Luiz Paulo Faccioli

Lembrando Altman - Cristov√£o Tezza

Luiz Paulo Faccioli


No √≥timo Short Cuts, de 1993, o cineasta Robert Altman comp√Ķe um mosaico da sociedade norte-americana contempor√Ęnea a partir de "cenas da vida" - baseadas em oito contos de seu conterr√Ęneo Raymond Carver - que v√£o sendo apresentadas de forma aleat√≥ria, sem que a princ√≠pio se perceba qualquer rela√ß√£o efetiva entre elas. Aos poucos o espectador descobre que existem, sim, v√≠nculos mais concretos do que imaginava existir entre os v√°rios personagens e que nada entrou ali por acaso. Se Altman tivesse dispensado a costura e apostado na gra√ßa do genial painel sugerido pela simples reuni√£o dos contos, a proposta j√° seria exitosa. Ao expor paulatinamente os la√ßos e os n√≥s, o diretor cria uma hist√≥ria maior e tamb√©m a sensa√ß√£o de que ela √© perfeitamente dispens√°vel √† sustenta√ß√£o do conjunto. Mais do que isso, era preciso que fosse revelada essa hist√≥ria para que o espectador pudesse compreender em profundidade por que motivos ela se tornou descart√°vel. A polifonia resultante dessas e de outras tantas ila√ß√Ķes poss√≠veis amplia a dimens√£o do filme e responde pela sua magia. √Č que no cinema, como de resto nas artes todas (e muito especialmente na literatura), quanto mais o autor esmi√ļ√ßa o detalhe, mais ampla vai deixando a obra. Pode parecer contradit√≥rio mas n√£o √©: o exerc√≠cio art√≠stico consiste justamente em iluminar o detalhe ao ponto de que se consiga, atrav√©s dele, chegar √† amplitude.

O Fot√≥grafo, o mais recente romance do catarinense e curitibano por ado√ß√£o Cristov√£o Tezza, guarda em muitos aspectos uma not√°vel semelhan√ßa com o filme de Altman. A hist√≥ria √© atraente. Na Curitiba de 2002, v√©spera da elei√ß√£o que levou Lula √† presid√™ncia do pa√≠s, um fot√≥grafo profissional, quarent√£o e an√īnimo (em dado momento, um personagem secund√°rio confunde o nome e passa a cham√°-lo erroneamente de Rodrigo) √© contratado para um trabalho pouco usual e algo detetivesco: clicar √†s escondidas uma jovem modelo, √ćris, e entregar ao misterioso cliente os filmes antes de eles serem revelados, contra o pagamento de US$ 200 por rolo produzido. A a√ß√£o se desenvolve num √ļnico dia. √Ä medida que o protagonista avan√ßa na espreita e ca√ßa de sua "v√≠tima", para logo se atrapalhar e romper com o combinado, batendo √† porta da garota, mentindo a ela sobre o objetivo das fotos e revelando-as mais tarde em seu laborat√≥rio, Tezza faz desfilar uma teia de outros desdobramentos curiosos: a mulher do fot√≥grafo, L√≠dia, em meio √† crise no casamento vive uma paix√£o correspondida pelo Prof. Duarte, catedr√°tico da √°rea de literatura por sua vez casado com Mara, psicanalista e terapeuta de √ćris. A exemplo do que ocorre em Short Cuts, esses la√ßos v√£o sendo paulatinamente descortinados, estrat√©gia que garante uma leve e permanente tens√£o √† narrativa. Os personagens compartilham num mesmo dia dos mesmos espa√ßos f√≠sicos - L√≠dia sai de uma sess√£o de cinema acompanhada por Duarte no exato instante em que Mara surpreende o fot√≥grafo apontando a c√Ęmera para a mulher e desistindo de registrar talvez um flagrante; L√≠dia cruza com √ćris na sa√≠da do elevador na universidade, mas n√£o sabe que ela √© a jovem perseguida pelo marido -, sem que, no lapso de tempo em que se desenvolve a a√ß√£o principal e aparentemente frustrando a expectativa do leitor, eles venham a descobrir essas coincid√™ncias.

Criar suspense, entretanto, n√£o √© o objetivo, o que permite afirmar que, a exemplo do que acontece no filme de Altman, a hist√≥ria maior, embora muito bem urdida e instigante, torna-se secund√°ria t√£o logo o leitor comece a perceber outras v√°rias met√°foras e sutilezas. Em primeiro e destacado lugar, a forma com que Tezza estrutura o romance. Cada um dos 25 cap√≠tulos corresponde a uma cena fotografada em suas min√ļcias e de diversos √Ęngulos, n√£o raro por mais de uma "c√Ęmera" - ou seja, o olhar de um personagem -, e s√£o batizados de forma similar √†quela que costuma dar nome a fotos art√≠sticas e telas em exposi√ß√£o: O fot√≥grafo encontra √ćris, Duarte volta para casa, L√≠dia bebe um caf√©, etc. Muito al√©m da cena em si, captada no exato instante em que ela ocorre, o movimento principal do livro acontece na cabe√ßa de cada um dos cinco protagonistas. Contendo os elementos da hist√≥ria que v√™m desaguar no presente, esse mergulho interior √© t√£o ricamente explorado que o autor √†s vezes n√£o se cont√©m e chega a permitir a intromiss√£o de uma primeira pessoa, causando estranheza ao dar voz interna ao pr√≥prio personagem, quando o texto √© todo ele constru√≠do na terceira pessoa, embora o foco narrativo seja alternado a cada troca de protagonista. Longe de ser inadequada, a intrus√£o refor√ßa o car√°ter de mon√≥logo interior do discurso, ainda que ele se valha de uma voz diferente do "eu" exigido nessa t√©cnica narrativa.

