Luiz Paulo Faccioli

O escritor dos fantasmas

Luiz Paulo Faccioli


Em 10 de dezembro de 1978, na cerim√īnia de entrega do Pr√™mio Nobel de Literatura, Isaac Bashevis Singer abriu seu discurso de agraciado satisfazendo uma curiosidade antiga de forma lapidar: "As pessoas freq√ľentemente me perguntam `por que voc√™ escreve numa l√≠ngua moribunda`? E eu quero explicar isto em r√°pidas palavras. Primeiro, gosto de escrever hist√≥rias de fantasmas, e nada combina melhor com um fantasma do que uma l√≠ngua em extin√ß√£o. Quanto mais morta a l√≠ngua, mais vivo o fantasma. Fantasmas adoram o i√≠diche e, pelo que sei, todos eles falam esse idioma. Segundo, n√£o s√≥ acredito em fantasmas, como tamb√©m em ressurrei√ß√£o. Tenho a certeza de que os corpos de milh√Ķes de falantes do i√≠diche um dia se levantar√£o de seus t√ļmulos e sua primeira pergunta ser√°: `Existe algum novo livro em i√≠diche para se ler?` Para eles, o i√≠diche n√£o estar√° morto. Terceiro, por 2000 anos o hebraico foi considerado uma l√≠ngua morta. De repente, ele se tornou estranhamente vivo. O que ocorreu com o hebraico pode tamb√©m ocorrer um dia com o i√≠diche, embora eu n√£o tenha a mais t√™nue id√©ia de como este milagre possa acontecer. H√° ainda uma quarta e menor raz√£o para n√£o abandonar o i√≠diche, e ela √©: o i√≠diche pode at√© ser uma l√≠ngua em extin√ß√£o, mas √© a √ļnica que eu conhe√ßo bem. Ele √© a minha l√≠ngua-m√£e, e uma m√£e nunca estar√° de fato morta."

A honraria suprema que pode almejar um escritor deve a Singer essa peculiaridade hist√≥rica: pela primeira e √ļnica vez, o Nobel premiou uma obra toda ela escrita na l√≠ngua dos judeus da di√°spora, um dialeto baseado no alto-alem√£o do s√©culo XIV, acrescido de elementos hebraicos e eslavos. E, ao conhecer a fic√ß√£o de Singer, mesmo sem saber previamente um m√≠nimo de cultura judaica ou de i√≠diche, o leitor g√≥i (n√£o-judeu) perceber√°, quase que intuitivamente - talvez at√© mesmo por artes de um atavismo mais (ou menos) remoto -, que n√£o existia outra possibilidade para o autor, tanto se confunde sua pr√≥pria biografia com as hist√≥rias por ele contadas. O i√≠diche √© tamb√©m, nas palavras de Singer, "um idioma do ex√≠lio, n√£o ligado a um territ√≥rio"; dos judeus obrigados, por v√°rias e diferentes motiva√ß√Ķes - e quase sempre com um componente de viol√™ncia -, a viver errantes ou ap√°tridas; do povo orgulhoso de suas ra√≠zes que, expulso com freq√ľ√™ncia da terra natal, mantinha em outro pa√≠s, atrav√©s dos costumes algo ex√≥ticos e tamb√©m da l√≠ngua, sua identidade e tradi√ß√£o.

