Luiz Paulo Faccioli

Vertigo liter√°rio - Ricardo Soares

Luiz Paulo Faccioli


Quando o assunto √© literatura, as convic√ß√Ķes vivem sempre a nos pregar boas pe√ßas. Basta que num dia se afirme, por exemplo, que a prosa n√£o aceita uma determinada solu√ß√£o t√≠pica da poesia, e eis que surge no dia seguinte, como por encanto, um texto que nos mostra ser poss√≠vel a exce√ß√£o e ¬ó muito pior ¬ó que ela funcione, e bem. Pronto, l√° se vai uma de nossas certezas absolutas. Outro exemplo: embora se tente h√° anos quebrar o paradigma, para que exista um romance √© necess√°rio uma hist√≥ria. Por mais confusa, fragment√°ria ou escondida que ela esteja, sem hist√≥ria n√£o h√° romance. Sobre isso nunca houve o que discutir. Nem √© preciso ir muito longe: no dicion√°rio Houaiss, as quatro acep√ß√Ķes da palavra ¬ďromance¬Ē na rubrica ¬ďliteratura¬Ē referem direta ou indiretamente √† hist√≥ria; a principal delas, justamente a que define a pe√ßa liter√°ria tal como a concebemos hoje, diz que o romance √© a ¬ďprosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imagin√°rios, √†s vezes inspirados em hist√≥rias reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicol√≥gicos, na cr√≠tica social etc.¬Ē. Pois bem, leia-se agora o que diz o jornalista Cl√©ber Eduardo numa √≥tima resenha na revista √Čpoca: ¬ďCinevertigem, romance de estr√©ia do jornalista paulistano Ricardo Soares, (...) n√£o conta hist√≥ria. Faz colagem de part√≠culas, muito rarefeitas, com um narrador que, sem viver situa√ß√£o alguma, imagina-se em outras vidas.¬Ē Pimba!, l√° se vai outra: um romance agora que n√£o conta hist√≥ria! Mesmo que se possa discordar da afirma√ß√£o do resenhista, o simples exerc√≠cio de argumentar contra ela propicia uma revis√£o de conceitos. Mal comparando, algu√©m j√° tentou provar a redondeza do globo a quem p√īs na cabe√ßa que ele pode, sim, ser quadrado? (E, se h√° ainda alguma d√ļvida de que uma esfera possa adquirir outra forma, a arte, e somente ela, responde com seu poder m√°gico de criar um globo quadrado e conseguir que ele permane√ßa sendo globo.)

Em resumo, arte e dogma n√£o nasceram mesmo um para o outro. E nunca ser√° demais repetir que na literatura n√£o existe regra que n√£o possa ser violada, desde que o resultado conven√ßa o leitor. √Č para ele afinal que se escreve.

Vencer as 124 p√°ginas de Cinevertigem equivale a uma prova de resist√™ncia para algu√©m acostumado √† prosa convencional. As frases dispensam as mai√ļsculas iniciais, a pontua√ß√£o √© deficiente, √†s vezes ca√≥tica, o discurso se estrutura numa sucess√£o de imagens avulsas que nem chegam a formar cenas, t√£o r√°pido elas v√™m e somem, cambiando sem que se perceba nexo entre elas e num ritmo alucinante j√° comparado, muito apropriadamente, ao de um videoclipe. Ali√°s, uma analogia perfeita. Numa concep√ß√£o dessa natureza, n√£o se consegue perceber um desenvolvimento tem√°tico, outro dos sustent√°culos do romance.

O protagonista ¬ó se √© que se pode consider√°-lo como tal ¬ó √© um narrador em primeira pessoa que veste a pele de outros tantos personagens, reais e imagin√°rios: ora ele √© uma velha que adultera cheques, ora o antrop√≥logo Darcy Ribeiro, Macuna√≠ma, um c√£o, e por a√≠ vai. Mas Soares n√£o avan√ßa na constru√ß√£o psicol√≥gica desse elenco formid√°vel e inusitado. S√£o todos eles flagrados num momento espec√≠fico, vistos apenas de fora, como part√≠cipes desse videoclipe vertiginoso que sugere o t√≠tulo da obra e que foi muito bem traduzido na colagem vistosa da capa concebida por Tita Nigr√≠. Nem chegam a ser personagens, no sentido estrito, mas figurantes de uma √ļnica atua√ß√£o. Complicado? √Č, de fato.

