Luiz Paulo Faccioli

A hora da colheita

Luiz Paulo Faccioli


A edi√ß√£o n√£o poderia ser mais s√≥bria. Na capa, duas grada√ß√Ķes de prata: uma clara, predominante, e outra mais escura, reproduzindo um texto batido √† m√°quina que serve de fundo √† faixa azul-marinho vazada nas letras de Meus contos preferidos. Logo acima, bem √† esquerda, um negro Antologia; abaixo do t√≠tulo, numa caligrafia singela e ligeiramente inclinada √† esquerda, a assinatura tamb√©m em preto: Lygia Fagundes Telles. A √ļltima frase do texto salta aos olhos, emblem√°tica: "Chegou a hora de fazer a colheita". Mais adiante descobre-se que a reprodu√ß√£o √© justamente o pref√°cio do livro, datilografado pela pr√≥pria Lygia numa pequena e genu√≠na m√°quina de escrever Olivetti (dizem que foi comprada na It√°lia). Combinado ao despojamento elegante, o miolo dispensa a sofistica√ß√£o do papel p√≥len e utiliza o branco tradicional. Tudo limpo, refinado, pl√°cido. Uma tranq√ľilidade que ir√° se esboroar na primeira das trinta e uma hist√≥rias, mas isso o leitor ainda n√£o sabe. Ou talvez saiba de antem√£o, pois trata-se de narrativas j√° conhecidas dessa que √© considerada a grande dama do conto brasileiro, por ela selecionadas a partir de um crit√©rio que, em outras m√£os, poderia redundar em equ√≠voco: "s√£o os contos do meu cora√ß√£o".

O que de original ainda resta a falar sobre a obra de Lygia Fagundes Telles? Ficcionista das mais respeitadas, imortal da Academia Brasileira de Letras, dona de uma produ√ß√£o ininterrupta h√° mais de meio s√©culo, abarcando contos, romances e cr√īnicas que ultrapassam a cifra de vinte livros publicados, traduzida para o alem√£o, espanhol, franc√™s, ingl√™s, italiano, polon√™s, sueco, tcheco e russo, vencedora de pr√™mios importantes, inclusive tr√™s Jabutis da C√Ęmara Brasileira do Livro, adaptada para o cinema, teatro, televis√£o, Lygia firmou-se h√° muito como um talento inquestion√°vel e muito caro √† literatura brasileira. Falar tecnicamente sobre o seu novo livro? O conto foi o g√™nero mais explorado por Lygia desde a estr√©ia em 1938; os textos que participam desta antologia foram todos devidamente estudados e comentados ao longo dos v√°rios anos que os separam. Ou seja, Lygia Fagundes Telles e seus contos prediletos n√£o cabem mais num ensaio cr√≠tico, muito menos numa simples resenha, uma vez que, tomados isoladamente, j√° n√£o constituem novidade. Rel√™-los, agora sob nova ordena√ß√£o, significar√° ao leitor ass√≠duo t√£o-somente comprovar sua excel√™ncia e aos colegas da escrita, aprender com eles como se faz um bom conto.

Mas sempre existir√° um leitor distra√≠do, para quem a obra da escritora ainda seja in√©dita ou dela tenha ele indesculpavelmente se perdido: alcan√ß√°-lo √© o objetivo desta mat√©ria. E para tanto, come√ßar-se-√° dizendo que os contos da paulistana Lygia Fagundes Telles t√™m suas ra√≠zes no melhor da tradi√ß√£o oral brasileira: as hist√≥rias narradas ora por negros escravizados e √≠ndios aculturados, ora por criados, matutos, pe√Ķes, a assim chamada "gente do povo", sempre √†s ordens de uma outra classe mais abastada, a quem diverte e intriga com seus causos calcados no absurdo, no m√°gico, no sobrenatural, mas tamb√©m emociona pela ingenuidade tocante com que vive e interpreta o sofrimento, a incr√≠vel mis√©ria de um mundo que essa casta privilegiada s√≥ conhece de ouvir contar. Ou de assistir, eventualmente, sempre a uma protetora dist√Ęncia.