No ano em que se comemora o centen√°rio do nascimento do not√°vel escritor, a Companhia das Letras edita uma obra importante que ainda n√£o havia merecido publica√ß√£o no Brasil. Trata-se de The Collected Stories, lan√ßado nos Estados Unidos h√° vinte e dois anos e que na edi√ß√£o brasileira ganha agora o t√≠tulo de 47 Contos de Isaac Bashevis Singer. A sele√ß√£o √© do autor, publicada originalmente em ingl√™s, embora todas as hist√≥rias tenham sido de fato concebidas em i√≠diche. O volume √© um cartap√°cio de 720 p√°ginas, vestidas de um despojamento contrastante ao requinte habitual das edi√ß√Ķes da Companhia das Letras, mas com o n√≠tido e louv√°vel prop√≥sito de baratear o custo do projeto e, dessa forma, tornar a obra acess√≠vel a um n√ļmero maior de leitores brasileiros. Mesmo com a conten√ß√£o or√ßament√°ria, ainda assim √© uma edi√ß√£o bem cuidada. Al√©m dos 47 contos, participam do volume um brilhante ensaio de Moacyr Scliar, O mundo de Singer, e uma nota do autor, ambas prefaciando a antologia de forma simples mas competente. Ao final, um gloss√°rio m√≠nimo traz inclusive algumas receitas da culin√°ria judaica.

J√° no pref√°cio da obra, o leitor come√ßa a ser seduzido por uma das mais ricas contribui√ß√Ķes vindas de escritor judeu √† literatura universal. Ao longo de suas sete p√°ginas, Scliar conta, entre outras coisas, que Singer nasceu Icek Hersz Zynger, a 14 de julho de 1904, em Radzymin, lugarejo polon√™s pr√≥ximo a Vars√≥via, filho e neto de rabinos ligados ao hassidismo (ou chassidismo), uma seita inspirada na Cabala que remonta √† Europa oriental do s√©culo XVIII e surgida como um contraponto mais moderno √† austeridade elitista do juda√≠smo tradicional. A m√£e, por sua vez, era filha de um rabino mitnagued, ou seja, opositor do hassidismo e, portanto, fiel √† ortodoxia religiosa. Representante de uma corrente mais pobre e menos instru√≠da, que via Deus em todas as coisas e acreditava no canto e na dan√ßa para alcan√ßar a divindade, o pai era tamb√©m o ser af√°vel que combinava uma vida inteira dedicada √† ora√ß√£o e ao estudo com a alegria das celebra√ß√Ķes religiosas e a conta√ß√£o de hist√≥rias, para o que juntava as pessoas da comunidade em sua casa. A m√£e, por sua vez, criatura culta e inteligente, mantinha-se distante e reservada. Prensado entre esses dois modelos, o menino Icek cresceu solit√°rio e introspectivo. Chega a ser √≥bvia a conclus√£o de que grande parte da fic√ß√£o de Singer tem origem nas hist√≥rias ouvidas na sala da casa de sua inf√Ęncia em Vars√≥via, e eram hassides os seus protagonistas. Contudo, ao mudar o nome em 1925, foi a m√£e, que se chamava Batsheva, a homenageada no "Bashevis" que passou a assinar.

Dois irmãos mais velhos também têm papéis importantes na biografia de Singer: Israel Yehoshua, o escritor relativamente bem conhecido de Os irmãos Aschkenazi, que incentivou o caçula em seus primeiros passos na literatura, e Hinde Esther, histérica e epiléptica, cuja patologia veio a inspirar várias de suas futuras personagens.

A carreira liter√°ria de Singer vingou de fato depois de ele ter emigrado para os Estados Unidos, em 1935, seguindo os passos do irm√£o Israel e abandonando na Europa a mulher e o √ļnico filho. Foi nesse ano que se tornou redator do Forverts (The Jewish Daily Forward), um jornal editado em i√≠diche onde publicava suas novelas em cap√≠tulos seriados, √† maneira dos folhetins. Seguiram-se v√°rios anos de paralisia: o descr√©dito quanto √† exist√™ncia de leitores interessados na l√≠ngua escolhida e a d√ļvida quanto a sua pr√≥pria prefer√™ncia tem√°tica - "n√£o havia lugar para os dem√īnios em Manhattan ou Coney Island" -, fatos talvez agravados com a priva√ß√£o financeira imposta pelo jornalismo, fizeram com que Singer desistisse por v√°rios anos de escrever fic√ß√£o, s√≥ retornando a ela em 1945, motivado pelas not√≠cias da Segunda Guerra e da cultura judaica sendo destru√≠da por ela. A partir de ent√£o, at√© a morte em 1991, n√£o parou mais de produzir. A fam√≠lia Muskat, O m√°gico de Lublin, Inimigos, uma hist√≥ria de amor, Yentl, o menino da yeshiva, O Golem e No tribunal de meu pai s√£o alguns dos seus t√≠tulos mais conhecidos, muitos deles j√° editados no Brasil.

