SOM LEGAL COM LETRA BACANA

29-03-2005

O bom humor gaúcho está no CD de estréia dos PoETs

Na contramão de certas conveniências, há uma boa safra de gaúchos que se contrapõem à diluição pós-roqueira e à melancólica estética do frio com combinações espirituosas. Em pauta: Música Legal com Letra Bacana, dos PoETs, da YB Music. A realização se traduz em humor inteligente, versos bem elaborados, ligações com a poesia, canções bem feitas e bem tocadas.
A grafia de PoETs (leia-se poetês) destaca a idéia de que dentro de todo poeta mora um extraterrestre. No Hino dos PoETs, que encerra o CD, eles provam a teoria apontando: 'Drummond viu uma pedra no meio do caminho e se espantou/ Bandeira encontrou um porquinho e namorou/ Cabral fez um poema pra Aspirina e publicou'. Músicos, publicitários, donos da editora especializada Ame o Poema, Ricardo Silvestrin, Alexandre Brito e Ronald Augusto ainda têm a música como atividade secundária. Mas, esperam, não por muito tempo. Todos têm no mínimo quatro livros publicados, mas na ponte entre as duas artes evitam fazer 'poema musicado', ou vice-versa. 'Um bom poeta nem sempre é bom letrista, assim como não significa que um bom compositor seja bom poeta', compara Silvestrin.

A CANÇÃO NÃO É UMA ARTE EM EXTINÇÃO

Silvestrin, dos PoETs, adota uma 'atitude mais rock-and-roll', mas também bebe muito do manancial dos papas da canção equilibrada, 'aquelas que a gente canta e fica': Chico Buarque, Cole Porter, Beatles, Noel Rosa, Geraldo Pereira, Rolling Stones, Mutantes, Gershwin, Itamar Assumpção. Ou seja, aquele tipo de combinação que explicita o álbum de estréia do trio, que começou com uma concepção de sarau de canções intercaladas com poemas.
Em entrevista recente, Chico Buarque afirmou que talvez tivesse razão quem disse que 'a canção como a conhecemos' era um fenômeno do século 20. E que o rap talvez seja o sinal mais evidente de que aquele tipo de canção já passou. Dentre os muitos que custam a aceitar essa idéia, os PoETs enviaram seu CD de estréia ao compositor como forma de protesto. 'É justamente na ciência dessa canção que nós estamos interessados, na retomada da melodia, nas orquestrações, na musicalidade', aponta Silvestrin. 'O hip-hop vai continuar, mas acho difícil que mate a canção. No CD dos PoETs há porções substanciais de bom humor e ironia, embora com diferentes nuances. Não se trata de humor de piada, aquele que envelhece na segunda audição, mas do que provoca sorriso.
Aí também entra a tradição de Noel, Lamartine Babo, Premê, Rumo e tantos outros. Os PoETs curtem o sabor das palavras na canto-falada e caem na ironia na jovem-guardista Salva-Vidas,
Nostradamus ('Nostradamus morreu/ Isso ele não previu/ Viu o que ninguém viu/ Coisas do ano 3000/ Que em nada lhe serviu') 'é um pouco Karnak', reconhece Silvestrin. 'Mas às vezes a gente é triste, filosófico, mal-humorado, sentimental, é tudo uma comparação com a vida. Ele nem vê componentes regionais de humor. Mas que a escola gaúcha está em evidência neste setor, batendo até a tradição carioca, não há dúvida.

Fonte: Estado de São Paulo/ Lauro Lisboa Garcia/ 26 de Março de 2005

 

 

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