No caso de Lygia, a profiss√£o do pai - advogado que serviu como delegado de pol√≠cia e promotor p√ļblico em v√°rias cidades do interior paulista - fez com que a fam√≠lia se mudasse com muita freq√ľ√™ncia. Desde os primeiros anos de vida, ela ouvia as hist√≥rias trazidas pelas amas e por outras crian√ßas, para depois, j√° aos nove anos, come√ßar a escrever sua pr√≥pria fic√ß√£o. Muitos dos contos que comp√Ķem a antologia remetem sem d√ļvida alguma a esses relatos, ainda que tratados em contextos diferentes: o caso das estranhas e laboriosas formigas que √† noite montam o esqueleto a partir de uma ossada, a experi√™ncia angustiante do an√£o de jardim √† espera de sua inevit√°vel destrui√ß√£o, um amor mal resolvido que tem seu horripilante desfecho num passeio ao cemit√©rio. O conto Que se chama Solid√£o resgata com fidelidade passagens dessa inf√Ęncia e √© prova mais que irrefut√°vel da origem de alguns dos enredos desenvolvidos por Lygia ao longo dos anos:

"Ch√£o da inf√Ęncia. Algumas lembran√ßas me parecem fixadas nesse ch√£o movedi√ßo, as minhas pajens. Minha m√£e fazendo seus c√°lculos na ponta do l√°pis ou mexendo o tacho de goiabada ou ao piano, tocando suas valsas. E tia Laura, a vi√ļva eterna que foi morar na nossa casa e que repetia que meu pai era um homem inst√°vel. Eu n√£o sabia o que queria dizer inst√°vel mas sabia que ele gostava de fumar charutos e gostava de jogar. A tia um dia explicou, esse tipo de homem n√£o consegue parar muito tempo no mesmo lugar e por isso estava sempre sendo removido de uma cidade para outra como promotor. Ou delegado. Ent√£o minha m√£e fazia os tais c√°lculos de futuro, dava aquele suspiro e ia tocar piano. E depois, arrumar as malas." S√£o duas as pajens referidas: a negra Maricota, que acaba fugindo com o trapezista do "circo do le√£o desdentado", e a branca Leoc√°dia, que perde a vida em decorr√™ncia do aborto por ela mesma provocado e que volta, logo depois de morta, em apari√ß√£o √† narradora. Como se pode constatar, esse conto serviria muito bem ao importante papel de abrir a antologia, tanto o que ele faz revelar sobre a personalidade liter√°ria da escritora, mas foi deixado sem maiores destaques no meio da colet√Ęnea, a demonstrar talvez que, pela √≥tica de Lygia, um prov√°vel relato autobiogr√°fico √© apenas mais uma de suas hist√≥rias.

Complexas e inusitadas rela√ß√Ķes amorosas e familiares, adult√©rio, trai√ß√£o, s√°tira pol√≠tica, conflitos sociais da vida urbana s√£o outros temas visitados e trazidos ao livro. Essa incr√≠vel pluralidade e a harmonia dela resultante refletem, mais que um senso est√©tico h√° muito consolidado - alguns dos contos distam 30 anos ou mais de outros colegas de antologia -, uma cristalina percep√ß√£o do que √© essencial e do que faz a diferen√ßa em se tratando de literatura. E a essencialidade, para a escritora, significa adentrar sorrateira a alma de seus personagens, enquanto os faz transitar pelas situa√ß√Ķes mais esquisitas, e perseguir os meandros, as sutilezas todas de cada aventura. Lygia os espreita assim t√£o intimamente para que possa narr√°-los humanos, intensos, pulsantes de suas v√°rias inquieta√ß√Ķes e desejos. Mesmo os eventuais personagens inumanos merecem igual tratamento. Tal exerc√≠cio completa-se com √™xito dentro dos estritos limites da brevidade exigida ao conto, levando √† conclus√£o de que o olhar arguto de Lygia sabe distinguir os elementos realmente importantes a uma r√°pida e precisa composi√ß√£o de personagem dentro de uma estrutura enxuta.

A construção do discurso é digna de nota e também de reverência. Como um autêntico felino, astucioso e dissimulado no cerco à presa, Lygia começa a narrativa de um ponto escolhido aparentemente ao acaso e numa abordagem que muitas vezes beira o poético. O início de Dolly exemplifica muito bem a estratégia:

"Ela ficou mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo. Olho as luvas t√£o calmas em cima da pequena pilha de cadernos no meu colo, a m√£o esquerda cobrindo a m√£o direita, escondendo o sangue. Dolly, eu digo e estou calada e olhando em frente neste bonde quase vazio. Dolly! Eu repito e sinto aquele aperto no est√īmago mas n√£o tenho mais vontade de puxar a sineta, descer e voltar correndo at√© a casa amarela, queria tanto fazer alguma coisa mas fazer o qu√™?!"