Singer sempre se considerou um contador de hist√≥rias. Assim como nosso Erico Verissimo, que tamb√©m se autodefinia com essa mesma singeleza, em sua vasta obra o romance tem um lugar destacado, e tr√™s deles - The Manor, The Estate e A fam√≠lia Muskat - s√£o √©picos freq√ľentemente comparados √† saga Os Buddenbrooks de Thomas Mann. Contudo, foi na brevidade das short stories - contos e novelas - que Singer encontrou sua melhor forma de express√£o. Tamb√©m se interessou pela literatura infantil e, na seq√ľ√™ncia do discurso por ocasi√£o da entrega do Nobel, fez das justificativas dessa op√ß√£o um espetacular invent√°rio das pr√≥prias convic√ß√Ķes liter√°rias: "Existem quinhentas raz√Ķes de eu ter come√ßado a escrever para crian√ßas, mas, para poupar tempo, mencionarei apenas dez delas. N√ļmero 1) As crian√ßas l√™em livros, n√£o resenhas. N√ļmero 2) As crian√ßas n√£o l√™em para encontrar sua identidade. N√ļmero 3) Elas n√£o l√™em para se livrar de culpa, para matar a sede de insurrei√ß√£o ou para sair da aliena√ß√£o. N√ļmero 4) Elas n√£o usam psicologia. N√ļmero 5) Elas detestam sociologia. N√ļmero 6) Elas n√£o tentam entender Kafka ou Finegans Wake. N√ļmero 7) Elas ainda acreditam em Deus, fam√≠lia, anjos, diabo, bruxas, dem√īnios, l√≥gica, claridade, pontua√ß√£o e outras coisas obsoletas. N√ļmero 8) Elas gostam de hist√≥rias interessantes, n√£o de coment√°rios, guias ou notas de rodap√©. N√ļmero 9) Quando um livro √© chato, elas bocejam abertamente, sem qualquer vergonha ou receio. N√ļmero 10) Elas n√£o esperam que seu bem-amado escritor redima a humanidade. Jovens que s√£o, elas sabem que isso n√£o est√° em seu poder. Apenas os adultos t√™m essas ilus√Ķes infantis."

Na nota de abertura ao 47 Contos, Singer repete alguns desses argumentos, enquanto nos deixa outras p√©rolas de sua preocupa√ß√£o est√©tica: "(o conto) constitui o desafio extremo para o escritor criativo"; "tem de ter sempre como alvo direto o seu cl√≠max"; "tem de ter um projeto definido e n√£o pode ter o que se chama de `fatia da vida` no jarg√£o liter√°rio"; "a brevidade √© sua pr√≥pria ess√™ncia"; "os mestres do conto, Chekhov, Maupassant, assim como o sublime autor da hist√≥ria de Jos√© no Livro do G√™nesis sabiam exatamente para onde estavam indo"; "a fic√ß√£o em geral n√£o deve nunca ser anal√≠tica"; "a literatura genu√≠na informa enquanto entret√©m"; "consegue ser ao mesmo tempo clara e profunda"; "aceita ser comentada por outros, mas nunca tenta explicar a si mesma"; "tem o poder m√°gico de fundir acaso com objetividade, d√ļvida com f√©, as paix√Ķes da carne com os anseios da alma"; e por a√≠ vai. No entanto, alguns dos contos que foram selecionados e por ele mesmo classificados como tal, s√£o na realidade exemplos de novela, palavra aqui empregada na acep√ß√£o da novella italiana ou da "noveleta" de alguns te√≥ricos: aquela narrativa breve situada a meio caminho entre o conto tradicional e narrativa longa de conflito √ļnico, esta j√° consagrada com id√™ntico nome. Gimpel, o bobo, Os pequenos sapateiros, Yentl, o menino da yeshiva e O violinista morto pertencem a este grupo. Tamb√©m ocorre de algumas narrativas explorarem mais de uma trama. O caso de Lua e loucura, que fecha a antologia, √© emblem√°tico, ao contrariar, sem maiores pruridos, um dos preceitos ditados pelo pr√≥prio autor: junta hist√≥rias que n√£o t√™m uma liga√ß√£o mais evidente entre si al√©m do fato de terem sa√≠do das conversas entre os mesmos dois mendigos. Mas, em se tratando de Singer, nem o eventual desvio formal consegue anular o m√©rito do texto ou sugerir seu enquadramento em qualquer outro g√™nero.

