Estrela Ruiz Leminski sobre PRÊT-À-PORTER

Prefácio


         Se sabe que o haikai é análogo a fotografia. Porque é uma imagem, porque é conciso, porque é ação no contexto. Poesia, sutileza e movimento de uma só vez. Mas e do ponto de vista do haikaísta? O que cria esse olhar de haijin? Seriam fotógrafos do texto? Para isso, todo o nosso aparato corporal que produz o olhar funcionaria como uma câmera escura na cabeça do haijin.

Onde qualquer um vê o todo, o haijin capta o detalhe, codifica o ponto mínimo, o diafragma produz uma abertura na mente. Porque lá dentro de sua cabeça o detalhe se amplia, dignifica, significa.

A cena se projeta invertida no cérebro, sendo codificada e traduzida em poucas e exatas palavras. Talvez não seja à toa que o haikai tenha nascido no japão, onde a escrita segue a direção inversa do ocidente.

Mas se o haiku é análogo a fotografia, ler um livro de haikais é mergulhar num álbum. E assim esse Prêt-à-porter é um grande livro de haikais. Um álbum que conta uma trajetória. Uma ou todas, porque o Ricardo Silvestrin é muito universal em sua pessoalidade.

Tem as quatro estações como o haikai deve ter, mas escancaradas pela divisão temática de partes. Isso produz uma narrativa oculta. Que convida o leitor a preencher as lacunas entre os flashs. Pudera, Silvestrin é escritor que se dedica a muitos gêneros literários, e é um dos poucos, dos que se arriscam a isso, que consegue ser igualmente excelente em todos.

Se aqui existem haikais é porque cada um não poderia ser escrito de outra forma, tinha que ser assim. Na medida, do jeito certo, e por isso Prêt-à-porter.


Estrela Ruiz Leminski

Poeta e compositora


 


 

 

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