Luiz Paulo Faccioli

O fim: bom começo

Luiz Paulo Faccioli


"E antes que me perguntem, vou logo avisando: tudo isso aconteceu comigo e nada disso aconteceu comigo. E se ainda lhes restar alguma d√ļvida, lembro que: `existem apenas duas ou tr√™s hist√≥rias humanas, e elas v√£o-se repetindo sem parar, teimosas, como se nunca tivessem acontecido antes` ". Poucas vezes uma ep√≠grafe conseguiu casar t√£o bem com o texto ao qual serve de mote. Nesse caso, a cita√ß√£o √© de Willa Cather e o casamento acontece em Um deus dentro dele, um diabo dentro de mim (Record, 2003), estr√©ia de Nilza Rezende na prosa longa - a carioca de 43 anos j√° assinou dois livros infantis, al√©m de ter experi√™ncias no cinema e na dramaturgia. Tamb√©m raras vezes se assiste a um debut t√£o vigoroso.

Nilza desafia qualquer bom senso, notadamente o que deve preocupar ainda mais um estreante, e vale-se do grande clich√™: a esposa amant√≠ssima, subjugada e depreciada pelo homem que ama incondicionalmente, descobre a trai√ß√£o da qual √© v√≠tima e conhece ent√£o uma crise existencial sem preced√™ncia numa vida de conforto, filhos e compras. Quanto j√° se ouviu essa hist√≥ria? Da est√©tica da fossa anos 70 √† eterna novela das oito, o tema foi batido e rebatido ad nauseam. Ao concluir a leitura de Um deus..., o leitor v√™-se instado a brindar a duas constata√ß√Ķes. Primeira: em literatura, de fato, n√£o importa tanto o que se diz, mas como se diz. Segunda: trata-se de um belo texto.

Resta agora o exercício de buscar o que faz a diferença.

A primeira resposta vem na j√° aludida ep√≠grafe. N√£o s√£o mesmo tantas as hist√≥rias "humanas". "Duas ou tr√™s" parece um reducionismo exagerado; talvez uma dezena, ou pouco mais, d√™ conta de todo o rol de possibilidades. Um tri√Ęngulo nunca faz feio, se bem explorado. Mas a √™nfase de Nilza n√£o est√° nessa conseq√ľ√™ncia da trai√ß√£o. A protagonista - chamada "coadjuvante" pela narradora - quer antes gritar seu drama pessoal e n√£o se ocupa da "outra", mero detalhe na constru√ß√£o da hist√≥ria. Ela quer, isso sim, metabolizar o sofrimento; quer compreender raz√Ķes por estar ainda presa a uma uni√£o delet√©ria; quer, em suma, exorcizar fantasias e recuperar a dignidade perdida nos dez anos de matrim√īnio com o coadjuvante - considerado "protagonista" -, rec√©m-postos em cheque. Como se v√™, s√£o apostas de alto risco em se tratando da literatura. Ao assumir o chav√£o na origem da narrativa, a autora vence estrategicamente o primeiro obst√°culo √† originalidade da obra e afasta do leitor a sensa√ß√£o de d√©j√† vu; a partir da√≠, ela se mant√©m fresca e at√© certo grau inusitada.

Vem desde a ep√≠grafe outra preocupa√ß√£o. Nilza Rezende utiliza o mon√≥logo interior travestido de narrador em terceira pessoa, o que propicia uma constante altern√Ęncia entre realidade e fic√ß√£o, ambas - imagina-se - realizadas no plano puramente ficcional. E √© t√£o real o discurso, t√£o profundamente humano, que n√£o se tem como duvidar e n√£o credit√°-lo a uma experi√™ncia de fato vivida. Quando atinge esse n√≠vel, a fic√ß√£o ter√° cumprido com seu maior desafio. N√£o satisfeita, √† medida que a narrativa se aproxima do final, Nilza recorre √† primeira pessoa para um grande v√īo confessional - e do qual a novela poderia prescindir, sem nenhum preju√≠zo, caso a autora tivesse preferido respeitar um dos ensinamentos mais sagrados √† literatura: o melhor √†s vezes est√° n√£o naquilo que √© dito, mas no que fica apenas insinuado. Esse momento talvez responda pelo √ļnico sen√£o da obra.

Nilza tem dom√≠nio total do bom texto. O ritmo √© de uma agilidade √≠mpar, um disparo incessante de metralhadora atingindo em cheio a consci√™ncia do leitor. O erotismo em dose farta e bem-feito, n√£o cedendo espa√ßo a apela√ß√Ķes ou descontroles, deixa prevalecer a catarse da narradora, esta sim ungida de total despudor na purga√ß√£o do sofrimento √≠ntimo.

Driblando os lugares-comuns inerentes à trama - mulher de executivo, shoppings, relógios, canetas Mont Blanc e assemelhados -, Nilza Rezende constrói pelo menos uma metáfora e uma cena dignas de obrigatória referência.

A metáfora: "Seu pensamento, já disse, era um nó, um nó tão fechado, que tudo que ela via era uma tela preta. No meio da tela tinha uma imagem. Ela não conseguia ver mais nada. Não conseguia ver o dia, a casa, os filhos, a cozinha, a árvore, o shopping. Ela não via nada, ela só via a tela e, no meio da tela, aquela imagem, ora imensa, ora só um ponto, um pontinho, fragmento de imagem. Mas estava lá, no fundo que fosse, estava lá". Obviamente essa imagem é a do instante em que a narradora assiste à traição do marido. Ela contém a chave que desencadeia a narrativa e à qual a autora recorre várias vezes na primeira parte do livro. Trata-se de um achado em sua eficaz simplicidade.

A cena: √† cata de provas concretas da trai√ß√£o, pois ainda n√£o consegue acreditar no pr√≥prio testemunho, a narradora vasculha o cesto de roupas sujas a cheirar as cuecas brancas usadas pelo marido. √Č uma situa√ß√£o plenamente veross√≠mil quando protagonizada por um ser ferido de morte em seu orgulho; a novidade est√° na confiss√£o cruenta que faz a narradora e da qual √© dif√≠cil ao leitor escapar ileso. A for√ßa do texto est√° justamente nesse abrir corajoso das comportas: Nilza entrega ao mundo o que a protagonista-coadjuvante possui de mais √≠ntimo, sem constrangimentos, num jorro incontido que arrasta impiedosamente o leitor, transformado em voyeur involunt√°rio do espet√°culo.

Também pede atenção a estrutura formal da novela. Nilza Rezende não a divide em capítulos, tampouco as frases são agrupadas em parágrafos convencionais. O texto é disposto em vários blocos compactos onde os diálogos entram e saem sem nenhuma indicação, amalgamados ao fluxo natural da narrativa. Parece um simples detalhe, mas a opção reforça tanto a densidade do texto quanto seu movimento circular em torno do eixo comandante. Há blocos de diferentes tamanhos, todos eles desenhados a partir dum mesmo ponto, como na metáfora da qual se falou há pouco e remetendo mais uma vez à epígrafe - "elas vão-se repetindo sem parar, teimosas, como se nunca tivessem acontecido antes".

Mais que apenas bons aug√ļrios, o esfor√ßo e a compet√™ncia de Nilza Rezende ao escrever t√£o particular e intensamente o que, na apresenta√ß√£o do livro, Affonso Romano de Sant`Anna chama de "desmontagem de um casamento" levam a crer que ela chegou para marcar v√°rios outros tentos a favor da boa literatura. Narrando o fim, j√° conseguiu um belo come√ßo.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de abril/2003


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