Ziraldo sobre Typographo

Na época do Ivan Lessa, ou melhor, na época em que o Ivan Lessa fazia parte da turma do Pasquim, ele, com seu humor cortante, perguntava, com insistência: “É a poesia necessária?” Nesta pergunta o Ivan usava, no devido ponto, o seu estoque de ironias. E fazia isto para responder que não, a poesia não era mais necessária. Algum tempo depois, um outro dos nossos três grandes humoristas, a seu jeito, também entrou nessa. E, ao fazer pequenos poemas cheios de um humor – também cáustico – exclamava: “Poesia, numa hora dessas.”

Pensando nos dois humoristas aqui mencionados – o Ivan e o Verissimo – concluí que, diante da deteriorização da alma humana nos últimos tempos, a dúvida dos dois faz sentido. Basta apenas ligar a televisão para lamentar como, acompanhando o destino da humanidade, nós assistimos – apenas como exemplo – à morte da música popular brasileira, à morte de nossa dramaturgia, à brutalização das nossas relações afetivas nesse mundo atual de absoluto consumismo e insensibilidade. Não há mais a mínima possibilidade de se criar um romance epistolar num mundo de e-mails e whatsapp. Será que o romance é necessário? Será que ainda dá para se dançar-de-rosto-colado ouvindo a “nossa canção”? Ainda existem canções de amor? Onde podemos colocar tudo o que chamamos de poesia neste labirinto de sentimentos mortos? Será que estou dando uma de Jabor? Estou seguro de que nosso brilhante – e céptico – cronista responderia que, agora e daqui pra frente, não é nem será, nunca mais, hora de perpetuar poemas.

Acredito que o Jabor acrescentaria – com o que lhe sobrou de esperança – que sim, estamos precisando demais de bons poetas – de poetas que vejam aquela luz que musas emitem – para iluminar a atual enormidade de túneis escuros (esses sobre os quais, podemos criar metáforas).

Eu Estou escrevendo isso tudo porque sei que parte de nós não foi assassinada até agora, porque nos resta a esperança de que ainda exista espaço – muito resumido, é claro – para haver por aí, uma pequena legião de verdadeiros poetas, excelentes poetas, sensíveis e valentes poetas que – entre outras dificuldades – precisam do já famoso crowd funding para publicar seu primeiro livro. Como, aliás, Drummond precisou – para publicar o seu – de uma vaquinha feita pelos amigos (o que era muito mais poético – e perdido no tempo). Não é o caso aqui presente. Este livro é uma publicação da Editora Patuá.

Esta longa peroração tem a missão de apresentar aos leitores o novo livro do Ricardo Silvestrin, um vero poeta e um guerrilheiro da resistência.


Ziraldo
(orelha do livro)



 

 

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