Luiz Paulo Faccioli

Redemoinhos em torno da rocha

Luiz Paulo Faccioli


A constru√ß√£o de uma carreira nas artes √© um processo sempre interessante de se observar. Acompanhando-se o passo a passo de uma trajet√≥ria, t√£o curioso quanto descobrir suas v√°rias peculiaridades √© perceber tamb√©m o que ela tem em comum com a de outros artistas. A um observador minimamente atento, por exemplo, √© not√≥rio o fato de que as obras-primas via de regra surgem na maturidade criativa ¬ó algo absolutamente indissoci√°vel da experi√™ncia de vida ¬ó; por dedu√ß√£o, espera-se ent√£o que os artistas j√° destacados na juventude venham conquistar a excel√™ncia quando atingirem a idade madura, e muito dificilmente antes dela. Por outro lado, quem come√ßa tardiamente, se n√£o teve a oportunidade de se exercitar tanto quanto um estreante mais jovem, nem de contar com a avidez juvenil, propulsora de alguns dos grandes movimentos de dissens√£o que revigoram a arte, conseguiria em contrapartida abreviar algumas etapas de sua forma√ß√£o, ao contar j√° de sa√≠da com uma vis√£o de mundo privilegiada pelo passar dos anos. Na literatura, essa √© uma realidade recorrente: s√£o in√ļmeros os casos de escritores que debutam na meia-idade e em pouco tempo se tornam importantes e respeitados em seu of√≠cio. A verdade √© que o texto liter√°rio ¬ó situa√ß√£o que se aplica tamb√©m √†s demais artes ¬ó n√£o nasce no instante em que o autor se disp√Ķe a escrev√™-lo. Semelhante √† gesta√ß√£o de um ser vivo, a produ√ß√£o art√≠stica come√ßa muito antes de sua realiza√ß√£o e nada mais √© que o reflexo de um conhecimento sedimentado ao longo do tempo e da interpreta√ß√£o original que der o autor a esse conhecimento.

Paulo Rodrigues protagoniza um caso exemplar: estreou como escritor em 2001, aos 53 anos, ao lan√ßar a novela √Ä Margem da Linha, logo conquistando com ela o pr√™mio revela√ß√£o da APCA (Associa√ß√£o Paulista dos Cr√≠ticos de Arte). Antes disso, havia chamado a aten√ß√£o do escritor Raduan Nassar, jurado de um concurso liter√°rio promovido pela revista Entrelinhas da Telesp, empresa onde Rodrigues trabalhava antes de se tornar funcion√°rio do sindicato dessa categoria. Do concurso, ele participou e ganhou em duas edi√ß√Ķes na d√©cada de 70. De Nassar, mereceu a amizade e o est√≠mulo de uma avalia√ß√£o correta e bastante positiva. Ou seja, mesmo que se considere ter a carreira come√ßado com a publica√ß√£o da novela ¬ó que dormiu numa gaveta por incr√≠veis 15 anos antes de merecer o interesse de uma editora, a bem conceituada Cosac & Naify ¬ó, n√£o se pode desprezar o fato de que alguns dos trabalhos do autor j√° t√™m pelo menos um quarto de s√©culo de exist√™ncia.

Redemoinho, novo livro de Paulo Rodrigues, vem confirmar sua inten√ß√£o de perseverar como escritor. S√£o oito contos, apresentados em outra das edi√ß√Ķes caprichadas da Cosac & Naify, agora um belo projeto gr√°fico que leva as assinaturas de Raul Loureiro e Luciana Facchini. Ao longo de suas enxut√≠ssimas 108 p√°ginas, Rodrigues demonstra, mais do que conhecer o g√™nero no qual se aventura, uma concep√ß√£o liter√°ria pr√≥pria e, neste sentido, muito bem realizada.

Se a primeira boa caracter√≠stica a saltar aos olhos √© a perfeita unidade formada pela reuni√£o dos oito contos, a surpresa maior vem quando se descobre que eles foram gerados em diferentes √©pocas dentro de um intervalo de 25 anos. Em se tratando de autor rec√©m-chegado ao segundo livro ¬ó e o primeiro dedicado ao conto ¬ó, √© um feito e tanto. O longo per√≠odo de matura√ß√£o de que gozaram essas hist√≥rias provavelmente responda por sua homogeneidade formal. Paci√™ncia √© um atributo t√£o caro quanto raro para quem escreve: se, por um lado, o di√°logo com o grande p√ļblico (sem o qual uma carreira simplesmente n√£o existe) custou bastante a acontecer, por outro, Rodrigues demonstra ter tirado um bom proveito desse lapso intermin√°vel. Tamb√©m impressiona positivamente a serenidade e a seguran√ßa com que s√£o narrados os contos. A linguagem √© simples, sem rebusques ou grandes pretens√Ķes estil√≠sticas, mas limpa, s√≥bria, atual, condizente com a estrutura narrativa e os personagens. Mesmo assim, percebe-se que foi dada a devida aten√ß√£o √† eufonia do discurso.

Em Redemoinho, as hist√≥rias s√£o urdidas com uma not√°vel economia de a√ß√£o. O que est√° de fato acontecendo vem √† tona em por√ß√Ķes homeop√°ticas, nem sempre de maneira clara, mas cifrado, dilu√≠do numa prosa de contornos reflexivos, onde importa mais o que pensa e sente o personagem do que a situa√ß√£o real vivida por ele. Neste aspecto, chega-se a ouvir uns ecos de Clarice. De forma at√© certo ponto an√°loga √† epifania ¬ó marca registrada da autora de A Hora da Estrela ¬ó, aqui a estranheza √© fruto de situa√ß√Ķes bizarras ou violentas que eventualmente quebram o fluxo previsto do relato. Muitos desses eventos s√£o restritos √† imagina√ß√£o do narrador, e o leitor √†s vezes custa um pouco a se aperceber disto. Como um len√ßol fre√°tico, existe sob a conten√ß√£o elegante da narrativa algo que se move livremente, incontido e fluido, que s√≥ vem √† superf√≠cie em jorros extravasantes de uma ang√ļstia reprimida por fatores √©ticos, morais e at√© mesmo religiosos.