Para al√©m da escolha original do idioma, do perfeito dom√≠nio da t√©cnica narrativa e da peculiar√≠ssima vis√£o de literatura, Singer tamb√©m deve seu brilho √† tem√°tica eleita e a sua pr√≥pria condi√ß√£o de judeu migrante. Embora tenha produzido quase toda a obra na Am√©rica (a exce√ß√£o √© a novela Sat√£ em Goray, escrita e publicada em Vars√≥via, em 1932), seu universo ficcional remete sempre √† inf√Ęncia e adolesc√™ncia vividas na Europa. √Č de l√° que v√™m quase todos os elementos predominantes de seu inimit√°vel estilo e tamb√©m a inten√ß√£o de perpetuar um mundo morto, o das pequenas comunidades judias das aldeias polonesas.

Em primeiro e honroso lugar, est√° o folclore judaico, este fortemente ligado ao misticismo e √† magia. N√£o √© de gra√ßa que muitos comparam a obra de Singer ao realismo fant√°stico sul-americano, especialmente ao de Gabriel Garcia M√°rquez, e a protagonista de Henne Fogo, mulher de personalidade bizarra que come√ßa a atrair o fogo para objetos pr√≥ximos a ela e acaba carbonizada em condi√ß√Ķes estranh√≠ssimas, √© um bom exemplo dessa coincid√™ncia. Fen√īmenos ps√≠quicos, clarivid√™ncia, premoni√ß√Ķes e telepatia s√£o recorrentes. Os dybbuks - almas penadas e travessas que costumam se apossar do corpo das pessoas - aparecem em v√°rias das hist√≥rias, inclusive protagonizando sess√Ķes de exorcismo. Mas os personagens, por mais exc√™ntricas que sejam suas cren√ßas e atitudes, jamais se transformam em caricatura ou alvo do esc√°rnio do autor. √Č que Singer d√° sempre uma dimens√£o profunda e humana a mais inveross√≠mil das situa√ß√Ķes, al√©m de crer seriamente na espiritualidade e, sobretudo, naquilo que escreve. Ele narra usando o mesmo despreconceito com que o menino Icek ouvia as hist√≥rias do folclore de seu povo, na casa dos pais em Vars√≥via.

A educa√ß√£o de Singer, toda ela guiada pelo estudo religioso, transformou-se noutra fonte inesgot√°vel de sua inspira√ß√£o. Mesmo n√£o seguindo a voca√ß√£o familiar ao rabinato, ele soube explorar como poucos artistas o significado dos s√≠mbolos mais caros ao juda√≠smo. Singer n√£o faz quest√£o de explicar ou atenuar o sentimento de "povo escolhido" pr√≥prio de sua gente, tampouco faz apologia com ele; ao contr√°rio, vale-se de uma exemplar naturalidade (sinceridade, leia-se) quando narra o distanciamento que os patr√≠cios querem guardar dos gentios e de seus h√°bitos, por consider√°-los impuros ou demasiado mundanos. Poucos judeus t√™m a coragem de assumir francamente essa convic√ß√£o, preferindo quase sempre tergiversar sobre ela. Fiel √† m√°xima de que "a literatura genu√≠na informa enquanto entret√©m", Singer tamb√©m acaba proporcionando ao leitor g√≥i um fant√°stico painel da cultura judaica, notadamente atrav√©s dos contos que t√™m a Pol√īnia como cen√°rio.

