©dio, assumiu uma postura francamente favor√°vel aos palestinos e hostil aos judeus, o que levou seu colega israelense Am√≥s Oz a declarar que ele sofria de ¬ďmiopia intelectual¬Ē (depois da bronca de Oz, Saramago trocou os √≥culos que eram sua marca registrada por um modelo menor e mais moderno, tornando inevit√°vel a piada).

A vis√£o cr√≠tica do sistema pol√≠tico e econ√īmico hoje predominante no mundo ¬ó a que apareceu at√© agora nos livros e, portanto, a √ļnica que nos interessa no momento ¬ó peca por seu anacronismo. Comunista de velha cepa, na defini√ß√£o precisa de Moacyr Scliar, ele ainda raciocina pelos dicot√īmicos e manique√≠stas conceitos de esquerda e direita, exerc√≠cio que, levado √† fic√ß√£o, acaba √†s vezes tangendo perigosamente o panflet√°rio. √Č o caso de Ensaio sobre a lucidez. Lan√ßado em 2004, o romance tem um argumento dos mais originais ¬ó uma elei√ß√£o municipal cujo escrut√≠nio vai revelar um √≠ndice de votos em branco na formid√°vel casa dos oitenta por cento, gerando uma alarmante crise pol√≠tica em todo o pa√≠s ¬ó, mas a explora√ß√£o de suas v√°rias possibilidades liter√°rias √© tra√≠da em favor de uma inexplic√°vel √™nfase no matiz ideol√≥gico, o que acabou frustrando o leitor que se tinha fascinado antes por um irm√£o mais velho, Ensaio sobre a cegueira, de 1995, e esperava encontrar algo de igual grandeza. Afinal, quando um Nobel lan√ßa livro, n√£o se pode mesmo esperar dele nada menos que a excel√™ncia.

Essas considera√ß√Ķes todas passam inevitavelmente pela cabe√ßa do leitor que tem agora em m√£os As intermit√™ncias da morte, romance cujo lan√ßamento mundial aconteceu no Brasil h√° poucas semanas. Vig√©simo t√≠tulo do escritor a entrar para o cat√°logo da Companhia das Letras, ele segue o mesmo padr√£o visual dos anteriores que, entretanto, sempre apresenta sutis varia√ß√Ķes de uma obra a outra. Nessa mais recente, a cor predominante √© o branco, do miolo √† capa, e esta, assinada por H√©lio de Almeida, traz em relevo a reprodu√ß√£o de um belo trabalho do artista pl√°stico Arthur Luiz Piza. Na contracapa est√° transcrita a abertura do romance. A escolha n√£o poderia ter sido mais feliz: em poucas palavras, o instigante trecho cont√©m o argumento principal da hist√≥ria, al√©m de se constituir num √≥timo exemplo da prosa peculiar de Saramago (a pedido do autor, √© sempre mantida a ortografia original nas edi√ß√Ķes brasileiras de todas as suas obras):

¬ďNo dia seguinte ningu√©m morreu. O facto, por absolutamente contr√°rio √†s normas da vida, causou nos esp√≠ritos uma perturba√ß√£o enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que n√£o havia not√≠cia nos quarenta volumes da hist√≥ria universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fen√≥meno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pr√≥digas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doen√ßa, uma queda mortal, um suic√≠dio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de autom√≥vel t√£o frequentes em ocasi√Ķes festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de √°lcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar √† morte em primeiro lugar.¬Ē

Embora absurdo, o que a princ√≠pio n√£o passa de um dado estat√≠stico de uma √ļnica data acaba se repetindo no dia seguinte e tamb√©m no outro, autorizando por fim a popula√ß√£o e as autoridades do fict√≠cio pa√≠s a pensar que a morte tenha de fato entrado em greve. Passado o regozijo inicial por essa inesperada conquista da imortalidade humana, o caso logo revela seu lado nocivo e acaba atingindo propor√ß√Ķes de calamidade p√ļblica. Primeiro os agentes funer√°rios, depois os hospitais, os asilos de velhos ¬ó apelidados de ¬ďlares do feliz ocaso¬Ē na ironia fin√≠ssima e contumaz de Saramago ¬ó, as companhias seguradoras, v√°rios setores da economia entram em colapso por conta desse descontrole no fornecimento de, digamos assim, sua mat√©ria-prima: enquanto para alguns faltam defuntos, outros n√£o t√™m como administrar o excesso inusitado de pacientes. E mais n√£o se deve avan√ßar neste resumo sem que se comprometa a surpresa do leitor.

