Luiz Paulo Faccioli

O testemunho da √°gua

Luiz Paulo Faccioli


Dentre os epis√≥dios que delimitam o come√ßo ou o fim das v√°rias esta√ß√Ķes da vida, existe um especialmente marcante para qualquer pessoa: o momento em que se deixa de ser crian√ßa e se adentra de maneira irrevers√≠vel num territ√≥rio assustador, vago, desconhecido, o assim chamado "mundo adulto". Se quase nunca reconhecemos o fato desencadeador da mudan√ßa no tempo exato em que ele ocorre ¬ó √†s vezes s√£o necess√°rios anos para que se compreenda o seu real significado, noutras √© preciso que um segundo fato se contraponha para dar ao primeiro a sua correta dimens√£o ¬ó, √© indiscut√≠vel que essa travessia jamais acontece de forma indolor, caso contr√°rio n√£o seria completa: o sofrimento sempre cobra sua parte na transforma√ß√£o do ser humano.

"Nada pode ser t√£o banal, mas n√£o √© bem disso que estamos falando". Uma √ļnica e singela frase, justamente a que abre Longe da √°gua, terceiro livro do porto-alegrense Michel Laub e sua segunda incurs√£o pela narrativa longa, resume de maneira precisa o que leitor ter√° pela frente: se a passagem para a vida adulta √© de fato uma experi√™ncia banal, uma vez que ningu√©m estar√° isento de prov√°-la, Laub se encarrega de construir para o seu narrador-protagonista uma transi√ß√£o peculiar, calcada em duas trag√©dias que encontram uma correla√ß√£o exc√™ntrica, mas muito bem resolvida no plano ficcional.

Formado em direito e jornalismo, Michel Laub debutou na literatura aos 25 anos com a colet√Ęnea de contos N√£o depois do que aconteceu, publicada pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul em 1998, mesmo ano em que ele se transferiu de Porto Alegre para S√£o Paulo, assumindo a editoria de livros e cinema na revista Bravo!, da qual √© hoje o editor-chefe. Em 2001 lan√ßou a novela M√ļsica anterior pela Companhia das Letras, que mereceu o pr√™mio Erico Verissimo da Uni√£o Brasileira de Escritores na categoria Revela√ß√£o. Leg√≠timo representante da nov√≠ssima safra de ficcionistas brasileiros, Laub alinha-se com aqueles que guardam dist√Ęncia do hiper-realismo, privilegiando uma escrita s√≥bria que n√£o faz concess√Ķes ao coloquialismo excessivo, √† linguagem chula e √† escatologia ¬ó elementos t√£o em voga que j√° se pode falar em corrente ¬ó, mas ainda em sintonia perfeita com o ide√°rio contempor√Ęneo. Tanto o livro de contos quanto as duas novelas n√£o se aventuram muito al√©m das 100 p√°ginas; s√£o textos curtos, fortes porque concisos, trabalhados √† exaust√£o para que se restrinjam ao essencial. Modernos enfim, ainda que Laub se mantenha longe do experimentalismo: a palavra fala mais alto do que qualquer idiossincrasia.

Longe da √°gua, outra elegante edi√ß√£o da Companhia das Letras ¬ó destaque para a bela capa de Raul Loureiro sobre o fragmento de uma foto assinada pelo alem√£o Wolfgang Tillmans ¬ó, conta a trajet√≥ria de um rapaz sem nome, desde Porto Alegre, onde vive a inf√Ęncia e a adolesc√™ncia, passando as f√©rias de ver√£o no litoral ga√ļcho, como √© h√°bito entre a classe m√©dia porto-alegrense, at√© a chegada e o come√ßo da vida profissional em S√£o Paulo. Ele tem um "melhor amigo", Jaime, surfista extrovertido e namorador, no qual se espelha para vencer a timidez e a inseguran√ßa comuns da juventude. Jaime namora Laura, com quem o narrador acabar√° se envolvendo depois que o amigo morre num acidente no mar. A descoberta do sexo e as primeiras experi√™ncias amorosas fogem da banalidade expressa na abertura da novela pela sutileza com que s√£o tratadas. Como j√° era esperado, Laub n√£o cede ao apelo f√°cil de escancarar detalhes sobre sexo; ao contr√°rio, o in√≠cio da vida sexual do protagonista an√īnimo √© narrado com espantosa conten√ß√£o, o que exige uma participa√ß√£o maior (e melhor) do leitor para completar as lacunas todas que o autor deixa propositadamente em aberto. Aqui encontramos uma caracter√≠stica fundamental do estilo de Laub: o leitor √© sempre convidado a participar, ora pela ambig√ľidade intencional do discurso, ora pelo subtexto tramado com per√≠cia ¬ó reflexo √≥bvio da pr√°tica do conto ¬ó, tamb√©m pelo fato de o narrador muitas vezes conversar diretamente com ele, e de uma forma muito mais freq√ľente e expl√≠cita que a deixada na heran√ßa machadiana:

"Dentro da casinha era viscoso, voc√™ est√° imerso na maresia, e √© curioso porque quando crian√ßa √© dif√≠cil entrar num lugar assim. Quando crian√ßa voc√™ n√£o sabe o que pode haver nesse lugar, voc√™ nem est√° t√£o certo de que √© imposs√≠vel um desconhecido esper√°-lo ali, encostado na parede, as m√£os fora dos bolsos, s√≥ que Laura era um pouco mais velha: ela j√° sentara na madeira √ļmida, e ao seu lado havia um menino chamado Jaime. Voc√™ alguma vez ouviu falar de Jaime? Voc√™ sabe do que um menino um pouco mais velho √© capaz?"