A terceira caracter√≠stica marcante em Singer √© o erotismo. Sendo os personagens moldados em carne e osso, mas principalmente em sangue, movidos por paix√Ķes intensas e fantasias muitas vezes sobre-humanas, era de se esperar que o sexo tivesse um papel de destaque na sua fic√ß√£o. Tal como acontece na vida real, ele est√° latente nos menores acontecimentos e, ao emergir, vem com toda a carga represada, sem contudo trair a espontaneidade. Al√©m dessa recorr√™ncia natural, por assim dizer, √† condi√ß√£o humana, possess√Ķes demon√≠acas t√™m sempre algo de luxuriante, tanto quanto as tenta√ß√Ķes que fazem os judeus por vezes perder a trilha determinada na Tor√°. Ao longo da antologia, muitos s√£o os desvios que t√™m motiva√ß√£o sexual. Evidentemente, o erotismo tornou Singer um escritor popular, ao tempo que tamb√©m escandalizava alguns de seus leitores. Sobre isso, ele declarou uma vez: "Claro que a vida n√£o √© s√≥ feita de sexo, mas eu gosto de escrever sobre sexo tal como Dostoievski gostava de escrever sobre o crime".

Quarto grande componente da obra de Singer, o humor, e nele talvez a caracter√≠stica mais evidente de qualquer literatura de ascend√™ncia judia. O humor judaico √© √ļnico, incompar√°vel, forjado pela necessidade constante de afastar o desespero nas situa√ß√Ķes mais adversas √†s quais foi submetido esse povo ao longo dos s√©culos, ou, em outra das sugestivas frases do pr√≥prio Singer, decorrente da capacidade que s√≥ o juda√≠smo tem de "encontrar felicidade onde outros apenas veriam mis√©ria e humilha√ß√£o". Na perfeita defini√ß√£o de Moacyr Scliar, ele √© "um humor peculiar, contido, melanc√≥lico, filos√≥fico; n√£o √© humor para gargalhadas, antes para um sorriso".

Costurando esses ingredientes ou, muitas vezes, apenas movendo-se quase que imperceptivelmente sob eles, o pessimismo de Singer quanto à condição humana atravessa toda a sua obra.

Os 47 contos podem ser divididos em dois grupos principais: os ambientados na Europa oriental e os que se passam na Am√©rica. Mais do que refletir a pr√≥pria vida de Singer, a divis√£o baseia-se numa not√°vel transforma√ß√£o pela qual passa o narrador quando muda o continente. Na Europa ele √© um homem simples, cr√©dulo, m√≠stico, ligado √† terra, √†s profiss√Ķes mais rudimentares, temente a Deus e seguidor dos mandamentos originais de sua tradi√ß√£o. As narrativas de car√°ter fant√°stico t√™m todas esse cen√°rio. Quando deixa Frampol, Shidlovtose, Lapschitz ou qualquer outra aldeia rumo a Vars√≥via, j√° sofre um grande choque ao adentrar num mundo maior, citadino e bem mais prop√≠cio √† assimila√ß√£o cultural. Ali n√£o existe outra alternativa para ele a n√£o ser o gueto. Mas, ao atravessar o Atl√Ęntico, √© um narrador bem mais complexo e c√©tico que toma as r√©deas: o escritor pobre e intelectual que precisa administrar a pen√ļria econ√īmica e viver com dignidade num pa√≠s movido a dinheiro. As hist√≥rias de seu povo passam a ser apenas reminisc√™ncias - poderosas, √© bem verdade - e n√£o mais a mat√©ria-prima de sua cria√ß√£o. Na Am√©rica, ainda que n√£o refiram explicitamente a prefer√™ncia por guetos, os protagonistas s√£o sempre judeus, alguns mais, outros menos assimilados, mas todos patr√≠cios, ref√©ns do gregarismo t√≠pico desse e de outras tantas minorias sociais.

