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Literatura

Da poesia da arquitetura à arquitetura da poesia
Ricardo Silvestrin

Nessa história de saber se o poeta é maior ou menor, opto por aquilo que já se disse sobre o pênis. Não importa o tamanho, mas sim o prazer que ele proporciona. Centímetros à parte, tem um poema do Mário Quintana que me fez pensar sobre a trajetória desse que é um dos onze craques que eu escalaria caso fosse o técnico da seleção poética da língua portuguesa. É o “Arquitetura funcional”, que está no livro “Apontamentos de história sobrenatural”.

Arquitetura funcional

Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares
Que andam por aí...
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma... Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das visitas
(Que diriam elas, as solenes visitas?)
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras coisas...)
E as casas novas não têm ao menos aqueles longos, intermináveis corredores
Que a Lua vinha às vezes assombrar!

Certo dia, num estalo de Vieira, li esse poema, que é uma espécie de poesia da arquitetura, traçando um paralelo com a arquitetura da poesia. Assim como a arquitetura, a poesia do século XX pode ser lida como um percurso em direção à funcionalidade. E o Quintana é um desses arquitetos que passaram cerca de sessenta anos descobrindo como se ergue e se faz parar em pé esse texto, sem os andaimes da métrica, da rima, do adjetivo colocado para fechar o número de sílabas, sem a forma da forma fixa. Quintana, Bandeira, Drumond, Oswald, Mário de Andrade, Cecília, João Cabral. Esse o primeiro escrete que, até os anos cinqüenta, junto com vários outros poetas, viveu a aventura de criar o verso modernista brasileiro.

Os limites entre a prosa e a poesia, entre a frase e o verso, “os ritmos inumeráveis”, como fala Bandeira em sua “Poética”, a “Procura da poesia”, como formula Drumond. O corte, o verso longo seguido do verso curto, o equilíbrio entre o dizer e o sugerir, a reflexão contrabalançada pela imagem. Mas tudo sem excessos, sem arabescos, sem rococós, sem elementos ornamentais ou meramente decorativos. A fala das pessoas, as palavras que todo mundo usa, “A impura linguagem dos homens”, como escreve Quintana nos seu poema “Bem-aventurados”.

Nos anos cinqüenta, um momento de superespecialização funcional com Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Ronaldo Azeredo, entre outros. É a poesia concreta. Tudo no lugar certo, até o

espaço da página tem uma função e uma significação programada. O caso de Ferreira Gullar é interessante, com a sua saída do concretismo e a volta ao verso modernista na década de sessenta e na sua poesia até hoje. Da super-funcionalidade à funcionalidade.

A geração desbunde nos anos setenta, Leminski, os que vieram depois e receberam (recebemos) de mão beijada essa tradição toda que construiu, desconstruiu, reconstruiu a arquitetura do discurso poético na nossa língua.

Voltando ao Quintana. A professora Tânia Carvalhal, que sempre teve uma leitura muito atenta e sensível do texto poético, chama a atenção, num prefácio à edição de uma das antologias do Mário, para um dado importante no aprendizado poético desse aprendiz de feiticeiro. Quintana publicou primeiro sonetos (segundo ele para provocar e mostrar que era possível ainda usar essa forma poética em 1940) em “A rua dos cata-ventos”, seguiu pesquisando o ritmo com as suas “Canções”, partiu para o poema em prosa no “Sapato florido”, exercitou a quadra no “Espelho mágico”. Mas foi na experiência de escrever e publicar poemas em jornal (diariamente!) que a sua poesia encontrou outros elementos não estritamente literários que redimensionaram o seu verso. Ele mesmo já antecipava isso em “Comunhão”, poema em prosa do “Sapato florido”, lançado em 1947.

 

Comunhão

Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem
os pequenos anúncios de jornais.

O contato com o leitor não especializado, o ambiente de discurso jornalístico, tudo isso trouxe para o seu verso elementos que contribuíram para que fizesse uma espécie de síntese da poesia modernista que aprendemos a reconhecer como de Quintana. Comunicação direta, pensamentos, anotações, haicais, poemas de um, dois versos, liberdade de tamanhos e formas. Leminski fala de algo semelhante quando se refere ao que aprendeu na publicidade, como redator que foi, e que acabou sendo um elemento que modificou a sua poesia. “Interlocutor não se escolhe. É esse que está aí na sua frente e você tem que achar um jeito de falar com ele”. O fato de estar criando para um leitor literato ou para um leitor de jornal, mais ainda para um consumidor que pode ser qualquer um, muda o jogo da criação do texto. É para isso que, com outras palavras, a Tânia Carvalhal apontou. A partir de um certo momento, os poemas de Quintana foram sendo criados para ser lidos no Correio do Povo. Ou seja, pelo povo. Essa situação trouxe uma riqueza e caminhos interessantíssimos para um poeta explorar. Como se vai do culto ao popular? Quintana faz um troca, leva um pouco da sua erudição e recebe de volta a palavra comum, transita da referência poética à notícia, mas não qualquer notícia. Somente aquela que carrega uma carga de lirismo oculta no aparente sensacionalismo do “noticioso”.

