Luiz Paulo Faccioli

Irreversível inferno

Luiz Paulo Faccioli


Simplicidade. Eis a√≠ uma abstra√ß√£o que todos compreendem. No entanto, em se tratando de literatura, como √© dif√≠cil alcan√ß√°-la. Por tr√°s do simples - e isso vale para qualquer das artes -, existe sempre uma insuspeita sofistica√ß√£o, um esfor√ßo criativo que poucos conseguem exercitar com efici√™ncia. Poucos tamb√©m s√£o os leitores aptos a reconhecer esse trabalho. E ele n√£o deve mesmo ser percebido. (Flaubert dizia que o bom texto liter√°rio √© aquele que n√£o tem autor, ou seja, mesmo o art√≠fice deve ficar escondido no processo de deixar vis√≠vel somente o que importa. Mas essa j√° √© uma outra hist√≥ria.) Evidentemente, al√©m do suor, a intui√ß√£o do autor pode ajud√°-lo, assim como a leitura sistem√°tica, e os cl√°ssicos est√£o a√≠, entre outras coisas, tamb√©m para mostrar o caminho da solidez, do perene, em contraposi√ß√£o ao muito que sempre sobra, justamente por ser descart√°vel. Neste sentido, simplicidade pode ser traduzida por essencialidade, ou seja, o texto limpo de tudo o que n√£o for hist√≥ria. Um exemplo mais do que √≥bvio √© a adjetiva√ß√£o. Usados com parcim√īnia, os adjetivos s√£o o tempero e, como tal, indispens√°veis √† literatura. Entretanto, assim como um bom prato n√£o pode prescindir do ingrediente principal, o leitor percebe de pronto quando existe no texto mais tempero do que subst√Ęncia.

Incluem-se na simplicidade a forma, o léxico escolhido pelo autor, mas também a temática e o ponto de vista. Olhar com outros olhos, iluminar o que está na sombra, dar voz ao silente, traduzindo isso tudo para o leitor com economia de recursos, é o grande desafio do bom ficcionista, principalmente quando o que ele está pretendendo é o conto, gênero nobilíssimo. O conto está para a literatura assim como a corrida de 100 metros está para o atletismo: o êxito, em ambos os casos, se define no detalhe mínimo, e não há espaço para desperdício.

O sergipano Antonio Carlos Viana conhece como poucos o tema que se esbo√ßa aqui. Mestre em teoria liter√°ria pela PUC/RS e doutor em literatura comparada pela Universidade de Nice, ele n√£o s√≥ est√° credenciado a dar aula sobre o que se disse at√© agora, como nos oferece, com o rec√©m-lan√ßado Aberto est√° o inferno, uma fonte admir√°vel de exemplos. Em seu primeiro livro in√©dito ap√≥s onze anos - antes dele, tr√™s colet√Ęneas e uma antologia -, Viana apresenta 33 contos curtos, narrados com compet√™ncia e valorizados numa bela edi√ß√£o da Companhia das Letras, que traz capa assinada por Angelo Venosa sobre um √≥leo de Jorge Guinle, The last time I saw Paris. √Č um lan√ßamento importante, e espera-se que ele sirva tamb√©m para aproximar novos leitores de um dos bons talentos surgidos na safra de 1970 e que se consolida a cada novo livro, ainda que, infelizmente, continue desconhecido do grande p√ļblico.

Viana autodefine-se como contista, o que poderia facilmente ser tomado por auto-elogio, quando se pensa na já citada nobreza do gênero; poderia, em contrapartida, sugerir uma especificidade restritiva dentro do atributo maior, o de ser escritor. Nem uma coisa nem outra. No caso de Viana, é tão-somente uma definição precisa: ele domina o conto, com tudo o que implica a singeleza desta afirmação.

Sob qualquer √Ęngulo que se comece a analisar a obra, a no√ß√£o de simplicidade aparecer√° de imediato. Em primeiro lugar, salta aos olhos um velho conceito, tantas vezes negligenciado por alguns autores mais afoitos: o conto nada mais √© do que a narra√ß√£o de uma hist√≥ria, um causo, um acontecido e, como tal, deve seguir um inexor√°vel fluxo de in√≠cio, desenvolvimento e fim, sob pena de dispersar a aten√ß√£o, levando com ela o interesse do leitor. Os contos de Viana primam por essa desej√°vel ortodoxia e se mant√™m atraentes na medida em que as hist√≥rias s√£o originais na sua ess√™ncia, al√©m de muito bem constru√≠das, portanto dispensam extravag√Ęncias ou malabarismos formais. O universo retratado √© ecl√©tico ao ponto de abranger os miser√°veis do sert√£o nordestino e tamb√©m a classe m√©dia que consegue ainda se dar ao luxo de fazer turismo no exterior ou estudar em Paris. E mesmo na mais glamourosa das cidades, n√£o existe glamour algum nas situa√ß√Ķes criadas por Viana; ao contr√°rio, o miser√™ humano √© o que est√° sempre em foco.

