Luiz Paulo Faccioli

O umbigo do mundo

Luiz Paulo Faccioli


A quem interessa conhecer a literatura do paranaense Miguel Sanches Neto, autor do romance Chove sobre minha inf√Ęncia, publicado em 2000, e cr√≠tico liter√°rio dos mais requisitados, H√≥spede secreto (Record, 2003) vem bem a calhar. O grande vencedor do Cruz e Sousa 2002, um dos mais importantes certames brasileiros, teve o privil√©gio de ser avaliado e referendado por um time de peso: Carlos Heitor Cony, Flora S√ľssekind, √ćtalo Moriconi, Luiz Vilela e Moacyr Scliar. Eram sete contos no livro original, que chegou a ser publicado pela FC Edi√ß√Ķes em 2002, embrulhados como presente numa sugestiva capa cor de laranja. Na edi√ß√£o pela Record, o livro ganhou agora outros seis contos, estalando de novos, e um inv√≥lucro ainda mais caprichado. Tudo leva a crer que a expectativa n√£o se frustrar√°.

J√° no primeiro conto, colhe-se a primeira grata impress√£o: o autor conhece o g√™nero a que se prop√Ķe. Parece uma afirma√ß√£o tola, levando-se em conta o curr√≠culo de Miguel Sanches Neto - doutor em Literatura -, mas a academia por si s√≥ n√£o garante o bom desempenho nas lides da escrita. Ao contr√°rio, o conhecimento te√≥rico, levado √†s √ļltimas conseq√ľ√™ncias no estudo da obra alheia, pode tornar-se um empecilho √† liberdade na cria√ß√£o da pr√≥pria obra. Conhecer literatura √© uma coisa; escrever fic√ß√£o, outros quinhentos; domar a dificuldade do conto, assunto para meia d√ļzia. O autor pertence a esse √ļltimo e seleto grupo.

O conto √© o territ√≥rio da min√ļcia, do ardil, mas tamb√©m da parcim√īnia. Sanches Neto sabe explorar bem o que essa caracter√≠stica tem em comum com o pr√≥prio estilo: a frase enxuta, de pouca adjetiva√ß√£o, o l√©xico quase coloquial, nem por isso menos trabalhado. Sente-se o suor e o cinzel.

O herdeiro traz a hist√≥ria do filho que volta √† cidade natal para enterrar o pai. O tema, j√° muito bem explorado pelas v√°rias artes, ainda rende. Na concep√ß√£o de Sanches Neto, vem num timing preciso, onde nada falta, nada sobra. A estranheza √© constru√≠da aos poucos, na altern√Ęncia das recorda√ß√Ķes do filho-narrador com o que ele vai descobrindo desde a chegada. "Tudo t√£o conhecido e desconhecido. Por isso eu caminhava lentamente, tentando me acostumar." Eis a chave, dada no segundo par√°grafo. A partir da√≠, o leitor acompanha passo a passo a aventura, solid√°rio com um narrador tamb√©m confuso diante das novidades, e o desfecho tem a compet√™ncia de preencher as lacunas todas e ainda pedir para que o leitor reflita. Escrever √© um exerc√≠cio de reflex√£o; quando bem realizado, um exerc√≠cio de reflex√£o que leva a outro, e essa √© a fun√ß√£o mais sublime da literatura. O herdeiro √© um conto cl√°ssico, na melhor das acep√ß√Ķes, denso, forte, circular, estranho, surpreendente. Bom come√ßo. N√£o √© sempre que se encontra o c√Ęnone em harmoniosa conviv√™ncia com o cheiro da tinta fresca.

Caça às lagartas. Aqui o ex-seminarista, contratado para dar cabo das larvas que costumam atormentar uma família, se vê às voltas com a esquisitice da tarefa e com o interesse que desperta na filha adolescente do patrão. Outro causo de inquietude e descoberta, nos tons fortes de um realismo que retorna, aparentemente com vigor, às nossas letras. Bela metáfora, além de funcionar como leitmotiv de uma boa história.

