HÁ MÚSICA EM OUTROS PLANETAS

17-02-2005

O trio de gaúchos PoETs estréia em disco com canções que unem letras elaboradas, humor e um som pop

Três alienígenas em uma invasão sonora pretendem ser novos representantes da vida inteligente no Planeta Música. São os PoETs (pronuncia-se poetês), projeto dos poetas gaúchos Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto e Alexandre Britto, que chega às lojas com um disco trazendo 14 faixas (lançamento da YB Music, R$ 17,90), jogando na mesma dobra espacial pop, chorinho, eletrônico, soul e poesia - ah, e humor.
O disco PoETs surgiu de um projeto ao vivo, o Abdução, no qual os três poetas já apresentavam músicas próprias, às vezes feitas em conjunto, às vezes feitas em parceria de dois dos integrantes. O método de composição varia, mas, de acordo com Silvestrin, atualmente as canções dos PoETs nascem primeiro em forma de melodia, para depois se acrescentar a letra.
- Não estamos fazendo poesia musicada, somos músicos também. Por isso gostamos de compor ao violão, acompanhar o surgimento da melodia primeiro - conta ele.
Se a melodia vem antes, de qualquer forma a letra também é trabalhada buscando um equilíbrio que o trio define quase em tom de manifesto na capa do CD: "música legal com letra bacana".
- Para nós, essa definição abrange uma nobre linhagem da música que inclui Cole Porter, Chico Buarque, Noel Rosa, Beatles, Chico Science, Lulu Santos. É um universo de grandes criadores da canção - explica Silvestrin.
Na exploração dessa galáxia musical, os PoETs se transportam usando vários estilos musicais como naves para suas canções. A faixa de abertura, Nostradamus, é um pop de ritmo espasmódico, quase eletrônico, em que se percebem vagas sonoridades orientais. A surf music Salva-Vidas ecoa Erasmo Carlos com letra solar, romântica, com referências bem-humoradas a praia e mar que casam com a melodia.
A conexão harmoniosa da letra com a música é vital para o trio. Um bom exemplo é Exageros - canção pop com uma esperta levada soul. Na letra, quase declamada, um apaixonado promete exageros pela mulher que ama, começando pelos absurdos e irrealizáveis ("Meu amor, por você / atravesso o oceano a braçadas") e progredindo até que o exagero seja a vivência do cotidiano ("Meu amor, por você / visito parentes, cumprimento a vizinha / conservo roupas dobradas").
Na nave musical dos PoETs, o combustível é assumidamente o humor. Mesmo nas músicas de crítica social como O Brasil não É, ou nas que trazem um forte componente erótico, como Vem Cá ("botou a minibliusa e o silicone") ou Corpo a Corpo ("Depois é mão aqui e lá"), o trocadilho e o nonsense temperam a música, como em Só Você, em que o personagem vocifera contra o "assédio" que o homem moderno sofre todos os dias: "Nem a garota de Ipanema e sua filha me põem pilha / nem a Luana Piovani piovendo na minha horta. / Não importa".

Zero Hora, Carlos André Moreira

 

 

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