Luiz Paulo Faccioli

Os nós da vida

Luiz Paulo Faccioli


A literatura - como, de resto, todas as artes - parece estar sempre metida em algum paradoxo. Quantas vezes j√° se ouviu algu√©m ressaltar que determinado ficcionista escreve "como se tivesse vivido" as situa√ß√Ķes que inventa, e essa √© uma caracter√≠stica importante e merit√≥ria em sua obra? Por outro lado, quantos autores s√£o crucificados justamente por narrarem sua experi√™ncia pessoal de forma demasiado realista, sem o verniz da boa t√©cnica liter√°ria, que n√£o √© outra coisa sen√£o um jogo de insinuar, esconder, dissimular, movimentos que contrariam a crueza e a linearidade impostas pela vida real? Em outras palavras, o bom escritor deve contar o que n√£o viveu com a exata emo√ß√£o de quem tenha de fato vivido, sob pena de n√£o convencer o leitor, enquanto que, ao enveredar por uma narrativa memorialista ou autobiogr√°fica, tentar√° isentar-se ao m√°ximo para n√£o eiv√°-la do sentimentalismo que costuma assaltar quem viveu uma hist√≥ria e tem de reviver suas pr√≥prias emo√ß√Ķes na hora de resgat√°-la.

Trata-se, evidentemente, de um sofisma, pois o racioc√≠nio n√£o sobrevive a uma an√°lise um pouco mais cuidadosa: o que interessa em literatura √© a √≥tica do narrador, tenha ele vivido ou n√£o a experi√™ncia que narra. H√° quem avance al√©m disso e diga que o texto liter√°rio ser√° sempre rigorosamente ficcional, uma vez que narrar com arte implica a escolha de um √Ęngulo, de um ponto de vista, de um corte; implica estabelecer prioridades e se ater √†quilo que realmente importa; implica, em √ļltima an√°lise, contar de forma a surpreender e seduzir o leitor, para quem pouco ou nada significar√° saber de antem√£o se a hist√≥ria √© ver√≠dica ou n√£o - ele quer uma boa leitura, e ponto final.

Por um fio, o mais novo livro do m√©dico paulistano Drauzio Varella, √© exemplo sobejo para o que se falou at√© aqui. Ao longo de 36 epis√≥dios, ele apresenta situa√ß√Ķes ver√≠dicas que viveu no atendimento a pacientes terminais v√≠timas de c√Ęncer e de aids, atuando em sua especialidade, que √© justamente a oncologia. E faz isso com a precis√£o cir√ļrgica de um ficcionista de escol.

Falar de um bom livro √© ainda o desafio maior de qualquer resenhista. F√°cil √© procurar problemas e apont√°-los; f√°cil √© agir com severidade no exerc√≠cio da cr√≠tica, por mais criteriosa e respons√°vel que ela seja. No entanto, quando o livro √© de fato especial, nada do que se venha a dizer sobre ele conseguir√° fazer plena justi√ßa √†s suas qualidades. A vontade do resenhista, em situa√ß√Ķes como essa, √© usar o espa√ßo destinado aos coment√°rios para deixar ao leitor uma mensagem em letras garrafais: "n√£o perca tempo, v√° logo, compre esse livro, leia-o e depois me diga". Mais dif√≠cil ainda, depois de uma leitura instigante, √© ter o desprendimento de rever as pr√≥prias convic√ß√Ķes e admitir que elas podem n√£o ser exatamente como foram firmadas ao longo do tempo. Por outro lado, esta √© justamente uma das conseq√ľ√™ncias da literatura: fazer o leitor pensar sob um prisma diverso daquele que est√° acostumado, ou, usando uma express√£o j√° quase um clich√™ dos dias atuais, "quebrar seus paradigmas".

Por um fio nasceu com os ingredientes todos de um best-seller e, com esta condi√ß√£o, deixa de sa√≠da muita gente de nariz torcido. Vem numa tiragem inicial de 100 mil exemplares, cifra absurda para o padr√£o brasileiro mas embalada no sucesso estrondoso de Esta√ß√£o Carandiru, de 1999, que j√° vendeu 450 mil livros, conquistou v√°rios pr√™mio liter√°rios importantes e foi adaptado para o cinema por Hector Babenco. Al√©m disso, o Dr. Drauzio Varella tornou-se uma personalidade conhecida do grande p√ļblico, ao apresentar quadros sobre sa√ļde no programa Fant√°stico, em nobil√≠ssimo hor√°rio da Rede Globo. Basta uma r√°pida visita ao site da Companhia das Letras na internet para se dimensionar a expectativa quanto ao √™xito do novo lan√ßamento: o destaque √© todo para o livro, cujo motivo da bela capa assinada por Marcelo Serpa - um feixe de fios coloridos sobre fundo preto, de onde parte um solit√°rio fio vermelho a separar o t√≠tulo da obra do nome do autor - domina hoje a p√°gina inicial da editora.