Catedral, que abre o volume, traz a história de um rapaz "despreparado e bruto" do interior que vem estudar na cidade grande, ganha aí um outro lar, em tudo diferente da casa paterna, e acaba construindo com o novo pai uma relação estranha e nebulosa. Existe um elemento desagregador entre os dois, e um provável caso de incesto parece ser o responsável por ele, embora tudo seja apenas insinuado e nunca explicitado. Rodrigues cria toda uma atmosfera incestuosa sem que aparentemente haja alguma relação de sangue entre os personagens; despista tão bem, que até mesmo é impossível se ter certeza sobre a identidade real dos protagonistas do suposto pseudo-incesto. O final, como se pode prever, converge a uma inevitável explosão e, a partir dela, um necessário reordenamento.

Em Alfredo aos dezessete, Rodrigues trabalha a descoberta do sexo, construindo um personagem tímido e esquivo:

"Tinha o rosto coberto de acne, o corpo desengon√ßado e a pretens√£o de uma bolsa de estudos. Mania de ficar em frente ao espelho magoando uma espinha enquanto matutava uma equa√ß√£o. Medo da licenciosidade dos colegas, de sua arrog√Ęncia e de suas cru√©is zombarias. Medo, sim, dos rapazes, mas ainda maior das meninas."

A abordagem original de um tema tão surrado é um esforço criativo que tem na mescla de fantasia e realidade seu maior sustentáculo. A violência — de novo ela — vem à tona sob forma de um delírio, tão bem conduzido, que o leitor se surpreende ao compreender do que se trata realmente.

Lama e Co√°gulo s√£o f√°bulas modernas, onde a alegoria e a met√°fora, presentes tamb√©m nos demais contos, agora s√£o as pr√≥prias condutoras do espet√°culo. Na mesma dire√ß√£o vem Quarto Nupcial, um interessante relato surrealista ¬ó e um dos melhores momento da colet√Ęnea ¬ó que joga com uma inusitada analogia: o quarto de hospital, onde definha um doente terminal, e o seu quarto de n√ļpcias. Relacionar morte e casamento √© uma id√©ia mais do que batida; a novidade deste conto √© trazer o exerc√≠cio para o espa√ßo f√≠sico:

"Neste pequeno quarto, Estela e eu nos prendemos à vida pelo rol das mesmas lembranças. Lembranças que eu tento recuperar na penumbra, e que ela, provavelmente, retém no aço do espelho.

Debruçado sobre o parapeito da veneziana, eu olho o escuro de frente. Para mim, a noite se resume a luzes e trevas. Devo parecer um observador noturno, porém nada observo; apenas tento, com a força do olhar, manter as luzes acesas para que as trevas não invadam para sempre o meu quarto, levando de roldão todas as respostas."

Outro bom momento √© Encontro com Paul. "Seria bom conhecer Paul depois de tanta espera" √© a frase enigm√°tica que abre o conto, onde Rodrigues consegue a proeza de construir a ang√ļstia de uma espera sem que o personagem esperado seja sequer conhecido do narrador. Isto √© justamente o que o livro tem de melhor: o talento de Rodrigues em criar uma trama emocional na qual se encaixam, f√°cil e livremente, diversas possibilidades factuais.

A fam√≠lia e seus desacertos est√£o por tr√°s de quase todas as hist√≥rias. A evoca√ß√£o da m√£e pelo narrador √© recorrente, e em Lama, Rodrigues vale-se da forma epistolar, cujo destinat√°rio √© justamente a figura materna. Enquanto o pai aparece sempre com o estere√≥tipo do ser dominador, irasc√≠vel ou repulsivo na rela√ß√£o familiar, a m√£e se contrap√Ķe como elemento conciliador, sens√≠vel, dotado de um pragmatismo tocante quando o que est√° em jogo √© o bem-estar dos filhos. Essa vis√£o, acrescida de uma percep√ß√£o tamb√©m manique√≠sta do mundo, com pitadas de conservadorismo moral e religioso, responde pelo principal defeito da obra. Os personagens, por seu turno, s√£o reprimidos por fatores que soam meio fora de moda no mundo contempor√Ęneo. √Č bem verdade que eles fazem parte de um universo perif√©rico do maior centro urbano brasileiro, regido ainda pela moral ultraconservadora dos retirantes e de uma √≥tica bastante limitada pelo rev√©s cotidiano; √© verdade, tamb√©m, que esta √© a realidade que o autor melhor conhece, pois √© o ambiente em que nasceu. A grande e boa surpresa que o livro deixa de provocar √© uma leitura multifacetada e mais complexa da vida.

Ao fim e ao cabo, o leitor pode pensar que o caso de Paulo Rodrigues é um exemplo às avessas do que se afirmou no início da resenha. Não é. A sabedoria dos anos cristalizou-se nele sob forma de uma linguagem original e de uma força criativa capaz de tirar leite de onde se supunha existir apenas pedra. Resta agora mostrar ao leitor que existem outras possibilidades no mundo além dessa rocha.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de dezembro/2003


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