Luiz Paulo Faccioli

Fazia-nos falta

Luiz Paulo Faccioli


A literatura √© sempre uma caixinha de surpresas: basta que sobre ela se forme uma convic√ß√£o para que logo surja o exemplo a coloc√°-la em xeque, e justamente a√≠ est√° toda a gra√ßa. Se a constru√ß√£o de uma certeza requer anos, √†s vezes s√©culos de experi√™ncia, o desmonte √© s√ļbito. Fala-se aqui de certezas em qualquer grada√ß√£o de magnitude, desde as regras mais elementares do of√≠cio √†s quest√Ķes filos√≥ficas de autoria, alteridade e afins. O grande desafio dos diversos escritores sempre foi o de criar esses rompimentos, preservados a aten√ß√£o para com o leitor e o respeito √† qualidade liter√°ria. Dif√≠cil exerc√≠cio, por isso t√£o raras as subvers√Ķes bem-sucedidas. Mais f√°cil √© ficar perseguindo o que a experi√™ncia j√° consagrou, at√© que apare√ßa um inconformado que se arrisque a demonstrar como se pode fazer diferente. A partir da√≠, tudo muda; depois de se conhecer uma novidade, torna-se imposs√≠vel ignor√°-la para seguir fazendo como sempre se fez e sempre funcionou t√£o bem.

O Brasil j√° produziu talentos inovadores, alguns reconhecidos entre os grandes da literatura universal, como Machado e Rosa, para ficarmos na obviedade, outros, n√£o por falta de m√©ritos, ainda restritos ao √Ęmbito nacional. Entretanto, com raras exce√ß√Ķes e por menos que o leitor espere em termos de transgress√£o, h√° de se convir que a literatura brasileira da atualidade estacionou num patamar bastante conservador, onde poucos t√™m-se aventurado a uma tentativa de supera√ß√£o condigna.

Neste contexto, é mais do que bem-vinda a aterrissagem em solo brasileiro da portuguesa Inês Pedrosa, a bordo de um instigante Fazes-me falta (Editora Planeta, 2003), romance que já vendeu mais de 60 mil exemplares em sua terra natal. Diante de tal cifra, a edição no Brasil pela recém-chegada Editora Planeta é tímida embora luxuosa: 3.000, impressos em papel pólen e vestidos por uma capa dura, condizente com a presunção da perenidade - justa, pois de fato trata-se de um livro que aportou para fazer carreira.

Um c√Ęnone em literatura diz que na robustez de dois pilares - hist√≥ria (conflito) e linguagem - est√° a sustenta√ß√£o de um romance. Pois bem, a maior virtude de In√™s Pedrosa √© que ela se disp√Ķe a desafi√°-lo. E o faz com serenidade e bom gosto.

Mesmo que n√£o se possa negar a exist√™ncia de uma hist√≥ria em Fazes-me falta, ela vem t√£o esfarelada que v√°rias vezes escapa do leitor, exigindo uma profunda aten√ß√£o no exerc√≠cio de guardar todos os seus pedacinhos para que se possa ter ao fim um conjunto que fa√ßa um m√≠nimo de sentido. A fragmenta√ß√£o √© resultado de uma trama constru√≠da no di√°logo constante e apaixonado que inicia a mulher j√° morta com o homem que permanece vivo. Muit√≠ssimo aos poucos vai-se descobrindo que a mulher foi professora universit√°ria de Hist√≥ria, feminista de capa e espada, e acabou enveredando pela pol√≠tica. O homem, por sua vez, tem um temperamento oposto, al√©m de vinte anos mais velho. O relacionamento come√ßou quando ele, j√° adentrado na casa dos cinq√ľenta, resolveu voltar √† faculdade na tentativa de compreender as guerras coloniais portuguesas na √Āfrica. A morte prematura dela desencadeia um fluxo de reminisc√™ncias de ambos os lados sobre um amor que nunca se concretizou no plano carnal, mas forte o suficiente para romper a impossibilidade decretada pela extravagante viuvez de um deles.

A interação improvável desses dois mundos tendo o amor como elo é uma idéia que não se pode considerar nova em qualquer das artes, menos ainda em literatura. Pode-se afirmar então, com toda a segurança, que não é a história o ponto forte da obra; poder-se-ia inferir, inclusive, que a aposta numa estrutura assim frágil para uma trama tão pouco original redundaria certamente em naufrágio. Engano.