Independentemente de qual seja o narrador ou o cen√°rio, a condi√ß√£o judaica ainda √© a mola mestra da literatura de Singer, e o eterno contraponto entre os dois mundos retratados - um original e outro adquirido - vai sendo constantemente refor√ßado pelos v√°rios ingredientes autobiogr√°ficos que comp√Ķem as narrativas. Como acontece com todos os grandes mestres, ao narrar o mundo que conhece bem, acaba comovendo o universo.

A estupenda hist√≥ria de Os pequenos sapateiros, um dos grandes momentos da colet√Ęnea, √© tamb√©m um exemplo perfeito do que significava para um judeu deixar suas ra√≠zes para viver em outro lugar. Desde seu hom√īnimo fundador da linhagem, e por quinze gera√ß√Ķes, a profiss√£o de sapateiro passou de pai para filho na fam√≠lia de Abba Shuster. Era o que eles sabiam fazer, e faziam muito bem, at√© que o primog√™nito dos sete filhos de Abba sonhou com uma vida melhor na Am√©rica e emigrou. Atr√°s dele, um ap√≥s outro, todos os filhos sapateiros foram deixando Frampol para tentar a sorte nos Estados Unidos. Aqui prosperaram, tornaram-se conhecidos e respeitados como fabricantes de cal√ßados, fizeram fortuna, constitu√≠ram fam√≠lia, constru√≠ram suas sete casas nos arredores de Nova Jersey, todas √†s margens de um mesmo lago, viviam felizes, mas n√£o conseguiam convencer o pai, agora vi√ļvo e solit√°rio, a vir morar com eles. Quando estourou a Segunda Guerra e o anti-semitismo grassou pela Europa, a aldeia de Frampol foi destru√≠da. Abba n√£o teve mais como resistir e acabou vindo ao encontro dos filhos. Os horrores da guerra, o p√©riplo a que foi obrigado para conseguir fugir e a epop√©ia da viagem oce√Ęnica foram provocando no j√° idoso Abba uma confus√£o mental que come√ßou quando ele passou a comparar o que vivia com passagens da B√≠blia:

"Durante o dia, Abba vigiava por uma escotilha em seu catre. O navio subia como se fosse chegar ao c√©u, e o c√©u roto despencava como se o mundo estivesse voltando ao caos original. A√≠ o navio tornava a mergulhar no oceano, e mais uma vez o firmamento se dividia das √°guas, como no Livro do G√™nesis. As ondas eram amarelas de enxofre e negras. Agora elas serrilhavam no horizonte como uma cadeia de montanhas, lembrando Abba das palavras do salmista: `As montanhas saltavam como carneiros, os morros como cordeiros`. Depois iam se erguendo de novo, como na miraculosa Separa√ß√£o das √Āguas. Abba tinha pouco estudo, mas as refer√™ncias b√≠blicas rondavam sua cabe√ßa, e ele se viu como o profeta Jonas, que fugiu perante Deus. Ele tamb√©m estava no ventre de uma baleia e, como Jonas, rezava a Deus por prote√ß√£o. Ent√£o lhe parecia que aquilo n√£o era oceano, mas um deserto ilimitado, cheio de serpentes, monstros e drag√Ķes, como est√° escrito no Deuteron√īmio."

Quando finalmente aportou, j√° n√£o compreendia coisa alguma:

"O navio j√° estava ancorado no porto de Nova York, mas Abba n√£o tinha a mais vaga no√ß√£o disso. Viu imensos edif√≠cios e torres, mas tomou-os pelas pir√Ęmides do Egito. Um homem alto de chap√©u branco entrou na cabine e gritou-lhe algo, mas ele continuou im√≥vel. Por fim, ajudaram-no a se vestir e levaram-no para o porto, onde seus filhos e noras e netos estavam esperando. Abba ficou desnorteado: uma multid√£o de propriet√°rios de terra poloneses, condes e condessas, meninos e meninas gentios, saltou em cima dele, abra√ßando-o e beijando, gritando em uma estranha l√≠ngua que ao mesmo tempo era i√≠diche e n√£o era i√≠diche."

