Luiz Paulo Faccioli

Eleg√Ęncia desatinada

Luiz Paulo Faccioli


Enquanto alguns autores teimam em ignorar a simplicidade perfeita da m√°xima √† que j√° se renderam os melhores - o bom conto nada mais √© do que uma hist√≥ria bem contada -, outros descobrem que contista habilidoso tamb√©m √© o que pega o leitor pela m√£o e o leva a conhecer situa√ß√Ķes inusitadas, encantando-o com a novidade, mesmo que a hist√≥ria n√£o fa√ßa l√° muito sentido. Descobrem, noutras palavras, que a hist√≥ria em si n√£o tem a mesma relev√Ęncia da forma buscada para narr√°-la. Aqui encontramos Leonardo Brasiliense em seu Des(a)tino (Editora Sulina, 2002).

Segunda obra ficcional do ga√ļcho de S√£o Gabriel, nela Brasiliense amplia a est√©tica j√° anunciada nos contos e minicontos de Meu sonho acaba tarde, de 2000, narrando uma mescla de realidade e onirismo com a letra firme de quem sabe polir o discurso at√© chegar ao essencial. E o essencial, nesse caso, √© um universo esquisit√≠ssimo.

Apesar do texto elegante e do apuro nas constru√ß√Ķes, n√£o √© uma leitura f√°cil. O leitor embarca num texto claro e simples: "Vinha pela cal√ßada quando, sem querer, tropecei numa vassoura e bati a cabe√ßa na borda de uma lata de lixo. (...) me desacordei. Juntou-se at√© a infal√≠vel plat√©ia, absorta na quebra de sua vida cotidiana e sem gra√ßa. Levantei (...) e logo percebi que minha exist√™ncia toda estava mudada." Com a queda, o narrador de Os nomes - primeiro de um conjunto de seis - descobre ter adquirido a inexplic√°vel capacidade de modificar a exist√™ncia ao seu bel-prazer. A partir da√≠, tudo se complica. O que, a princ√≠pio, nos remeteu ao Sul, logo se transfigura num sum√°rio da inten√ß√£o do autor: enquanto o realismo cria um universo veross√≠mil a partir do ins√≥lito e nele constr√≥i a narrativa, Brasiliense se prop√Ķe a causar desconcerto fazendo cruzar insistentemente os fluxos de um real e de um imagin√°rio, de tal sorte que o leitor desaprende r√°pido a distinguir onde acaba um, onde come√ßa o outro. "(...) a concretude me enfastiara h√° muito, o que nunca falta √© a cena de algu√©m a trope√ßar numa vassoura e bater a cabe√ßa, porque, sem isso, tudo acaba, fico preso a um existir, e morro", segue o narrador, cantando a letra do que ainda est√° por vir.

Brasiliense maneja com seguran√ßa aquilo que Valesca de Assis define, na apresenta√ß√£o do volume, como o "reverso das coisas" ou "uma escritura urdida ao avesso". Enquanto isso, os dois melhores contos, Os funcion√°rios de seu Merc√™s e Jo√£o Jil√≥, her√≥i de ningu√©m, v√£o realizando, enfim, o que sempre se espera de uma boa hist√≥ria: o desfecho surpreendente vem p√īr ordem no caos e explicar toda a estranheza que insistiu em fustigar o leitor por p√°ginas a fora.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de novembro/2002


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