A trama vai surgindo como o tric√ī tecido pela ponta do fio puxada de dentro de um novelo. √Äs vezes, ela se mant√©m estranha, amb√≠gua, mesmo depois de revelada: √© que, ao escarafunchar os sentimentos dos seus personagens, Lygia acaba tamb√©m trazendo √† tona as contradi√ß√Ķes e incoer√™ncias inerentes √† condi√ß√£o humana. Em recente entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, ela pr√≥pria admite que "o ser humano √© incontrol√°vel, indefin√≠vel e inacess√≠vel", e conclui: "Por mais que voc√™ procure se aproximar do ser humano, ele nos escapa. Como a pr√≥pria morte." Nessa busca criteriosa e obstinada, quando a hist√≥ria, o personagem ou ambos "escapam" das m√£os de Lygia √© porque n√£o existe para eles outra solu√ß√£o. Ou seja, faz parte da vida essa desordem que foge √† nossa deficiente compreens√£o: nem tudo √© sempre claramente equacionado e resolvido como gostar√≠amos que fosse.

√Č interessante observar mais atentamente a compara√ß√£o feita por Lygia: o ser humano seria t√£o incontrol√°vel, indefin√≠vel e inacess√≠vel quanto a pr√≥pria morte. Sem d√ļvida alguma, o que a autora espera compreender e revelar sobre os personagens transcende o que ela mesma considera humanamente poss√≠vel. O resultado disso √© a ambig√ľidade, conting√™ncia que se repete v√°rias vezes no decorrer do livro. Por outro lado, talvez a afirma√ß√£o possa tamb√©m explicar a assiduidade sugestiva da morte e dos mortos em quase todas as hist√≥rias.

A linguagem e suas peculiaridades formam um espet√°culo √† parte. Lygia Fagundes Telles escreve com o requinte e a fineza que se espera da grande dama que √©. Isso n√£o quer dizer que ela fuja de temas espinhosos nem que se sinta confort√°vel apenas com amenidades. Muito pelo contr√°rio, Lygia sabe harmonizar como poucos o √°spero conte√ļdo da maioria de suas hist√≥rias com uma delicadeza singular, jamais cedendo uma v√≠rgula que seja para manter o registro elevado e simples de um l√©xico elegante mas em nada afetado, e este √© outro caro atributo de sua obra. Em Uma branca sombra p√°lida, a m√£e que desconfia da homossexualidade da filha e se atormenta com isso fala ao marido j√° falecido sobre acontecimentos que precederam √† morte precoce da garota. Nessas reminisc√™ncias, que comp√Ķem um doloroso acerto de contas com o passado, ela confessa:

"Tarde da noite, passei pelo seu quarto e pela porta entreaberta, vi que ela podava os longos caules das rosas vermelhas que tinham chegado sem cartão. Fiquei olhando a pequena Gina com sua camisolinha curta, os cabelos soltos até os ombros e descalça, ela gostava de andar descalça. Uma criança, pensei, e tive que cerrar as mãos contra o peito, com medo de que ela ouvisse o meu coração."

N√£o h√° nada de ameno nesta trama. Onze p√°ginas s√£o o suficiente para que Lygia ponha num caldeir√£o m√°gico os ingredientes mais conflituosos das rela√ß√Ķes familiares - o preconceito, a perda, o remorso, a culpa - em doses pouco ou nada parcimoniosas, e o resultado, como se pode inferir pela passagem acima, tem a beleza singela e emocionante que s√≥ a verdadeira arte √© capaz de produzir. Exemplos como esse est√£o presentes em todos os contos. Parece que, atrav√©s deles, a delicada e astuta escritora est√° constantemente lembrando ao seu leitor: eu sei o que voc√™ conhece e sente, portanto n√£o √© preciso extrapolar nas cores da pintura para que voc√™ possa compreender exatamente o que eu quero que voc√™ compreenda.

Ao fim e ao cabo, é isso que se pretende dizer aqui. Lygia Fagundes Telles vem há muito plantando e agora se dá ao supremo luxo de usar o coração para fazer a colheita. Caberá ao leitor buscar a mesma ferramenta para percorrê-los com igual e tão sofisticada sabedoria.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de junho/2004


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