Luiz Paulo Faccioli

O falso resenhista

Luiz Paulo Faccioli


Hoje serão dois os resenhistas: um verdadeiro e outro falso. Ou ambos falsos, talvez ambos verdadeiros, não importa. Quem sabe um terceiro também dê o ar da graça, e então ele não será mais do que um resenhista travestido de leitor leigo. Não por isso menos atento. Nem menos falso. Deste não vamos nos ocupar por enquanto. Falemos antes dos dois primeiros. Um, falso ou verdadeiro, usará a terceira pessoa, como sói acontecer quando se pretende um tom neutro, sóbrio, impessoal. O outro refastelar-se-á com um "eu" opiniático, galhofeiro. Talvez seja este o mais sério. Ou o mais falso. Basta que se afirme existirem dois, sem anunciar precisamente quem é quem, e a confusão fica instaurada. E, neste caso, também é legítima. A confusão. Afinal, se um narrador falso tem o direito de existir, que mal há em que se use um falso resenhista? Ou dois? Quem sabe até mesmo vários desses espécimes tão raros. Ou serão eles tão raros assim?

(Não acreditem em nada do que eu disse até agora, e não minto. Ou talvez sim, talvez eu minta.)

Silviano Santiago interessou-se pelo c√©lebre argumento. Fez constar na contracapa de seu O Falso Mentiroso que ele, o tal argumento, √© atribu√≠do a um certo Euclides de Mileto, apontando a Enciclop√©dia Mirador como fonte. Uma r√°pida pesquisa na internet revela que a autoria do dito-cujo pertence de fato a algu√©m com nome ainda mais esdr√ļxulo ao ouvido brasileiro: o fil√≥sofo Eub√ļlides de Mileto, que viveu no s√©culo IV a.C. Talvez neste caso n√£o importe tanto assim dar a C√©sar o cr√©dito devido ao que √© de C√©sar. Eu acho que importa, sim. Afinal, o precioso argumento atravessou nada menos do que vinte e quatro longos s√©culos para inspirar o novo romance do escritor mineiro. Vamos a ele, pois:

Aquele que diz "eu minto" seria um mentiroso?

Se for verdade o que diz, ent√£o a afirma√ß√£o √© falsa. Se o que diz for falso, a afirma√ß√£o √© verdadeira e, por conseq√ľ√™ncia, novamente falsa. Eis a√≠ o paradoxo. Ou o sofisma. Arist√≥teles, contempor√Ęneo e inimigo de Eub√ļlides, desmonta-o com o seguinte racioc√≠nio: "ele inclui na conclus√£o elementos excessivos, que a observa√ß√£o n√£o distingue suficientemente de primeiro intuito. Mas se na afirma√ß√£o inicial n√£o se inclu√≠am", prossegue Arist√≥teles, "n√£o poder√£o ser inclu√≠dos na conclus√£o. Na conclus√£o de argumento s√≥ poder√° explicitar-se o que era virtualmente contido no antecedente." Entenderam? Eu n√£o entendi. Conversa de grego da escola socr√°tica menor de M√©gara. Assim diz a internet, hoje a maior e mais completa de todas as enciclop√©dias. Mantive as aspas t√£o-somente para sinalizar a transcri√ß√£o, pois n√£o creio que a aristot√©lica id√©ia tenha sido concebida exatamente como foi transcrita aqui, nem que, naquela √©poca, pudesse j√° existir o conceito de virtualidade (o Houaiss registra 1696 como data√ß√£o do termo). Ou talvez ele j√° existisse sob outra roupagem, pois os fil√≥sofos gregos continuam a nos provocar com sua excel√™ncia intelectual.