O livro teve uma gesta√ß√£o longa e dif√≠cil. Conta o Dr. Drauzio que, quase vinte anos antes de conceber Esta√ß√£o Carandiru, j√° alimentava a id√©ia de relatar alguns dos casos extremos em que atuou. A inten√ß√£o, segundo ele, era "construir um caleidosc√≥pio com as hist√≥rias dos doentes", onde pudesse expor toda a complexidade das rea√ß√Ķes de quem se confronta com a evid√™ncia inexor√°vel da pr√≥pria morte. Contudo, foi adiando o projeto o fato de n√£o conseguir ainda se imaginar na situa√ß√£o vivida por esses personagens. "Se at√© hoje me faltou coragem para tanto, foi por me considerar imaturo para a natureza da empreitada. Ser√° poss√≠vel na juventude compreender o que sente um senhor de oitenta anos ao perceber que n√£o sair√° vivo do hospital? O sofrimento de uma mulher ao perder o companheiro de quarenta anos de conviv√™ncia harmoniosa pode ser imaginado por algu√©m de trinta? Se me dispus a escrever agora, aos sessenta anos, foi menos por reconhecer a aproxima√ß√£o da maturidade do que por receio de morrer antes de me julgar preparado para alinhar as lembran√ßas e inquieta√ß√Ķes que se seguem", diz ele na introdu√ß√£o.

A decis√£o foi acertada por v√°rios motivos, e o mais relevante deles, o alegado pelo autor: h√° situa√ß√Ķes em que n√£o √© mesmo poss√≠vel narrar com plenitude sem ter ainda experi√™ncia de vida para tal, e aqui encontramos a principal raz√£o de o livro ser t√£o bem-sucedido. O Dr. Drauzio defende a id√©ia, contrariando um n√ļmero expressivo de colegas de profiss√£o e por diferentes justificativas, de que faz parte dos deveres do m√©dico continuar acompanhando seu paciente na imin√™ncia da morte, mesmo quando a medicina j√° tiver esgotado todas as tentativas de cura, e tanto mais conseguir√° ajudar o doente quanto mais envolvido estiver com ele. Podendo ser comprovada na pr√°tica a falta de unanimidade quanto a essas quest√Ķes aparentemente t√£o √≥bvias, o m√©dico que narra as hist√≥rias se converte no profissional que todos gostar√≠amos de ter √† cabeceira no momento crucial, pois re√ļne sabedoria e sensibilidade em dosagem precisa. Sua conduta irrepreens√≠vel passa inc√≥lume inclusive pelo que deva ser o maior de todos os desafios da pr√°tica da medicina: no √ļltimo caso narrado, o paciente √© seu pr√≥prio irm√£o, tamb√©m m√©dico, que morre aos 45 anos, vitimado por um c√Ęncer de pulm√£o decorrente do tabagismo.

A carga emocional que atravessa todos os relatos e explode no √ļltimo poderia ser o grande problema da obra, mas neste caso transforma-se em virtude. A sinceridade tocante com que o Dr. Drauzio exp√Ķe as pr√≥prias limita√ß√Ķes, incertezas e ang√ļstias no exerc√≠cio da profiss√£o dignifica a narrativa e consegue a fa√ßanha de livr√°-la do sentimentalismo, grande vil√£o de quem se arrisca a ir t√£o longe. O tom jamais resvala para o piegas, por tristes e previs√≠veis que sejam todas as hist√≥rias. A rigor, a previsibilidade se at√©m aos desfechos, pois o caleidosc√≥pio constru√≠do pelo autor a partir do que viveu demonstra que os pacientes, ao serem confrontados com o pr√≥prio fim, reagem de maneira totalmente imprevis√≠vel. Em recente entrevista, o Dr. Drauzio sublinha: "cada indiv√≠duo, quando enfrenta a possibilidade de morrer, tem uma rea√ß√£o que √© absolutamente individual e que se torna um caso √≠mpar".

Não cabe aqui destacar um ou outro episódio. Uma vez que todos eles são verídicos - exceto por preservarem o anonimato dos protagonistas reais-, qualquer tentativa de hierarquizá-los significaria classificar e julgar o próprio sofrimento das pessoas envolvidas (não se pretende chegar a tanto, em que pese o livro esteja sendo aqui tratado como peça literária). Por outro lado, o autor cuidou de manter o registro elevado em toda a obra, garantindo um resultado homogêneo, sem saltos qualitativos.