Sem hist√≥ria (vamos aceitar por ora a afirma√ß√£o), desenvolvimento, personagens, resta esperar que pelo menos o texto, apesar das transgress√Ķes formais, se acomode no padr√£o daquilo que se costuma chamar de ¬ďprosa¬Ē. Mas o que encontramos √© a frase curta, econ√īmica, repetida, ritmada... Um eco proposital funciona como rima. O jogo de palavras e as refer√™ncias intertextuais s√£o abundantes:

¬ďquem, quem, quem, quem, quem √© que me cobre de beijos? quem, quem me lambe a ponta do nariz, passa o indicador no l√≥bulo da orelha, quem, quem passa a m√£o nos meus olhos, quem, que espreme as espinhas da minha bunda, enfia o dedo entre meus cabelos sujos, quem, quem me limpa os dentes, quem, quem me corta as unhas, repara que as pontas est√£o mal aparadas, quem, quem nota as minhas c√°ries rotundas, esses canais abertos, nessa bocona obturada, nessas vertigens profundas?
veloz dentro dessa noite oriunda, quem, quem, quem me acende a boca do fog√£o que est√° entupida, quem que me frita um ovo do avesso, quem me paga a comida, compra a ra√ß√£o para o c√£o, entende que os livros est√£o espalhados pelo ch√£o porque assim eles s√£o...¬Ē


O trecho acima abre o volume, assim mesmo como foi transcrito, sem mai√ļsculas, apenas com os recuos indicativos de par√°grafo. E √©, sem d√ļvida alguma, um come√ßo instigante, desses que ati√ßam de cara a curiosidade do leitor. O ¬ďquem, quem, quem me d√°¬Ē, depois transmutado em ¬ďquem me d√°, quem me d√°¬Ē, vai aparecer in√ļmeras vezes, abrindo a maioria dos par√°grafos e ressoando dentro deles como um leitmotiv inebriante. A princ√≠pio sugestiva, a repeti√ß√£o se desgasta pouco a pouco e no final j√° desafia a paci√™ncia do leitor, √°vido de encontrar logo a tal hist√≥ria ¬ó ou, pelo menos, a Pedra de Roseta que o ajude afinal a decifrar o que est√° acontecendo.

L√° pelas tantas, √© anunciado: ¬ďportanto preste aten√ß√£o para n√£o ficar √† deriva √© preciso ouvir-lhe a narrativa...¬Ē, e entra um relato de canga√ßo, em versos de cordel. O flerte descarado autoriza a pensar que, se o texto fosse todo ele disposto em forma de versos, talvez coubesse na classifica√ß√£o de poesia. Pelo menos, ele j√° mereceu ser chamado de ¬ďprosa po√©tica¬Ē, o que, pelos exemplos aqui trazidos, se configura obviamente um exagero.

Admitida a hip√≥tese, e diante do que se levantou at√© agora, a pergunta se imp√Ķe: por que Ricardo Soares n√£o escreveu logo um livro de poesia, ao inv√©s de subverter dessa maneira a estrutura do romance e insistir que ele seja lido como tal? A resposta tamb√©m cai de madura: talvez o texto n√£o sobrevivesse como poesia. Mesmo que ela seja indubitavelmente o g√™nero que mais aceita ousadias formais, a poesia tamb√©m √© um territ√≥rio que poucos dominam. O leitor ¬ó ele mesmo, essa figura t√£o dif√≠cil de ser contentada ¬ó que o diga. A simples constata√ß√£o de que h√° ritmo e rima no discurso n√£o o eleva automaticamente √† condi√ß√£o de poesia. Mesmo o jogo de palavras, por inspirado que seja, n√£o passa de um subproduto da linguagem po√©tica. Ou seja, apesar de possuir todas as armas, √© um tremendo engano pensar que Cinevertigem pudesse ser poesia e n√£o prosa, resolvendo assim a equa√ß√£o.

Voltemos agora a uma quest√£o que ficou propositadamente guardada, esperando sua vez de entrar em cena: a hist√≥ria. A despeito de tudo o que se falou, nesta e em outras resenhas, existe, sim, uma bela hist√≥ria, mas ela s√≥ ser√° revelada na √ļltima p√°gina, onde Ricardo Soares nos espera com uma galhofa: ¬ďpara os que come√ßam lendo um livro pelo fim devo dizer que...¬Ē E mais n√£o se pode avan√ßar, caso contr√°rio a surpresa do leitor estar√° comprometida. A seq√ľ√™ncia da frase traz a t√£o esperada chave, que vai dar sentido a tudo o que se leu. Algo a ver talvez com vertigem, no plano metaf√≥rico, imagin√°rio, quem sabe... eis a√≠ uma pista.

Ricardo Soares não é um neófito na literatura. Autor de vários títulos infanto-juvenis, ele é também jornalista, diretor de TV e roteirista, dirige documentários e programas de literatura para a televisão, além de ter sido cronista de O Estado de S. Paulo e do Jornal da Tarde. Sua estréia na narrativa longa ficcional não vai passar em brancas nuvens. Cinevertigem é uma obra curiosa e necessária, dessas que surgem de tempos em tempos para desacomodar, propor, sugerir, ou mesmo só para trazer à tona a eterna discussão sobre os limites da arte e da literatura. Muitos irão aplaudi-la, outros, desdenhá-la. Ninguém ficará indiferente. E o tempo, só ele, poderá dizer de que lado está hoje a razão.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de novembro/2005.


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