Affonso Romano de Sant`Anna sobre "O menos vendido"

Silvestrin, meu caro:

já havia lido os seus três livros há várias semanas, mas só agora posso me sentar para lhe dar essa noticia. Foi ótimo lhe conhecer, saber de seu trabalho. Esse país é grande, a produção literária aumentou muito. Não é mais como nos anos 60, quando comecei: tinha-se um mapa das pessoas que escreviam e havia vários críticos que drenavam/ selecionavam os melhores nomes. Hoje a fragmentação é a parte, às vezes boa, mas também onerosa da malfadada pós-modernidade.
Você já superou há muito aquela fase de estreante, de "autor novo" e surgiu abençoado por ícones como Assis Brasil, Veríssimo, Scliar. Portanto, já está na estrada. E essa é a coisa difícil e às vezes dramática. Ao contrário do que pensam os novatos, o princípio é até fácil, depois é que tudo se complica.
E você está trabalhando em vários gêneros. Aqueles contos bem elaborados,enxutos, abordando temas os mais variados (""Sou acusado de deixar de ser eu") ou a história do tipo "que aceitou convite para virar palavra"- que é em outra instância de nossa sina.
Em "O videogame do rei" você moderniza lúdica e ironicamente os contos de fada. É isto, "custa muito pra se fazer um poeta" e você está procurando caminhos pós Leminsky e Chacal, por exemplo, através daquele diário poético.
O seu cruzamento com a música popular marca evidentemente o seu trabalho. Isto se tornou evidente ( e às vezes perigoso) em nossa poesia depois dos anos 70 ( como mostrei em "Música popular e moderna poesia brasileira").
Há uma coisa importante, no entanto, que quero ressaltar. É preciso que a poesia brasileira ultrapasse falsas questões trazidas por um autoritarismo estético ( que esconde outras formas de autoritarismo). Como eu vivi crucialmente os dilemas (alguns falsos) da poesia brasileira nesses últimos 50 anos, saúdo sempre com esperança aqueles que querem olhar nossa poesia sem os preconceitos de ontem.
Você tem demonstrado isto através daqueles "diálogos". A conversa com nosso doce Carlos Felipe é um exemplo.
É isso, Silvestrin, vamos em frente que atrás vem gente.

Affonso Romano de Sant`Anna, 11.02.2010




 

 

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