Entretanto, não foram os filhos, nem a recepção calorosa, tampouco os cuidados e o conforto de que agora dispunha o que salvou Abba da decrepitude. Ao reencontrar num armário os velhos apetrechos de seu ofício, trazidos consigo da Europa, e retomando com eles a ancestral atividade de sua família, mais uma vez conseguiu agregá-la em torno de si: aos domingos, o pai e os sete filhos passaram a consertar sapatos, agora por mero diletantismo, cantando a mesma canção que os distraía durante o trabalho em Frampol.

Av√ī e neto √© outra bel√≠ssima narrativa que tem no confronto entre dois mundos - agora as duas gera√ß√Ķes anunciadas no t√≠tulo - o seu fio condutor. A hist√≥ria se passa em Vars√≥via, quando a Pol√īnia estava sob dom√≠nio russo e os judeus come√ßavam a sofrer com os pogroms. O av√ī √© um hassidista que nunca fez outra coisa na vida a n√£o ser dedicar-se √†s tradi√ß√Ķes religiosas de sua gente. Numa bem-humorada passagem, exemplar da caracter√≠stica j√° referida, o narrador sintetiza:

"Em criança, Reb Mordecai Meir já havia entendido que se alguém quer ser um judeu de verdade não tem tempo para mais nada. Louvado seja Deus, sua esposa, Beyle Teme, entendera isso. Nunca lhe pedira para ajudar na loja, para se ocupar dos negócios, para assumir o encargo de ganhar a vida. Ele raramente tinha dinheiro no bolso, exceto alguns guilderes que ela lhe dava semanalmente para esmolas, para o banho ritual, livros, rapé e fumo do cachimbo."

O av√ī n√£o compreende a l√≠ngua dos gentios nem acredita que a situa√ß√£o para os judeus possa vir a se tornar t√£o grave. O neto, ao contr√°rio, perfila-se com os rebeldes que come√ßam a desafiar a autoridade do czar, prenunciando a revolu√ß√£o bolchevique. Ele procura o av√ī, depois de anos de afastamento, a quem s√≥ faz trazer apreens√£o e sofrimento com suas id√©ias revolucion√°rias e sua atitude desafiadora da pr√≥pria lei judaica. O rapaz acaba morrendo num confronto com a pol√≠cia, e o conto tem um final soberbo: o av√ī dizendo o Kadish (ora√ß√£o aos mortos) sem o quorum necess√°rio e para o neto que ainda n√£o havia sido enterrado, contrariando assim os preceitos do Talmude para que possa fazer a homenagem, enquanto o policial russo o humilha e debocha de sua cren√ßa:

" `Ei, você aí, judeu, cachorro velho, está falando com quem, com o seu Deus?`, perguntou o policial. De alguma forma, Reb Mordecai Meir entendeu essas poucas palavras. O que será que ele pensa? Como fazer para ele entender? Reb Mordecai Meir defendeu-se em seus pensamentos. Como nenhum mal pode vir de Deus, aqueles criados à Sua imagem não podem ser completamente maus. E disse ao policial: `Sou judeu, sim. Rezo a Deus`.

Eram só essas as palavras gentias que Reb Mordecai Meir conhecia."

O fim remete ao come√ßo, e agora n√£o √© mais o "sorriso" da defini√ß√£o de Scliar o que a narrativa provoca no leitor, mas perplexidade diante do sofrimento da qual n√£o tem como fugir. O desencanto de Singer atravessa a √ļltima linha e faz com que o conto se prolongue al√©m dela.