Quando a porta se abre e Cabeleira, ambos curtos, dotados de sens√≠vel inventividade, talvez os melhores da colet√Ęnea. No primeiro, o narrador vai compondo a trama a partir do pouco que lhe revela a mulher sobre um epis√≥dio triste da inf√Ęncia e que visita hoje os pesadelos dela, cada vez mais freq√ľentes e perturbadores. √Č um conto de alma f√™mea, de uma delicadeza que chega a contrastar com o acento m√°sculo da maioria dos demais. Cabeleira tamb√©m bebeu dessa fonte. Outra hist√≥ria de meninice, simples, inusitada, culminando num desfecho do√≠do e belo, daqueles que s√≥ a grande literatura consegue produzir. "Meu pai, ainda chorando, me disse v√° e corte o cabelo. Tentei ficar com ele mais algum tempo, embora continuasse repetindo v√° e corte o cabelo." Durante toda a noite, o pai insiste no bord√£o de mandar o filho se livrar da longa e loira cabeleira, enquanto o quebra-cabe√ßa vai sendo montado. E toda a tristeza do quadro des√°gua no √ļltimo par√°grafo: "Foi ent√£o que, me vendo de cabelo curto, meu pai me abra√ßou e me beijou, dizendo que bom que voc√™ veio. E, sentados diante do caix√£o, ficamos olhando para mam√£e, tamb√©m ela sem seus lindos cabelos, ca√≠dos depois do tratamento."

As hist√≥rias s√£o todas de resgate ou de tentativas. O universo ficcional de Sanches Neto converge para a cidade de Pearibu, interior do Paran√°, miolo territorial e afetivo de seu discurso. "O ch√£o estava seco, os passos despertavam um volume de poeira inacredit√°vel, as √°rvores derrubavam suas milhares de folhas mortas que, ao serem pisadas, faziam o barulho de min√ļsculos ossos sendo quebrados". Este excerto de O bom filho aponta para as palavras-chave da est√©tica do autor: aridez, poeira, solid√£o, busca, retorno. As sensa√ß√Ķes que brotam de pequenas mas doloridas alfinetadas - fraturas de min√ļsculos ossos - s√≥ fazem algum sentido naquele mundo, portanto √© inevit√°vel a recorr√™ncia.

A tentativa de aprofundar na descri√ß√£o desse umbigo acaba trazendo algum percal√ßo para o leitor. √Č o caso do j√° citado O bom filho. A hist√≥ria tem um come√ßo de arrepiar a mais insens√≠vel das criaturas: a m√£e que expira nos bra√ßos do filho. "Durante alguns segundos, deixei-me ficar castamente sobre seu seio murcho, o mesmo que me amamentou. Esqueci que ela estava morta, embalado por seu calor, um calor do qual nunca desfrutei. S√≥ me restavam aqueles √ļltimos minutos antes de seu corpo adquirir a frieza de cad√°ver e eu n√£o perderia aquela quentura. Pela primeira vez na vida, desde que me lembro, aproximei-me de seu rosto e o beijei." O efeito √© poderoso, e o autor consegue mant√™-lo por um bom tempo, passando pela tomada de provid√™ncias para o enterro e pelo vel√≥rio, enquanto faz surgir a hist√≥ria daquelas rela√ß√Ķes familiares. Seguem-se v√°rios par√°grafos a descrever o que acontece ap√≥s o desenlace, os afazeres no dia-a-dia da fazenda, o narrador de volta √† secura pragm√°tica de sua vida. O desvio obriga o leitor a parar e tentar descobrir qual √© mesmo a hist√≥ria que est√° sendo contada. Uma distra√ß√£o imperdo√°vel, considerando-se o g√™nero. √Č claro que Sanches Neto n√£o d√° ponto sem n√≥ e retoma o fluxo narrativo com compet√™ncia, construindo um final majestoso. Ali√°s, uma das maiores virtudes do autor √© o arremate sempre primoroso de suas hist√≥rias.

Outro momento que inspira cuidados est√° no conto que d√° t√≠tulo ao livro. Trata-se da interiorana que tem um galo como bicho de estima√ß√£o em plena Curitiba, infernizando a vida dos seus vizinhos de pr√©dio. A compra do animal foi conseq√ľ√™ncia irrefletida de um desejo latente de retornar √† casa e aos h√°bitos da inf√Ęncia, e a jovem se v√™ obrigada a perip√©cias mirabolantes para acobertar seu h√≥spede. Quando a separa√ß√£o torna-se inevit√°vel, ela leva Rodolfo para morar em Pearibu. Bel√≠ssima passagem √© a mo√ßa recomendando o amigo ao irm√£o: "Amanh√£ vou embora, mas prometo voltar com mais tempo. Voc√™ s√≥ cuide bem do galo. Agora ele n√£o √© mais Rod√ī, apenas o galo. Substantivo comum." Ocorre que Sanches Neto ingressa num terreno perigos√≠ssimo, o da apologia dos bons valores do campo, e acaba maculando, com esse ju√≠zo, a gra√ßa do texto: "N√£o consigo entender a raiva dos moradores do pr√©dio. (...) √Č uma raiva contra o campo, contra os s√≠mbolos da ro√ßa. √Č uma raiva contra os caipiras que v√™m para Curitiba, √© uma raiva, portanto, contra mim." Exagero. Influ√™ncia nociva da cr√īnica. Deixe-se ao leitor o privil√©gio de discernir e concluir o que j√° ficou √≥bvio.