Conversa pra boi dormir, desdenharia Samuel, o personagem-narrador e nosso falso mentiroso. Samuel ou Silviano? O livro tem um subtítulo: Memórias. Memórias de quem? De quê? Certo é que Samuel não é Silviano. Ou será? Samuel é falso, pois tem duas mães: a verdadeira, que não conhece, e a falsa, porque estéril e adotiva. Por conseguinte, tem também dois pais, que talvez sejam, na realidade, a mesma pessoa. Esta é uma charada fácil: pode ser que o filho adotado seja fruto de uma aventura extraconjugal do falso pai, advogado de formação e de fachada, que fabrica e vende camisas-de-vênus antes do advento da penicilina. Mesmo que se aceite a possibilidade, ainda assim restam dois papais: 1) o advogado fajuto e 2) o industrial contrabandista e bem-sucedido. Lá pelas tantas, Samuel roda a baiana e declara que ele pode muito bem ser o próprio Silviano. E aí o leitor - ele mesmo: nosso terceiro resenhista - não entende mais nada, pois surge de inopino mais um par de pais. Eu tampouco entendo, mas não desgosto dessa intromissão autoral. Divirto-me com a falta de lógica da história, ou com o seu excesso, o que dá rigorosamente no mesmo. Chego a sentir um grande prazer quando descubro que Zé Macaco - no romance, o bolsista negro de um colégio de elite e exímio executante de sofisticadas melodias ao som da flatulência - existe em osso e carne na biografia de Silviano e, assim como o personagem, também morre precocemente. Fico imaginando se o amigo de Silviano teria igual talento. Era homossexual, o personagem, e dizia afinar ou afiar o instrumento de uma forma bizarra e algo grotesca: "na brachola" de um barbeiro galego. Assim mesmo. Aliás, narrador e personagem chegam a especular qual seria o verbo mais adequado, afinar ou afiar, e isso acontece exatamente na ocasião em que o amigo resolve confidenciar o segredo. Estranho? Talvez nem tanto, pois todos afirmam que Silviano Santiago é pródigo em parodiar Machado de Assis e seu típico deboche ao miserê humano. Outros também encontram na obra ecos de um Mário de Andrade e de seu Macunaíma, isso por conta da inconfiabilidade do narrador. Pode ser que seja assim. Eu não acredito piamente.

A fam√≠lia de Samuel, a falsa, vive a ascens√£o e decl√≠nio do poder econ√īmico. O pai primeiro enriquece √†s custas de favores pagos a militares, farmac√™uticos, m√©dicos, fornecendo seu produto √†s fileiras do ex√©rcito no tempo da Segunda Guerra e at√© mesmo contrabandeando-o para outros pa√≠ses. Com a populariza√ß√£o da descoberta de Fleming e a facilidade com que ela passou a combater as doen√ßas sexualmente transmiss√≠veis, o pretenso pai conhece ent√£o o rev√©s do sucesso e passa a odiar o vener√°vel cientista, segundo ele, o √ļnico respons√°vel por sua debacle financeira.

Samuel também é falso por outros motivos. Ao suposto pai, diz que estuda arquitetura; à suposta mãe, ente a um tempo submisso e possessivo, afirma cursar direito. Nem uma coisa nem outra. Forma-se na Escola de Belas-Artes, e de lá sai um inescrupuloso falsário das xilogravuras de Oswaldo Goeldi. Se a arte imita a vida, por que também não a própria arte? Sangue não é água. Filho de peixe, peixinho sempre será. Prova de que o falso pai seria de fato o verdadeiro? Mera especulação. Talvez mentira. Avisei que um de nós não era confiável. Pior, confessei que ele/eu mentia. E entrei de cabeça no tal paradoxo. Pudera: a bela capa traz título, subtítulo e nome do autor em alto relevo brilhante sobre a fotografia em preto-e-branco de um simpático bebê. Mas o editor esquece de informar quem é a criança e a quem se deve a autoria da foto. A Biblioteca Internet mais uma vez é quem esclarece: trata-se do próprio Silviano Santiago em tenra idade. A mescla de ficção e realidade, que quase sempre merece dos escritores um tratamento de disfarce, em O Falso Mentiroso corre solta e já na capa é denunciada.

O cen√°rio √© o Rio de Janeiro, e Silviano resgata com brilho a cena carioca desses quase setenta anos - do final dos 30 at√© hoje -, narrando h√°bitos, endere√ßos e r√≥tulos de antanho: flite, cera Parquetina, Rhum Creosotado, creolina, Restaurante Lamas, Mara R√ļbia, Virg√≠nia Lane, O Cruzeiro. Tamb√©m o linguajar caracter√≠stico daquela gera√ß√£o, com seus ditos ing√™nuos entremeados de estrangeirices, ganha com a obra um valioso registro para a posteridade. Boa divers√£o.