Outra narrativa que merece destaque por conta de sua popularidade √© Yentl, o menino da yeshiva. Pe√ßa escrita em 1974 em parceria com Leah Napolin, ganhou uma vers√£o cinematogr√°fica, em 1983, dirigida e estrelada por Barbra Streisand e foi ent√£o publicada em forma de novela. No in√≠cio do s√©culo XX, uma garota fascinada pelo conhecimento religioso se traveste de menino para freq√ľentar uma yeshiva, ou seja, escola destinada ao estudo do Talmude e da Tor√°, um privil√©gio masculino na tradi√ß√£o dos judeus. Em meio √†s perip√©cias todas a que se submete para esconder o verdadeiro sexo, se apaixona por um colega, Avigdor, o que acaba provocando no pobre rapaz um tumulto √≠ntimo de propor√ß√Ķes b√≠blicas, quando ele descobre em si id√™ntico sentimento. A id√©ia n√£o √© original na literatura, tampouco no cinema, mas em Singer o componente religioso traz um tempero especial a ela.

N√£o menos importantes e tamb√©m populares s√£o os contos O Spinoza da rua do Mercado, Um amigo de Kafka, Breve sexta-feira, Uma coroa de penas, entre v√°rios outros. O invis√≠vel, Zeidlus, o papa e O √ļltimo dem√īnio t√™m como narrador o pr√≥prio diabo, enquanto que, em A sess√£o esp√≠rita, o refinado humor de Singer √© o que predomina.

Um √ļnico sen√£o merecer√° coment√°rio. Mesmo que, como j√° se falou, Singer tenha escrito toda a obra em i√≠diche, ele publicou quase sempre em ingl√™s. Cioso de que a tradu√ß√£o fosse o mais fidedigna poss√≠vel, envolvia-se diretamente com o trabalho dos tradutores, o que nos permite deduzir que um original em ingl√™s com o aval do pr√≥prio autor √© base mais do que id√īnea para qualquer vers√£o. A tradu√ß√£o de Jos√© Rubens Siqueira para os 47 Contos √© correta, bem realizada em quase toda a extensa obra, embora estranhamente, em alguns momentos, soe demasiado literal, o que atrapalha a frui√ß√£o. Talvez porque, sendo o ingl√™s uma l√≠ngua que prima pela s√≠ntese e muitas vezes n√£o considera nociva a repeti√ß√£o de elementos, o tradutor tenha algumas vezes deixado de levar isso em conta, parecendo apressado ao gosto de um leitor mais exigente. A boa tradu√ß√£o muitas vezes demanda um trabalho de reescrita para que o texto vertido se mantenha √† altura do original. Por outro lado, a linguagem de Singer √© sempre muito direta, simples, sem grandes sofistica√ß√Ķes, e justamente esse aspecto √© o que pode trair um tradutor mais afoito. A simplicidade aliada a um bom resultado √© sempre algo dif√≠cil de se conseguir em qualquer dos est√°gios da cria√ß√£o art√≠stica, e disso a tradu√ß√£o tamb√©m n√£o escapa.

Isaac Bashevis Singer √© um artista mai√ļsculo, surpreendente, que recebe, com o lan√ßamento no Brasil de seus 47 Contos, uma edi√ß√£o compat√≠vel ao seu talento e posi√ß√£o de honra na literatura universal. Ganham os leitores, principalmente os que ainda n√£o o encontraram, um t√≠tulo obrigat√≥rio. Tendo j√° o Nobel no curr√≠culo, e com ele o reconhecimento m√°ximo, Singer demonstra, nas palavras finais da apresenta√ß√£o da obra, o pessimismo e a lucidez que caminham juntos em sua literatura: "Na melhor das hip√≥teses, a arte n√£o pode ser mais que um meio para esquecer o desastre humano por um momento. Ainda estou trabalhando com afinco para fazer esse `momento` valer a pena."

Os leitores de Singer, fantasmas ou n√£o, espalhados pelo mundo n√£o t√™m a menor d√ļvida de que tal momento sempre valeu a pena.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de agosto/2004


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