Como neste poema chamado de “Crônica” (transcrito abaixo), publicado no “Apontamentos de história sobrenatural”, em 1976. O próprio título já sugere a mixagem entre gêneros, entre frase e verso, entre fato e poesia, entre texto jornalístico e texto poético. Elementos novos para construir um poema em que imagens e metáforas convivem com o mais puro, ou impuro, texto jornalístico.

Crônica

SÃO PAULO, 23 - Morreu ontem o trapezista
René Bugler, internado quando o mastro em que
fazia acrobacias quebrou e ele caiu de uma
altura de 10 metros. (Do noticioso.)


A pantera é uma curva em movimento:
vai-se desenrolando como um desenho.
Mas a sua harmonia é linear como
a figura que, na sucessão de um friso,
repete-se, com o andante ritmo de um verso
num poema...
O trapezista,
no entanto,
não quer a pauta de uma corda única
e a curva do seu vôo traça geometrias no espaço,
vai e volta, mergulha, sobe, entrelaça-se
como se brincasse consigo mesma.
Só não se brinca com a imperfeição das coisas...
e a tua dança aérea, ó pobre René Bugler,
interrompeu-se:
tombaste, da altura de 10 metros, os braços abertos em cruz
e a maravilhosa curva que traçavas
imobilizada de súbito num corpo inerte.
Sim, tu estás, agora, na reta horizontalidade da morte.
A morte odeia as curvas, a morte é reta
como uma boca fechada.
Tenho até remorso de fazer-te um poema...
O poema
- o poema da tua vida
está apenas nisto,
nestas simples palavras:
“René Bugler, trapezista,
morto aos 22 anos
no exercício de sua arte”.

Chama a atenção o contraste entre o refinamento literário da intrigante imagem da pantera, definida como “uma curva em movimento” (que acaba se confundindo com a imagem do próprio verso no poema) e a manchete jornalística que encerra o texto. Um trânsito magistral entre diferentes padrões de discurso.

Esse homem culto, que foi para o jornal sem deixar de ser culto, que publica poesia, ou reflexões em torno da poesia, que não facilita a sua vida escrevendo logo crônica e deixando os poemas em casa, ou na gaveta dos editores, ou resignados com a sua condição de livros para poucos. Esse poeta que permite redesenhar a arquitetura do seu poema, sendo permeável ao dia-a-dia, ao fato e à fala do homem comum, teve dele, até mais do que dos literatos, a sua retribuição e o seu reconhecimento. Tanto que, numa pesquisa “Top of mind” no Rio Grande do Sul, foi o escritor gaúcho mais lembrado.

Mais uma vez, o Quintana leitor-de-formas-arquitetônicas dá um show de bola no poema “Escadas”. Aqui a poesia da arquitetura se confunde com a arquitetura da poesia, com elementos inclusive gráficos, pela colocação das palavras na página, quando o leitor desce com o poeta a “escada do poema”.

Escadas

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas, conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
- o peito
estreito -
o teto descendo
Descendo, descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser,
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso?
Além disso não têm, pelo que dizem, nenhuma acústica...
Oh! não há como as escadarias daqueles antigos edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
- nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em direção ao teu quarto
E “sabes” que é um fantasma chamejante e fosfóreo
- o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes!
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
- o quanto antes!
Naquelas pobres escadarias de madeira das casas pobres
-escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada abaixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vens descendo
agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não! este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse?!
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...

Mas esse arquiteto moderno, no entanto, lamenta na arquitetura das casas de hoje a ausência dos “longos, intermináveis corredores”. Afirma, no “Arquitetura funcional”, que as casas modernas são “pobres casas sem mistério”. E pergunta: “Como pode nelas vir morar o sonho?”. Paradoxalmente, na arquitetura da sua poesia, chegou a mini-poemas, verdadeiros jks como estes:

Construção

.... o dia exato alinha os seus cubos de vidro...

Ou

A oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

Quando o arquiteto é um poeta como Mário Quintana, mesmo num jota-haicai é possível vir morar o sonho.


19/11/2007

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  Ricardo Silvestrin

Ricardo Silvestrin nasceu em Porto Alegre, 1963. Formado em Letras pela UFRGS, é poeta, com diversos livros publicados, e músico integrante dos poETs.

ricardo.silvestrin@globo.com
www.ricardosilvestrin.com.br


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