Charles A. Perrone sobre SOBRE O QUE

Sobre Sobre o Que, Sobre o que Sobrar...


          Não vou ao Rio Grande do Sul (RS) há quarenta anos, mas tenho visitado regularmente via encontros alhures, através de alguma ficção - João Gilberto Noll, Caio Fernando Abreu, Moacyr Scliar - e, mormente, por meio de letras ouvidas e poemas lidos, desde Almôndegas, Kleiton e Kledir, até Carlos Nejar e Mario Quintana, Adriana Calcanhotto e Ricardo Silvestrin. Este último leva vantagem sobre os outros no fator identitário gaúcho pois suas iniciais representam a própria sigla do estado sulino: RS. Feliz coincidência e, permitam-mo, um pouco engraçado, rsrsrs. Quando eu estava preparando os verbetes dos dois livros de poesia anteriores de Ricardo Silvestrin (RS) para o Handbook of Latin American Studies li um crítico (local se não me engano) que afirmava ser o humor um dos principais pilares da poesia do prolífico poeta-observador. Se estendermos a definição de humor para incluir a ironia em sentido mais amplo, concordo. SorRiSo.

O presente título Sobre o que tem lá seu lado figurativo diferencial também, pois se trata de uma frase (locução) incompleta, provocativa e convidativa. Falta um infinitivo ou um verbo conjugado. É como se o autor - com intenções possivelmente brincalhonas, inevitavelmente conceituais - pedisse para o público ledor completar a frase, antes da, durante a, ou após a leitura dos múltiplos novos poemas. Poder-se-ia apenas acrescentar um ponto de interrogação - Sobre o quê? - ou deveria vir mesmo uma forma verbal?: p. ex. Sobre o que escrever / pensar / decidir ou Sobre o que se passou / tem acontecido / virá afinal. Sobre o que te faz feliz / te incomoda. Ao ler a epígrafe de Platão, ainda se levanta a pergunta se há conexão especial entre as palavras citadas do filósofo antigo e o título provocador.

Se as possibilidades da complementação do título são praticamente infinitas, o número de poemas no livro é alto porém finito. O primeiro poema abre dizendo que “tem muito mais” e, diria eu, isto se aplica ao livro como um todo e à sua legibilidade. O terceiro poema já fala em “Ordem,” o que me tocou estética e anedoticamente. Outro dia numa leitura de poesia por aqui um dos participantes disse não acreditar na ordem sequencial dos itens em um poemário. Em vez de ler os poemas na ordem em que o autor os publicou pula ao acaso e lê um por um sem acatar a contagem da tábua de conteúdo. Haja Rayuela-Jogo da Amarelinha-Hopscotch de coleção de poesia! No presente caso, as instâncias líricas de variada temática não dependem de contiguidades e podem ler-se com proveito seguindo o “conselho” do leitor randômico com uma ou duas exceções, quiçá o segundo poema, “Orientação” (isto é, potenciais indicações para o que se segue) e definitivamente “O último poema,” que encerra a coleção e que, evidentemente, está no lugar, derradeiro, certo. Para aqueles que gostam de traçar ecos e interrelações de vozes, é o poema mais bandeiriano do livro. Outras reverberações os leitores hão de detectar, inclusive de livros anteriores de RS.

O corpus deste livro é composto de poemas que constituem contemplações do desenrolar da experiência de vida. Ocorre-me a caracterização da ficção como “equipment for living” (equipamento para viver), do teórico norte-americano K. Burke, que pode ser aplicada a esta poesia. Em tons jovens, maduros, e mesmo velhos, Silvestrin escreve sobre lugar, sentimento, conhecimento, e, sobretudo, o tempo, cronologia da implacável travessia (o mapa de caminhos) que leva até - poderia ser de outro jeito? - a morte. Claro, a memória impera mas o futuro antecipado acaba ganhando mais atenção (ou será só mais intensa?). RS poderia ter escrito antanho, noutros dias. Alguns poemas o situam na atual época tecnológica (play, email, likes, drones) ou histórica (Dilma, golpe na pesada sequência de 26 partes “Um enorme vão”), mas tantos outros não têm etiqueta de conjuntura. Há os que se inspiram na música (Oh, “Ella”!), mas a maioria se baseia no tal de estar-no-mundo existencial. Os meta-linguísticos naturalmente estão presentes (Vide “O poeta” #1-10). Em “Portuguesa” lemos “Meu corpo todo de palavras da língua portuguesa” e lembramo-nos do melhor de Mário Faustino e duma declaração famosa de Fernando Pessoa, que também fez suas Quadras ao gosto popular. No poema “Inventos,” o eu poético enuncia: “Antes era preciso inventar / um jeito de estar no mundo. / E o mundo terminava / a duas ou três quadras.” Bonita ambivalência físico-artística: podem ser quarteirões de rua ou quatro linhas de verso, como a estrofe em que isto se articula. O mood individual está sempre associado ao deslocamento no espaço, no tempo, no espaço-tempo, e no verso, popular e nem tão popular. Sugere-se o andarilho, o flâneur, o sujeito do walking around nerudiano. Mais perto do final há uma auto-caracterização relacionada: “O que ficou /é invenção, /mistura de fato /com sentimento, / coisa bem diversa / do acontecimento.” Esta existência precisa de, até chega a ser, “a arte do equilibrista.” Assistam a ela. Confiram. Regional, nacional, e transamericanamente.


 


Charles A. Perrone,

Santa Cruz, Califórnia, EUA

Professor emérito, Universidade da Flórida

Prefácio do livro


 

 

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