Os seis contos da nova safra foram escritos na mesma tessitura dos anteriores, amalgamados agora perfeitamente bem a eles. Tr√™s se destacam. Olhos azuis, tamb√©m curto, tem um subtexto t√£o rico que chega a torn√°-lo enigm√°tico. Uma mulher gr√°vida, arrumando a casa que pertencera aos antepassados do marido, descobre no s√≥t√£o o retrato antigo de um jovem de olhos azuis e revive de forma surpreendente um peda√ßo da hist√≥ria dessa fam√≠lia. Narrado pelo personagem feminino, As x√≠caras √© respons√°vel por outro bom momento. √Äs v√©speras de completar 25 anos de matrim√īnio, o marido traz para casa a antig√ľidade rec√©m-adquirida, um aparelho de ch√° de porcelana b√°vara. Os dois se p√Ķem a limp√°-lo, enquanto v√£o especulando sobre a origem do conjunto e sua trajet√≥ria at√© chegar naquela casa. Nesse exerc√≠cio, a mulher vai tamb√©m inventariando o seu casamento e passa a compreender, entre outras coisas, o encanto do marido pelas pe√ßas de antiqu√°rio. O tom beira o po√©tico, o final √© sublime. Sabor, o mais forte, traz o pai que dispensa os filhos de irem √† escola para que possam acompanh√°-lo na matan√ßa do porco e ajud√°-lo nas tarefas decorrentes. Um relato que provoca n√°usea e sofrimento, pelos quais o leitor n√£o consegue passar inc√≥lume.

Tamb√©m √© necess√°rio mencionar Vermelho envelhecido, uma hist√≥ria esquisita mas regada a um erotismo bem constru√≠do que a redime parcialmente de sua extravag√Ęncia: a mulher madura que se descobre excitada com ela mesma ao se ver jovem e nua numA fotografia antiga, tirada pelo marido j√° morto. O interesse pelas mo√ßas, subitamente despertado nela, acaba encontrando a namorada do pr√≥prio filho, com quem se envolve. Uma frase lapidar perpassa todo o conto - "roxo √© um vermelho envelhecido" -; a cor vermelha assume uma nuan√ßa diferente ao ritmo da narrativa, voltando ao ponto de partida para um outro final de grande efeito: "O ip√™-roxo em frente ao pr√©dio tinha florido. Estava lindo que era um desperd√≠cio".

Se n√£o encontram lugar entre os melhores, Dias de chuva e No√ß√Ķes b√°sicas tampouco destoam do conjunto. O primeiro conta a hist√≥ria de um jornalista que viaja ao interior para entrevistar um m√ļsico anci√£o, autodidata e artes√£o de violinos. O argumento √© consistente, mas a inexist√™ncia de um conflito faz com que a narrativa se aproxime novamente da cr√īnica. O mesmo acontece com No√ß√Ķes b√°sicas, o pai que faz quest√£o de ensinar ao filho como se constr√≥i uma pipa, enquanto lembra do tempo em que era crian√ßa e fora enganado pelo amigo mais rico.

O livro se encerra, sugestivamente, com No centro de algo. √Č um conto longo, portanto mais suscet√≠vel a deslizes. Prova de resist√™ncia para qualquer contista, e Sanches Neto se sai dela com per√≠cia. Ironicamente, o mais longo √© tamb√©m a s√≠ntese. O casal, √† beira da separa√ß√£o, viaja para Pearibu - decis√£o intempestiva dele, concord√Ęncia a contragosto dela - e acaba resgatando, na aventura, o que j√° se julgava perdido. √Č, em √ļltima an√°lise, uma hist√≥ria de amor, e, como j√° era de se esperar, n√£o faz feio na importante miss√£o de fechar a colet√Ęnea.

Mas o melhor ficou de fato no miolo - n√£o em Pearibu e sim no centro f√≠sico do livro. √Č l√° onde est√£o os dois pequenos contos, e aonde o leitor atento volta, com insist√™ncia, para ouvir o farfalhar dos delicados ossinhos que se quebram na mem√≥ria.

Luiz Paulo Faccioli
Publicado em Rascunho, edição de novembro/2003


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