Luiz Paulo Faccioli

Prisioneiro de dois senhores - Carlos Moraes

Luiz Paulo Faccioli


¬ďHoje √© s√°bado, amanh√£ √© domingo / A vida vem em ondas, como o mar / Os bondes andam em cima dos trilhos / E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.¬Ē Corre a vida nessa pl√°cida obviedade: os bondes n√£o se desviam sequer um cent√≠metro do trajeto predeterminado, o mar segue em seu perene movimento. No entanto, Deus feito homem resolve descer a este mundo para ser imolado em nome da salva√ß√£o de todos os outros homens. Salvar-nos afinal de qu√™? ¬ďMal procedeu o Senhor em n√£o descansar durante os dois √ļltimos dias / Trinta s√©culos lutou a humanidade pela semana inglesa / Descansasse o Senhor e simplesmente n√£o existir√≠amos¬Ē. Ou seja, o que pretendia Vinicius de Moraes em seu famoso O Dia da Cria√ß√£o era ironizar a divina decis√£o ao sexto dia ¬ó tomada t√£o-somente para que Ele n√£o ficasse, segundo o poeta, ¬ďcom as vastas m√£os abanando¬Ē ap√≥s ter criado todo o resto ¬ó e que acabou dando no que deu. A desordem resultante da experi√™ncia humana recrudesce a cada s√°bado e leva a pensar que ¬ďdeverias ter sido riscado do Livro das Origens, √≥ Sexto Dia da Cria√ß√£o¬Ē.

Tudo o que envolve as quest√Ķes de f√© tem sempre algo de controverso (servindo at√© mesmo ao deboche do poeta carioca e de outros artistas). Nem poderia ser diferente: ainda que haja uma motiva√ß√£o externa, a f√© √© um exerc√≠cio √≠ntimo e intransfer√≠vel; o consenso, a despeito de qualquer doutrina√ß√£o, uma utopia. A d√ļvida √© ingrediente constante e at√© mesmo essencial em seu papel de ant√≠tese √† cren√ßa. Acrescente-se a isso a impenetrabilidade de alguns dogmas e preceitos religiosos, e pronto, temos a√≠ um caldo espesso, mat√©ria-prima de luxo para a literatura da qual, ao longo dos anos, v√°rios escritores t√™m se ocupado, com os mais diferentes resultados.

Um outro Moraes, agora o ga√ļcho que traz Carlos como nome de batismo, ordenado padre em 1966 e tendo depois renunciado aos votos, viveu naturalmente o conflito de que se falou at√© agora, com o agravante de ter professado a religi√£o para mais tarde desistir dela. Sofreu, simultaneamente, a humilha√ß√£o de ser julgado e preso pela ditadura militar por uma suposta atividade comunista. De novo livre, da condena√ß√£o e dos votos, tornou-se jornalista e escritor, ganhando um Pr√™mio Jabuti na categoria infanto-juvenil com A vingan√ßa do tim√£o. Quando finalmente se decide, tr√™s d√©cadas depois, a explorar na literatura sua experi√™ncia pessoal nos anos de chumbo e questionamento, produz ent√£o um romance in√©dito por sua originalidade, o rec√©m-lan√ßado Agora Deus vai te pegar l√° fora. A orelha esclarece que n√£o se trata de uma autobiografia; apesar de narrado em primeira pessoa e baseado em alguns fatos reais, trata-se de uma pe√ßa ficcional. A edi√ß√£o da Record traz uma elegante e s√≥bria capa em preto e amarelo, assinada por Evelyn Grumach e Carolina Ferman sobre foto de Ana Paula Costa, onde o inusitado fica por conta do jocoso subt√≠tulo: anota√ß√Ķes de um padre preso numa cidade sem zool√≥gico. De resto, o leitor vai se deparar com outras estranhezas.

Numa pequena cidade fronteiri√ßa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, Padre Jo√£o √© preso ap√≥s um tragic√īmico julgamento ¬ó desses que s√≥ um tribunal militar num regime de exce√ß√£o √© capaz de produzir. Denunciado por algum alcag√ľete da sua pr√≥pria par√≥quia e condenado a cinco anos de reclus√£o por ¬ďguerra psicol√≥gica adversa¬Ē ¬ó seja l√° o que isso for ¬ó, come√ßa a cumprir a pena no quartel e em seguida, com a ajuda de um primo influente, √© transferido para o pres√≠dio civil, onde aguarda o resultado de duas a√ß√Ķes: a apela√ß√£o da senten√ßa a um tribunal superior e o pedido de dispensa dos votos ao Vaticano. Em fun√ß√£o de seu parentesco com o primo ilustre, Padre Jo√£o goza de alguns privil√©gios na cadeia.
O gosto pelo futebol, como jogador talentoso e torcedor doente do Internacional de Porto Alegre, s√≥ faz garantir sua popularidade entre seus carcereiros e demais presos. O carisma de Padre Jo√£o se deve em grande parte a sua atua√ß√£o no esporte preferido do brasileiro: mais do que no p√ļlpito, onde os serm√Ķes inflamados podem ter sido os respons√°veis pela den√ļncia, foi nos vesti√°rios e nas rodas de cerveja ap√≥s os jogos que ele se aproximava de seu rebanho e ouvia hist√≥rias nunca trazidas ao confession√°rio. Na pris√£o, isso se intensifica agora nas rodas de mate e nas partidas organizadas a toda a hora sob os mais variados pretextos. L√° tamb√©m ele encontra um lugar de retiro e medita√ß√£o, ao qual chama de seu zigurate: uma simples tampa de caixa-d¬í√°gua de onde pode vislumbrar o c√©u estrelado. Uma inquieta√ß√£o permanente √© a tentativa de decifrar os verdadeiros motivos de seu processo e condena√ß√£o.

