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Poesia

Poesia, poema e outras margens
Rafael Figueiredo

Em seu livro “O Arco e a Lira”, o poeta Octavio Paz nos convida a uma significação dos conceitos de poesia e poema. Para ele, a poesia pode estar presente em qualquer obra, e o poema também não se restringe apenas a conceito literário. “O soneto não é um poema, e sim uma forma literária, exceto quando esse mecanismo retórico — estrofes, metros e rimas — for tocado pela poesia. Há máquinas de rimar, mas não de poetizar. Por outro lado, há poesia sem poema; paisagens, pessoas e fatos muitas vezes são poéticos”, afirma. Desta forma, precisamos entender que há uma abissal distância entre desvendar um poema e alinhar versos, notas e movimento. Carlos Drummond de Andrade nos diz algo semelhante em “Procura da Poesia”:

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

O poema, neste sentido amplo, vai além. Além da técnica, do estilo ecoando fixo em sem tempo, além do “eumesmismo” no diálogo trágico do eu, além do pôr do sol, da cifra alegórica. Não pode ser construído, mas descoberto, como a imagem dentro da pedra. Ou como diria Paz: “Na criação poética não há vitória sobre a matéria ou sobre os instrumentos, como quer a vã estética, e sim uma libertação da matéria [...], sem perder seus valores primários, seu peso original, são também pontes que nos levam a outra margem. […] Ser ambivalente, a palavra poética é plenamente o que é — ritmo, cor, significado — e, também, é outra coisa: imagem.” Não há poema sem imagem, e não há imagem poética que contenha-se classificada, presa. Pois toda matéria se nega a ser objeto de conceito fixo, e transborda em sentido e significados. Assim o poema, seja ele escrito, pintado, esculpido, dito, estará sempre dedicado à significação de sua matéria, não permitindo que o poeta seja um processador de palavras, mas um arqueólogo de afeto, sentido, cor e som.
Nos alerta e alegra, Manoel de Barros:

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia.

Nos exige Alberto Caeiro:

E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro.

Ou ainda converte-nos ao susto, Augusto dos Anjos:

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

E na pergunta da palavra de Drummond, instiga-nos o leme:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

(...)
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
.

É isso, e não é, e é outra coisa e nenhuma, porque não há “técnica poética” a ser transmitida como didática. Não há nada de pedagógico nestes ou em outros versos, o que nos serve é saber que a técnica de um poeta nasce e morre junto de seu poema, e de nada lhe serve além. Apenas a nós, os leitores, é que o poema irá novamente se desvelar e mover-se. É nesse segundo ato que ele estará completo em recomposto incesso.

 Assim, ao que parece, alcançar o poema é fazer a travessia do rio de três margens. Em movimento fixo, sobre a canoa-de-um-pau-só, no entre-vão da linguagem e do indefinido, seguimos tentando descrever esta paisagem interior.  Octavio Paz nos diria o seguinte: “Sem deixar de ser linguagem — sentido e transmissão de sentido —, o poema é o que está além da linguagem. Mas isso que está além da linguagem só poderá ser alcançado por intermédio da linguagem. Um quadro será um poema se for mais do que linguagem pictórica.” Então a poesia se revela; estamos de frente ao campo de dentro, o não-lugar, ao recôndito manifesto do irrestrito. Não está presa ao verso, e muito menos é ele que a representa, está em todas as obras que se inclinam à arte. E, desta forma, alude a si mesma em seu processo contínuo de recriação.


08/08/2020

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Comentários:

Que texto, uau! Preciso ler de novo.
Larissa, Governador Celso Ramos 19/08/2020 - 14:47

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  Rafael Figueiredo

Rafael Figueiredo nasceu em 1985 e hoje reside na cidade de Sapiranga. Foi aluno do professor Marcos Maronez com quem iniciou seus estudos em violão, piano e composição. Começou a escrever peças teatrais ainda na escola. Seu repertório autoral conta com mais de duzentas músicas compostas e arranjadas por ele, e contemplam vertentes da música brasileira como as modas de viola, a trova, a musica popular, além de temas para peças de teatro.

figueired669@gmail.com


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