Fazes-me falta comp√Ķe-se de cinq√ľenta pequenos cap√≠tulos duplos, primeiro falando a mulher, depois, o homem, a altern√Ęncia marcada pelo emprego de duas fontes distintas na impress√£o. A autora quis que se mantivesse a grafia portuguesa na edi√ß√£o brasileira, o que n√£o acarreta nenhum problema adicional ao nosso leitor. Ao contr√°rio, foi uma decis√£o acertada √† medida que auxilia na originalidade do discurso.

Mas o que realmente In√™s Pedrosa nos traz de novo do al√©m-mar √© uma for√ßa narrativa ainda in√©dita por estes lados. Que se conhe√ßa, ningu√©m aqui escreve como ela. Al√©m do indescrit√≠vel prazer que ter√° o leitor em saborear um texto concebido como se fosse renda de bilro, belo, reflexivo, rico em figuras e outras sutilezas estil√≠sticas, a obra √© testemunho do que pode render o investimento bem-feito na linguagem. Pode-se creditar o ineditismo no Brasil de tal concep√ß√£o, com propriedade, √†s grandes diferen√ßas culturais que hoje nos separam dos co-irm√£os portugueses. A literatura que se faz do outro lado do oceano foi firmemente alicer√ßada na boa tradi√ß√£o do Velho Mundo muito antes que o vendaval da banaliza√ß√£o varresse √† vala comum grande parte da produ√ß√£o liter√°ria contempor√Ęnea. N√£o que a Europa tenha-se mantido imune ao soprar desses ventos: ser europeu n√£o implica necessariamente ter alma transgressora, pelo menos no que diz respeito √† literatura. Mas v√°rios s√©culos de hist√≥ria al√©m do que tem a nossa pesam bastante, propiciando, estimulando e acabando por referendar a ousadia.

Em Fazes-me falta, ousado é o arrebatamento elegante de uma prosa que anda despudoradamente próxima à poesia de inclinação elegíaca. Ousada, a carga emocional tão intensa que deixa o discurso sempre por um triz do desando. Já no primeiro capítulo, ao dar voz ao homem, a autora anuncia o tom do que está por vir: "Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. (...) Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas."

Por fim, a maior ousadia de In√™s Pedrosa, num mundo tamb√©m j√° contaminado pela necessidade contempor√Ęnea de ser veloz, √© o exerc√≠cio da lentid√£o. Ela n√£o tem pressa nem economiza para dizer o que √© preciso, levando o tempo que julga ser preciso, e nesse aspecto emparelha-se a nossa Clarice. Num vagar estudado - convite permanente √† reflex√£o -, os personagens, especialmente os protagonistas, v√£o ganhando uma excepcional solidez. Al√©m disso, tal andamento propicia a cria√ß√£o de frases lapidares que se sustentam mesmo quando apartadas do contexto original. A mulher, crente da exist√™ncia divina, abre o romance de forma soberba: "N√£o basta morrer para conhecer o sorriso de Deus - mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira". O homem, ateu, contrap√Ķe em outro momento: "A culpa √© o que sobra dos enterros - o verdadeiro rosto dos mortos, aquele que alastra, invadindo-nos. Deus √© uma conspira√ß√£o de mortos contra a amn√©sia dos vivos." Antes, √© ela quem anuncia: "A morte √© um segredo bem guardado, o √ļnico de cujos direitos de autor Ele n√£o prescindiu". E o homem: "√Č isto o frio: a car√≠cia dos mortos que muito - e quase sempre mal - amamos. N√£o se consegue amar completamente sen√£o na mem√≥ria".

Em outra passagem, Inês Pedrosa consegue a síntese perfeita do romance: "Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência".

Parafraseando a jornalista Cl√°udia Laitano, em recente cr√īnica no jornal Zero Hora, Fazes-me falta √© um livro para se ler de l√°pis em punho, pois √© inevit√°vel que se queira sublinhar muitas de suas belas frases.

Apesar de ter as características de uma concepção literária de talhe clássico, Fazes-me falta traz com ele um benfazejo ar de novidade. Não será necessário ao leitor chegar ao fim do volume para reconhecer que, de fato, Inês Pedrosa nos fazia uma enorme falta.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de outubro/2003


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