Tal argumento poderia ter facilmente conduzido ao drama ou at√© mesmo ao paroxismo. N√£o √© o que ocorre. Filho da terra, Padre Jo√£o conhece muito bem a comunidade onde atuou. A narrativa √© recheada de causos, ditos e express√Ķes regionais, o que de forma alguma atrapalha a compreens√£o do leitor desacostumado ao linguajar pampiano; por estar bem dosado, isso contribui para que o texto ganhe uma ins√≥lita leveza. (√Č importante frisar que o resenhista, embora ga√ļcho como o autor, √© citadino de nascimento e de moradia e tampouco est√° familiarizado com muitos dos regionalismos campeiros encontrados no romance. Portanto, seu julgamento quanto a esse aspecto goza de relativa isen√ß√£o, ao contr√°rio do que possa √† primeira vista parecer.)

O humor afiadíssimo do protagonista-narrador é outra característica digna de destaque. Tudo o que acontece com ele é tão absurdo, tão carente de qualquer sensatez, que só lhe restam dois caminhos: o desespero ou a ironia. Moraes opta pelo segundo, e essa escolha revela um talento especial:

¬ďDe manh√£, depois do caf√©, comunicaram que eu teria uma hora de sol por dia, das quatro √†s cinco. √Ä tarde, depois do almo√ßo, permitiram uma visita do meu pai. Procurei anim√°-lo:
¬ó Ora, seu Tito: depois de 15 anos de semin√°rio, que s√£o mais cinco?¬Ē

Pelo pequeno trecho acima, tamb√©m se pode avaliar que a linguagem √© contempor√Ęnea e universal ¬ó distante, portanto, do gauchismo pronunciado de um Sim√Ķes Lopes Neto ou de alguns contos de Sergio Faraco. Por outro lado, Moraes √© muito direto, conseguindo se ater sempre ao essencial e n√£o gastando prosa √† toa. Isso n√£o impede que em alguns momentos a narrativa tenha um car√°ter um pouco mais reflexivo, propiciado pela situa√ß√£o conflituosa vivida pelo narrador. E mesmo nessas ocasi√Ķes a objetividade e o humor s√£o preservados, o que garante um texto fluido e homog√™neo, sem saltos qualitativos.
Moraes, que há tempo vive em São Paulo, demonstra ainda apego à vida no Sul. Uma certa nostalgia percorre toda a obra, vindo à tona sempre que o narrador se refere aos hábitos do campo. Numa bela passagem, deixa bem explícito esse sentimento:

¬ďParece que, de alma, ningu√©m desce impunemente de um cavalo na vida. Mesmo aqui na cadeia, policiais como Veled√£o, Am√©rico, Artulino eram certamente homens do campo e certamente preferiam a bota, o cavalo e o gado √† farda, ao coturno e a essa triste obriga√ß√£o de diariamente repontar nossa tropilha de apenados.
Uma vez uma vizinha se queixou de que meu pai gritava muito de manh√£, de acordar a rua, justo ele, t√£o calado. At√© que descobri. Ele tinha muitas galinhas no p√°tio e mais de um galinheiro. √Äs vezes ficava tocando as galinhas daqui pra l√° e de l√° pra c√°, berrando solto como se estivesse tocando gado. Aqueles gritos de tropeiro, ihu! ihu! ihu! √™√™√™raaa! Era agora, inconscientemente, um tropeiro de galinhas. J√° o Artulino, guarda aqui na cadeia, todo p√īr-do-sol vai aguar um p√© de milho que nasceu l√° em cima no canto do muro. Artulino deve beber muito e tem uma cara ardente de amargura e cacha√ßa.¬Ē

Do manancial de tipos singulares que habitam e freq√ľentam o pres√≠dio de uma cidade interiorana, Moraes seleciona um elenco rico de possibilidades liter√°rias, muitos deles declaradamente reais. A maioria dos personagens s√£o constru√≠dos com a economia de elementos que sua expressiva quantidade imp√Ķe. Alguns chegam a ser hil√°rios, quando t√™m dissecada alguma peculiaridade pelo olhar sempre ferino do narrador, como o fanhoso Cruzeira e seu divertido bord√£o ¬ď.udeu, cara; .udeu¬Ē, ou o homossexual P√©ca e suas insinua√ß√Ķes maliciosas. Impressiona, sobretudo, que um padre possa ter uma vis√£o t√£o honesta e cr√≠tica da sociedade em que vive, demonstrando padecer dos mesmos preconceitos de um simples mortal, sem que isso lhe ofusque a lucidez e o senso de justi√ßa. Na realidade, quem narra √© o homem n√£o o padre. O sacerd√≥cio, apenas um item do curr√≠culo, mesmo levando-se em conta o peso que isso representa na estrutura psicol√≥gica do personagem.

Para o que nos interessa aqui e acima de qualquer outra qualificação, Carlos Moraes é escritor — e dos bons. As curiosidades todas que fazem com que Agora Deus vai te pegar lá fora seja de saída um título instigante perderiam grande parte de seu valor literário se exploradas por mãos inábeis. Não é o caso. Moraes, que já havia mostrado ao que veio, confirma nessa obra que a literatura brasileira foi quem realmente lucrou com a opção feita por ele há mais de trinta anos.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de março/2005


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