O objetivo maior de Por um fio n√£o √© a simples reuni√£o de casos m√©dicos interessantes. Via de regra, os cap√≠tulos come√ßam a partir de um enunciado, √† maneira do texto de ensaio, e o caso narrado na seq√ľ√™ncia vem com o prop√≥sito de ilustrar ou demonstrar o racioc√≠nio. No in√≠cio do cap√≠tulo, √© a cabe√ßa de um homem da ci√™ncia que predomina, como em Solid√£o:

"Poucos eventos na vida s√£o capazes de isolar algu√©m como a progress√£o de uma doen√ßa fatal. Por mais empatia que a desventura do outro possa despertar, expormo-nos √† inseguran√ßa, depress√£o, estados de √Ęnimo contradit√≥rios e crises de ansiedade de quem est√° ciente do seu fim √© experi√™ncia t√£o angustiante que inventamos um milh√£o de subterf√ļgios para evit√°-la. Lidar de perto com a perspectiva da morte alheia nos remete √† constata√ß√£o de nossa pr√≥pria fragilidade."

No entanto, basta aparecer o caso ilustrativo para que então o escritor tome as rédeas do discurso e seja comprovada a excelência de Drauzio Varella como contador de histórias. Poucos ficcionistas têm, assim como ele, um faro tão aguçado para discernir o que é de fato relevante numa narrativa. Fruto dessa intuição, o subtexto é armado com invejável naturalidade e fluidez. São elipses audaciosas, cortes abruptos que deixam a narrativa em suspenso, economia absoluta de adjetivos, finais secos e por isso contundentes, e todo um arsenal que muitos levam anos para aprender a manejar (e não raro terminam a vida sem conseguir).

A seq√ľ√™ncia de Solid√£o traz a hist√≥ria de um homem portador de c√Ęncer de pulm√£o, cuja fam√≠lia quis poupar do terr√≠vel diagn√≥stico. Do m√©dico que o atendeu no interior de S√£o Paulo √†s filhas, todos sustentaram a vers√£o mentirosa de que ele sofria de um simples fungo. Durante a consulta, o Dr. Drauzio acabou acatando o pedido dos familiares e tampouco revelou a verdade. Ao final do expediente, esperava por ele o tal senhor, agora desacompanhado. Foi uma surpresa descobrir que o paciente n√£o s√≥ j√° conhecia o diagn√≥stico real como pediu para o m√©dico n√£o revelar √† fam√≠lia que ele o sabia, querendo preserv√°-la do sofrimento de imaginar a infelicidade que seria para o doente conhecer seu destino. Ele acabou resistindo √† doen√ßa por quase dois anos, e a hist√≥ria termina assim:

"Numa manh√£ de domingo passei para v√™-lo. Encontrei os genros no corredor, as filhas sentadas no sof√° do quarto e a esposa ao lado da cama, de m√£os dadas com ele, que respirava com o aux√≠lio de uma m√°scara de oxig√™nio sob press√£o, sonolento por causa da m√° oxigena√ß√£o cerebral e da a√ß√£o dos analg√©sicos, que gotejavam do frasco de soro. Sobre a mesa, uma vitrola port√°til tocava baixinho um LP de Beniamino Gigli, para seu Lindolfo `a voz mais bonita que Deus p√īs na Terra`.

Quando terminei de examiná-lo, perguntei se sentia algum desconforto. Respondeu que não, só tinha vontade de dormir. Passei a mão em sua cabeleira branca e me despedi. Ele puxou a máscara de lado, para poder falar mais alto:

- Doutor, que fungo bravo!

E sorriu."

Manter o leitor envolvido depois do final da hist√≥ria e, muitas vezes, obrig√°-lo a uma pausa reflexiva no meio do cap√≠tulo s√£o situa√ß√Ķes recorrentes em Por um fio e podem ser creditadas em grande parte √† habilidade do autor. De uma certa forma, tal recorr√™ncia serve tamb√©m para sustentar aquela id√©ia de que o texto liter√°rio n√£o tem mesmo como prescindir da fic√ß√£o, por mais ver√≠dico que seja seu conte√ļdo: o escritor que tenha esse poder quase m√°gico de pegar o leitor pela m√£o e lev√°-lo a conhecer a realidade por um √Ęngulo ainda in√©dito, fazendo com que ele se surpreenda e se emocione ao redescobrir o que sempre esteve plantado √† sua frente √© o art√≠fice de uma outra realidade, que n√£o se op√Ķe nem se sobrep√Ķe √† original, mas a enriquece com novas cores e significados.

Tanto faz que se trate ou não de ficção, esta ainda é a característica mais evidente da obra de arte. E da qual Por um fio não escapa.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de setembro/2004


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