As rela√ß√Ķes humanas s√£o √°speras: na √≥bvia deteriora√ß√£o do casamento, no servi√ßo escuso e na postura dissimulada decorrente, na dificuldade do homem conservador em lidar com uma paix√£o extraconjugal, no encontro com o amigo de inf√Ęncia que virou pol√≠tico, tudo tem sempre um travo de mal-estar e constrangimento. A imagem que o fot√≥grafo faz do pr√≥prio casamento - "dois estranhos com uma filha no meio" - √© o melhor exemplo desse √Ęnimo. A felicidade fica restrita aos limites das reminisc√™ncias do passado e de alguma t√≠mida proje√ß√£o para o futuro, enquanto o presente quase nunca deixa de ser desgracioso e mal-ajambrado. A frase de abertura, "a solid√£o √© a forma discreta do ressentimento", d√° o tom predominante e funciona tamb√©m como um leitmotiv, que ser√° retomado em diferentes situa√ß√Ķes no decorrer do romance.

Curitiba, cidade que o autor conhece intimamente h√° 30 anos e √† qual devota um olhar afetuoso, ainda forasteiro, serve de cen√°rio. Como pano de fundo, a expectativa quanto √† vit√≥ria de Lula e suas conseq√ľ√™ncias √†s v√©speras do pleito daquele 2002, assunto que costumava gerar pol√™mica e discuss√£o sempre a reboque da mesma e inquietante pergunta: "ser√° que Lula ganha?". Ao contr√°rio de guardar qualquer conota√ß√£o panflet√°ria, o registro pela literatura de um momento pol√≠tico de grave import√Ęncia na hist√≥ria recente do pa√≠s √© mais do que oportuno. E Tezza sai-se bem ao realiz√°-lo.

Numa √©poca em que o microcomputador tornou-se a principal ferramenta da maioria dos escritores, Tezza utiliza ainda o m√©todo antigo: ele prefere a caneta e o papel, justificando que gosta de "lidar com as folhas escritas, com o pr√≥prio desenho da escrita", e acrescenta ser esse um "modo agrad√°vel de ficar sozinho". Conseq√ľ√™ncia ou n√£o dessa predile√ß√£o - caso ele ainda n√£o exista, um estudo aprofundado sobre a √≥bvia influ√™ncia do Word no texto contempor√Ęneo seria muito bem-vindo -, o discurso de Tezza √© mais lento e reflexivo do que costuma ser o dos escritores de sua gera√ß√£o. Os longos par√°grafos e as frases caudalosas v√™m flagrantemente a servi√ßo da estrutura narrativa. Bom gosto e apuro estil√≠stico rendem alguns belos momentos:

"Quando ele tateou e abriu a cortina grossa, pesada e sem cor que separava aquele corredor sinistro da sala de projeção, onde os aguardava outra tonalidade de escuro, os dois corpos se tocaram pela primeira vez na vida e ele respirou ao acaso o perfume de Lídia, a aura de um vapor discreto que subia de seus cabelos também escuros, e ele quase teve a certeza de que a mão dela buscava a sua mão, como uma criança que pede ajuda ao entrar numa caverna escura ou diante de um fato novo e assustador, o reflexo da segurança, mas não houve tempo para saber, porque ele imediatamente ergueu o braço para aquela luz mortiça que revelava a linha das poltronas onde só havia duas cabeças perdidas."

Mas é na evocação de uma cena de sexo - prova de fogo para qualquer escritor - que Tezza mostra toda sua competência:

"Era uma sensação boa que eles demoravam uma eternidade de tempo naquela escuridão respirante até que, enfim, ele não consegui mais segurar, e as unhas de Lídia marcavam-lhe as costas, eles inteiros entrelaçados no mesmo animal escuro. A ginástica se esvaziava suave e suada, escorregantes, um derretimento do corpo, o ar viciado deles mesmos - abrir a porta estreita era a expulsão, de novo, para o gelo do dia."

Como se pode comprovar pelos excertos acima, Tezza tem uma dic√ß√£o precisa e muito bem afinada com o registro atual da l√≠ngua. Se, por um lado, ele passa ao largo do maneirismo e de outras solu√ß√Ķes barrocas ou mais complexas, por outro n√£o economiza nos palavr√Ķes, e isso sim pode configurar um exagero ou - o que √© pior - sugerir um nivelamento indesej√°vel do perfil de alguns dos personagens. Vale lembrar que o palavr√£o em si, seu uso parcimonioso ou ainda o desbragado, longe de constitu√≠rem a priori um problema, s√£o recursos importantes √† verossimilhan√ßa e ao pr√≥prio estilo do escritor. Contudo, manda o bom e velho senso que, a se correr o risco de errar a dose e prejudicar o doente, √© prefer√≠vel abdicar de empreg√°-lo. Um detalhe, apenas, quando o que est√° em jogo √© um texto de qualidade, exemplarmente denso e bem escrito, quase na contram√£o da tend√™ncia atual √† concis√£o, ao despojamento formal, e a demonstrar ainda que o requinte n√£o √© uma op√ß√£o vetusta nem est√° atrelado a um feitio √ļnico.

O fotógrafo é uma obra singular. Não houvesse mais nenhum outro motivo, o fato de ter provocado num só resenhista a lembrança de um dos trabalhos mais bem realizados do cinema norte-americano da atualidade já seria o bastante para garantir seu lugar de destaque entre os bons e originais lançamentos de 2004..

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de janeiro/2005


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