Silviano gosta de frases curtas, sincopadas. Elas imitam um metralhar incessante e se prestam, aliadas √† arquitetura rocambolesca da trama, a criar uma sensa√ß√£o de vertigem no leitor. Os par√°grafos s√£o econ√īmicos. N√£o raro, compostos de √ļnica palavra. O l√©xico, muitas vezes chulo, faz com que o registro aproxime-se perigosamente do vulgar. Resulta num discurso de altos e baixos. Se, em algumas passagens, beira o escatol√≥gico, noutras ensaia a ironia com um tipo de humor j√° defasado. Ao exercitar a par√≥dia, exagera nas cores e ultrapassa o limite estrat√©gico para mant√™-la fresca e graciosa. O resultado √© tosco, meio grosseiro. O conte√ļdo, sobejamente melhor do que a forma escolhida para narr√°-lo. O resenhista em terceira pessoa diz que ela, a forma, √© anacr√īnica, enreda-se √†s vezes no ju√≠zo de valor e chega ao c√ļmulo de xingar Bill Gates, a Microsoft e as estripulias do imperialismo americano! Eu digo que, se j√° √© um t√©dio topar com uma baboseira dessas no ide√°rio de uma esquerda ainda festiva, em literatura isso n√£o tem mais direito a sursis. Nem nunca teve. O sexo √© tratado de maneira crua, escrachada. V√° l√°: talvez o autor queira que a linguagem seja condizente √† canalhice do narrador. E tamb√©m √† sua falsidade, pois, em meio √† enxurrada de lugares-comuns, espocam, aqui e acol√°, ind√≠cios de refinamento intelectual, sob forma de cita√ß√Ķes de literatura e cinema, express√Ķes em l√≠ngua estrangeira e at√© mesmo em pomposo latim.

Resumindo a cantilena, h√° pelo menos duas avalia√ß√Ķes poss√≠veis para a vetustez e a excessiva crueza da linguagem de Silviano: se, por um lado, √© oportuno e muito bem-feito o resgate de uma √©poca j√° distante, e nessa constru√ß√£o leva-se em conta o car√°ter duvidoso do narrador, por outro, falta requinte liter√°rio, bom gosto, sutileza estil√≠stica, itens absolutamente imprescind√≠veis √† sedu√ß√£o de um leitor mais exigente (de novo ele aqui, o terceiro resenhista).

Entretanto, em meio às várias e já citadas escorregadelas, Silviano surpreende pela fina sensibilidade com que constrói alguns bons momentos do livro. Como o do narrador que, ao falar da falsa mãe e da estranheza de nunca tê-la visto escrever antes da morte do pai, sai com uma bela e inspirada descrição:

"Diante do espelho da penteadeira descontava toda a frustração de ágrafa. Escrevia. Usava de a a z o alfabeto das linhas e das cores. Não escrevia no próprio rosto, escrevia na imagem do rosto que estava refletida à sua frente. Escrevia o rosto no espelho com a de azul, b de branco e c de carmim. A cópia dela é que tinha o contorno das linhas faciais acentuado, os pequenos defeitos da pele retocados. O reflexo do rosto pintado, a pele espelhada colorida."

Quem produz um texto desse quilate n√£o merece indulg√™ncia pelos pecados estil√≠sticos que comete. Ele n√£o aconteceu por acidente de percurso, nem foi mero fruto do acaso, sen√£o de um laborioso e aut√™ntico exerc√≠cio de reflex√£o, do qual a boa literatura jamais prescinde. Diante de tal proeza, a falsidade l√ļdica dos nossos tr√™s resenhistas perde o sentido, e vem um deles, verdadeiro com toda a certeza, afirmar que Silviano Santiago poderia ter feito melhor do que fez, tendo nas m√£os essa mat√©ria-prima t√£o velha mas ainda nobre e que poderia ter rendido uma pe√ßa bem mais original.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de julho/2004


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