A linguagem espelha rigorosamente o ambiente e o modo de vida dos personagens. Ela beira o coloquial, √© crua, n√£o se perde em filigranas mas busca sempre ser direta, exata. Simples, em outras palavras. N√£o evita um l√©xico chulo, por necess√°rio, enquanto se mant√©m a uma dist√Ęncia segura do escatol√≥gico ou do hiper-realista. Outras vezes, quase que por descuido, invade o territ√≥rio da delicadeza, como em Mulher sentada, na apresenta√ß√£o da protagonista:

"Com o tempo, os objetos foram se afastando enevoados, e deles restaram apenas os contornos e a necessidade de lentes cada vez mais grossas. E vieram os muitos óculos que foram se substituindo diante dos chefes sempre novos. Guardara todos, cada um na sua caixinha e com uma história. Desde os de armação tão sinistra até os mais modernos, de uma tal leveza que às vezes pensava estar sem eles. E os anos sombriamente vividos iam dar agora em sua mesa de secretária correta."

No entanto, o tom predominante é o da crueza: a palavra firme e fria que não vacila em sua exatidão, o que responde em grande parte pelo vigor do texto. Isto não impede que ele seja dotado de uma exemplar leveza. Como bem pontuou o escritor e professor Flávio Carneiro, em recente matéria sobre a obra (JB Online), "não é fácil encontrar na literatura essa rica combinação de exatidão e leveza, sobretudo numa época em que leveza se confunde com pieguice e exatidão com retratos que se pretendem mais reais do que a própria realidade". Entenda-se por leveza, neste contexto, a "subtração do peso" preconizada por Italo Calvino e referida por Carneiro: o exercício de retirar "o peso das figuras humanas, dos corpos celestes, das cidades e, sobretudo, da própria linguagem". Ou seja, nada além do que selecionar o essencial e restringir-se a ele.

Mesmo com a auto-imposta economia de elementos, Aberto est√° o inferno apresenta um conjunto rico e multifacetado de personagens. Do adolescente que vai ao bordel perder a virgindade ao idoso que se submete a uma sess√£o de "cura pr√Ęnica", da adolescente que se entrega ao forasteiro com a promessa do supremo luxo de ter uma latrina √† ju√≠za obcecada pelos cuidados com a pr√≥pria pele que se descobre v√≠tima da passagem desastrosa do tempo, Viana faz desfilar uma galeria de tipos curiosos, seres ora humanizados ora brutalizados pela aspereza de um desgra√ßado cotidiano, que conseguem sobreviver a ele √† custa de pequenas conquistas pessoais, nunca indolores e sempre transformadoras. N√£o se espera do conto - como de resto da literatura em geral - um objetivo diferente: a import√Ęncia do relato √© sempre diretamente proporcional √† transforma√ß√£o que ele consegue operar em seus protagonistas.

V√°rios dos personagens s√£o adolescentes; as perip√©cias vividas por eles e o natural assombramento frente √†s suas descobertas s√£o recorrentes em toda a colet√Ęnea. O sexo tem uma participa√ß√£o importante. Viana trata-o com naturalidade, sem contudo dispensar o erotismo farto em algumas passagens, notadamente em As meninas do coronel, a hist√≥ria de um todo-poderoso vi√ļvo do sert√£o que se excita depilando as meninas do prost√≠bulo:

"E l√° vinha lambe-lambe, l√≠ngua mole viscorenta, pedindo que a menina se conservasse quieta, como se fosse poss√≠vel deixar de se contorcer. Aos poucos, aos pouquinhos, os ded√Ķes de cada lado da pomba bem depenada, escancelavam com gosto, o repinicar da l√≠ngua na flor de a√ßucena aflita, o roxo se transformando no vermelho luminoso da rom√£ rec√©m-aberta, a quentura almiscarada que ele sorvia lento, seu mel de arapu√°, `√© hoje que me acabo`, sem palet√≥, sem camisa, o anum se desfazendo de sua plumagem negra, mostrando o branco do peito, `paci√™ncia, viu, filhinha`, afastando a m√£o afoita que tateava nas cal√ßas em busca do escondido."

A ironia, aliada a uma esp√©cie de humor minimalista e corrosivo, manifesta-se em todas as hist√≥rias, e n√£o teria mesmo como evit√°-la. Na realidade, Viana explora o ir√īnico de cada situa√ß√£o simplesmente expondo ao leitor o qu√£o absurda pode se tornar a mis√©ria humana e o qu√£o talentoso √© o homem em lidar com ela. A dor sempre responde pela tens√£o dos relatos. Viana chega a ser cruel nas cores com que retrata as agruras dos personagens, que muitas vezes n√£o se apercebem de sua verdadeira extens√£o e complexidade, ao tempo que lhes devota um olhar sens√≠vel, c√ļmplice, de quase afeto. √Č que, ao escancarar esse inferno que intitula a obra, Viana mostra tamb√©m que o ser humano, pelo menos o que aparece em suas hist√≥rias, est√° mesmo fadado a viver e morrer nele, e n√£o existe nunca um fato libertador, um alento, uma esperan√ßa al√©m do que lhe proporciona o aprendizado sofrido e di√°rio. "Aprenda a conviver com a trag√©dia e trate de ser feliz apesar dela" √© o que Viana parece soprar ao p√© do ouvido desses seres maltratados.

Com segurança e perspicácia, Viana constrói um instigante painel de tipos e causos. Atendo-se aos preceitos tradicionais do gênero, mostra-nos por que o conto mantém sua posição de destaque na literatura e dela não se afasta tão cedo, pelo menos enquanto existir um autor disposto a tratá-lo com dignidade e respeito. Simples assim.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de novembro/2004


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