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Uma pitada de inspiração
Simone Saueressig

Às vezes as pessoas me perguntam do que eu mais sinto falta dentre as tantas coisas que deixei na Espanha, naquele período que morei lá. Desde aqueles dias se vão dezoito anos de retorno, então eu faço uma breve pausa antes de responder. Pergunta perniciosa! Algumas coisas são pessoais demais até para explicar para mim mesma: um cheiro, uma luz, a sensação de que “já é Inverno” ou “já é Primavera”, a despeito da folhinha do calendário. Outras são da minha intimidade, guardadas a sete chaves. E outras, ainda, as mais significativas, são triviais e pequenas. Enquanto algumas pessoas acham que eu vou dizer “sinto falta do Flamenco” ou “sinto falta dos museus”, eu me lembro de um determinado programa de rádio que ouvia pelas manhãs.

O caso é que eu detesto cozinhar e na Espanha, sendo dona de casa, me tocava essa tarefa que não cumpro bem. Daí que procurava algo para me distrair entre molhos e batatas e levar as culpas caso trocasse o sal pelo açúcar no ensopado do meio-dia.

Esse programa, meu predileto, era uma crônica, irradiada bem na hora em que eu estava pela pia ou fogão, tentando ver nos livros de receitas o que iria executar naquela dia. Compreenda o verbo do jeito que quiser, mas saiba que eu nunca cozinho sem uma receita por perto: nada sei de quantidades ou proporções, daí a necessidade dessa bengala feita de uma lista de coisas: cebolas, pimenta, alecrim. O pior é quando diz “sal a gosto”. Cozinhar é um desgosto sem tamanho.

O tema da crônica radiofônica era sempre Literatura e Culinária. Sim, porque Literatura e culinária se aliam muito bem, a despeito da aflição que se instala em algumas pessoas quando comento que meu horário de leitura é pelas manhãs, durante o café da manhã – e daí imaginam geleias a sublinhar palavras difíceis, grãos de açúcar a doçar as lágrimas derramadas em parágrafos trágicos, migalhas de pão a marcar as páginas, e gotas de café ou leite, ou ambas, a assinalar que ali assim passou um dedo apressado. Imaginam e acertam. Não sou leitora das mais pulcras, porque para mim Literatura é vida e a vida não é pulcra, é misturada, temperada, feita de sal e açúcar, vinho e vinagre, caldo e grão. Palavra é o de menos.

Pois a crônica versava sobre isso mesmo: sobre os banquetes do imaginário literário e os relatos de orgias gastronômicas em Roma, sobre os caldos envenenados dos Bórgia. Falava sobre os lábios de mel dos amantes e o seio formoso e branco como leite das amadas. Não faltavam autores famintos que se alimentavam com assados verborrágicos e cozinheiros com falta de talento, inspirados por um súbito sopro de adjetivos apetitosos e pronomes ocultos em saborosos guizados de frases que se uniam para citar um trecho daquele inesquecível livro que o cronista nos instigava a ler, fosse um clássico dos mais clássicos ou uma novidade saída da editora ainda agora, ainda fumegando o cheiro do papel novo, da cola e da tinta. Naqueles dias, cozinhar era provar versos, experimentar formas e aspirar a ser um pouco melhor na tarefa a que tinha me comprometido.

Tarefa que era, sempre, a busca pela escrita e não pelo cozido. Uma busca imperfeita, dada a enganos cotidianos, como um drinque apressado e caro que mais inebria do que alimenta. Há que se buscar o tempero, aquele adjetivo complicado e obscuro que deveria acompanhar a salada ou o guizado, e que não aparecendo na frase certa, desanda toda a página. Como cozinheira, acho que a minha escrita sempre passou por um necessário toque de mestre ao final de tudo, e nem o mestre, nem o toque, chegavam. O que sim chegava era o marido, com fome, ele sim um artista com qualquer coisa que tivesse à mão: o que havia na geladeira era o ideal, sempre, nem que fosse apenas um pote de aspargo em conserva. Das sobras emergia algo novo, irrepetível e irretocável, como tudo o que é feito pelas mãos de quem tem talento para a coisa.

Resta, como sempre, a lembrança. Sempre mais saborosa do que a realidade, sempre mais ardida, sempre mais pungente.

Sempre mais. E por isso mesmo, ingrediente fundamental de quem deseja aventurar-se pela imaginação. Viver é devorar o tempo em um prazer prosaico e simples. Tudo o mais é criação da memória temperada pelos desejos do que foi e do que poderia ter sido. Como na Culinária, irmã oculta das Artes, a Literatura é pura invenção. Que não se acabe o punhado de imaginação que, havendo nos tocado, gera o flerte delicioso com a Alma Humana.


26/01/2018

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  Simone Saueressig

Simone Saueressig nasceu em Campo Bom (RS), em 1964. Professora de balé desde os dezoito anos, a autora também trabalhou como editora do suplemento infantil "Popinha" do Jornal NH, de Novo Hamburgo. Na década de 90, Simone morou na Espanha e neste período escreveu inúmeros contos infantis para o jornal "Ya", de Madri.
Atualmente, Simone tem vários títulos publicados para o público infantil e infanto-juvenil. Entre eles, destacam-se “A Máquina Fantabulástica” publicado há 20 anos, ininterruptamente pela Editora Scipione, e os livros “O Rubi Ragank” e “A História do Rubi Ragank”, publicados em 2012 pela Um Cultural.

contato694@gmail.com


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