A originalidade da trama n√£o garante por si a novidade, como se viu h√° pouco. Em As intermit√™ncias da morte ela se ap√≥ia em outros detalhes. Em primeiro lugar, chama a aten√ß√£o o fato de o romance ser excepcionalmente enxuto se comparado aos outros que o antecedem, e isso favorece sobremaneira o ritmo e a for√ßa do texto. √Č claro que a concis√£o, no caso de Saramago, deve ser sempre relativizada: os longos par√°grafos, as frases sinuosas, as digress√Ķes, tudo continua como sempre foi ¬ó e nem se poderia esperar ou desejar uma mudan√ßa profunda num tra√ßo estil√≠stico distintivo do autor e que parece j√° ter chegado definitivamente √† maturidade. Mas um tema t√£o f√©rtil nas m√£os de um escritor caudaloso por natureza teria no passado exigido muito al√©m das ex√≠guas 208 p√°ginas que comp√Ķem o livro atual. Permanece tamb√©m a s√°tira pol√≠tica, outro poderoso ingrediente, mas a ideologia sai de cena com a s√°bia op√ß√£o por um pa√≠s cujo regime √© o da monarquia constitucional nos moldes da inglesa: com a figura decorativa do rei como chefe de estado e um primeiro-ministro no comando de um governo corrupt√≠vel que s√≥ faz agravar a crise a cada interfer√™ncia desastrosa, o autor monta um cen√°rio perfeito e se diverte, na primeira parte da narrativa e justamente sua melhor, a imaginar as trapalhadas que os governantes conseguem sempre cometer em casos que fujam da banalidade burocr√°tica, bem como as chicanas onde eles est√£o invariavelmente metidos, a despeito de qualquer situa√ß√£o, at√© mesmo numa t√£o absurda como a imaginada.

Outro tema recorrente em Saramago, levado agora ao extremo do nonsense, √© o da impossibilidade. O pr√≥prio autor, em recente entrevista √† televis√£o brasileira, admitiu que tornar poss√≠vel o que jamais ser√° no plano real √© para ele o aspecto mais fascinante da cria√ß√£o ficcional. O ins√≥lito, mais do que servir ao car√°ter fabular de toda sua obra, presta-se tamb√©m a expor o homem confrontado com aquilo que ele n√£o tem condi√ß√Ķes de compreender, ridicularizando, de certa forma, a eterna tentativa de ele tratar pela l√≥gica humana quest√Ķes absolutamente transcendentes a ela. Quando a morte entra na hist√≥ria como personagem real, inaugurando a segunda fase do romance, ela toma a velha e conhecida imagem do esqueleto e sua gadanha, que pode assumir, eventualmente, a forma de uma bela mulher. Como se v√™, nada de novo. Contudo, √† medida que a narrativa avan√ßa, Saramago mostra-se mais afiado que nunca no exerc√≠cio daquilo que ele considera o melhor de seu of√≠cio: transformar o absurdo em realidade. Ent√£o √© a morte que se v√™ subitamente confrontada com um problema ins√≥lito, completamente incompreens√≠vel para ela, cuja solu√ß√£o levar√° o romance a um fecho de ouro, chegando ao requinte de usar como derradeira frase a mesma que o abre.

Caso o leitor tenha alguma vez percebido em Saramago sinais de fadiga pela repetição de uma fórmula que já dera certo mas andava carente de renovação, As intermitências da morte está aí para provar que o grande escritor continua em sua melhor forma.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de dezembro/2005


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