A ep√≠grafe do livro ¬ó "Agora vai e busca √°gua e lava este testemunho imundo de suas m√£os" ¬ó, tirada de uma fala de Lady Macbeth, aponta para outro vi√©s importante: o "testemunho imundo" de Shakespeare √© mais que uma chave, sen√£o a s√≠ntese perfeita do grande conflito em torno do qual Laub monta sua trama. Se a tr√°gica morte do amigo tem de fato o poder de cortar os √ļltimos v√≠nculos do narrador com a inf√Ęncia, n√£o ser√° apenas por ele ter presenciado o acidente: a culpa torna-se ingrediente fundamental, a imund√≠cie, algo s√≥ definitivamente confessado no √ļltimo cap√≠tulo, logo depois que a segunda trag√©dia vem √† tona (e que se contrap√Ķe √† anterior justamente para que o protagonista alcance o seu exato significado). A trai√ß√£o sui generis √© insinuada pelo ex√≥tico tri√Ęngulo que o narrador comp√Ķe com o amigo j√° morto e sua namorada. E o final acaba remetendo ao come√ßo: o leitor, que j√° desconfiava de alguma coisa nessa dire√ß√£o, vai descobrir enfim sobre o que se esteve realmente falando desde a primeira e enigm√°tica frase.

Longe da √Āgua explora a trag√©dia numa dimens√£o essencialmente humana. Apesar do cen√°rio de sol, praia, pranchas de surfe e da adolesc√™ncia retratada em boa parte da hist√≥ria, o drama tem o car√°ter universal que o faz transcender √† sua √©poca e ao seu protagonista. Este visita a inf√Ęncia e a juventude j√° com olhar maduro, n√£o numa perspectiva que venha amadurecendo no decorrer do tempo. Laub n√£o se permite ter este tempo. Prefere investir a volunt√°ria escassez retornando v√°rias vezes √†s principais cenas para mostr√°-las sob diferentes √Ęngulos. Belo exemplo √© o da cena do acidente com Jaime, √† qual Laub recorre com insist√™ncia, sempre agregando a ela um novo significado. Mesmo assim, nada nunca √© completamente √†s claras, mas insinuado, amb√≠guo, restando ao leitor uma sensa√ß√£o, nunca uma definitiva certeza, de ter compreendido o que foi dito. Os poucos personagens, assim como o discurso, s√£o constru√≠dos com economia de cores, sem filigranas, restritos √†s caracter√≠sticas que sejam absolutamente imprescind√≠veis para a arquitetura da trama. Nada √© gratuito, nada √© arrebatado, muito menos caudaloso. Laub pesa cada detalhe para que as descri√ß√Ķes sejam breves e n√£o menos inspiradas:

"Albatroz √© uma vila com cal√ßamento de p√©-de-moleque, com aluguel de charrete e doce de leite feito pela dona da padaria. Nada de diferente do resto do litoral ga√ļcho, a mesma linha reta e cont√≠nua para quem √© rico ou pobre: sempre chega a hora das cigarras, da chuva que acaba n√£o vindo, do cheiro de grama cortada numa nuvem de pregui√ßa e enj√īo."

Contra todas as possíveis evidências geográficas e etárias, Longe da água não se trata de um relato autobiográfico, exceto pelo que traz, como qualquer outra peça ficcional, das experiências vividas pelo autor.

No que diz respeito √† linguagem, s√£o necess√°rias duas ligeiras ressalvas: √†s vezes ¬ó poucas, √© bem verdade ¬ó o leitor se surpreende ao encontrar algum deslize contra a eufonia de um discurso composto, como j√° se disse, com not√°vel esmero. √Č o caso de "Jaime j√°", na frase final do cap√≠tulo 5, cac√≥fato incompat√≠vel com o bom gosto dominante. Ao perceber o cochilo, √© natural que o leitor se pergunte por que Laub batizou de "Jaime" seu personagem, nome que requer sempre a redobrada aten√ß√£o do escritor na hora de empreg√°-lo para que ele n√£o se estranhe com os vizinhos de frase. "Por causa dele li" √© um segundo e derradeiro exemplo. Existem outros ¬ó sem eles n√£o se justificaria a observa√ß√£o ¬ó, que igualmente inspiram cuidados, mas que poder√£o ser revistos para as edi√ß√Ķes futuras. Outro sen√£o √© a tend√™ncia de Laub de enfatizar palavras utilizando a grafia em it√°lico. Tal recurso √© v√°lido e precioso, mas, num texto de corte tradicional, deve ser usado com extrema parcim√īnia para que n√£o se banalize e acabe perdendo, na repeti√ß√£o, o efeito desejado. Como tamb√©m j√° se falou anteriormente, o discurso de Laub, ao dispensar experimentalismos e pirotecnias, aposta na for√ßa intr√≠nseca das palavras, e o uso recorrente da ferramenta leva o leitor a pensar que o escritor vacila algumas vezes nessa convic√ß√£o.

Problemas min√ļsculos, repita-se, quando comparados aos tantos e grandes desafios transpostos por Michel Laub para arquitetar uma obra importante, que figura desde j√° entre os bons lan√ßamentos do ano.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de maio/2004


Cadastre-se no portal Escrita Criativa para receber dicas de escrita, artigos e informações de concursos

 

 

Comentários:

Envie seu comentário

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação:
Repita os caracteres "064604" no campo.