ENTREVISTA COM RICARDO SILVESTRIN, INTEGRANTE DOS "OS POETS"

03-08-2005

Ricardo Silvestrin é um poeta que sempre esteve próximo à canção popular. Uma das maiores incentivadoras de sua produção, por exemplo, é Alice Ruiz, que há muito tempo atua com sucesso como letrista e cantora. No mesmo caminho, Silvestrin lançou recentemente o CD "Música Legal com Letra Bacana", junto com os também poetas Ronald Augusto e Alexandre Brito.
O nome do trio é um trocadilho com seu ofício: Os PoETs. Querem sugerir, talvez, que ainda sejam estranhos na música. Mas só se for por enquanto. O álbum tem sido muito bem recebido pelo público e pela crítica, sendo destacadamente um dos trabalhos mais comunicativos e originais dos últimos meses.
Aos que imaginam um CD com música e poesia ou poemas musicados, uma surpresa: é um disco de canções. Rigorosamente. "Nossos poemas estão nos nosso livros. E nossas músicas, no nosso CD". Leia essas e outras declarações de Silvestrin na entrevista que concedeu, por e-mail, ao MPBHoje.

MPBHoje - Há estudiosos que afirmam que a poesia está mais próxima da música do que da literatura. Como você vê isso?
Ricardo Silvestrin - A poesia está perto da música por empregar recursos sonoros. Mas os recursos sonoros são possibilitados pela linguagem. A palavra tem uma face sonora, de que se valem a poesia, também a música e até a prosa.

MPBHoje - Como a união entre música e poesia tem sido retomada nos últimos tempos?
Ricardo Silvestrin - Acho que há alguns trabalhos que retomam isso em termos estruturais, criativos. Um deles é do Ricardo Corona. Outro foi o Arnaldo Antunes no CD Nome. E vem aí um CD com canções em parceria da Alice Ruiz com a Alzira Espíndola. Nesse mesmo CD, há os poemas da Alice ditos por ela.

MPBHoje - É mais fácil (e legítimo) difundir a poesia através da canção?
Ricardo Silvestrin - Não sei se é mais fácil. Quem quiser fazer pode. Mas são duas artes para dois públicos. Tem quem gosta de canção e não gosta de poesia. Tem quem gosta das duas. E deve ter quem goste de poesia e não goste de canção (como cita o Caetano, o João (Cabral) que não gosta de música). O nosso trabalho não está fazendo isso. Nossos poemas estão nos nosso livros. E nossas músicas, no nosso cd.

MPBHoje - Muitos poetas têm se tornado letristas (você, Alice Ruiz etc). Qual a diferença entre escrever poesia e letra de canção? É possível exercer esta versatilidade sem confundir linguagens?
Ricardo Silvestrin - Acho que sim. A Alice está fazendo bem as duas coisas. Cada uma com sua estética. Na letra, as repetições, as sonoridades de rimas, ecos e tal. Na poesia, ela pode usar tudo isso, mas também pode fazer e faz um haicai limpinho, sem rimas nem nada. O poema, para ser lido, concentra a linguagem. A letra abre, comunica com mais clareza, é para ser cantada pelo intérprete e por quem ouve. Enfim, há duas ciências criativas que podem ser desempenhadas por quem, para tanto, tiver engenho e arte.

MPBHoje - E no seu caso?
Ricardo Silvestrin - Sempre quis fazer uma banda. Aos 15 anos queria fazer uma banda de rock, como o Deep Purple. Fiz algumas letras para uma banda que não existia -- não tocava nenhum instrumento. A primeira coisa que li em poesia foi uma antologia do Vinícius, que eu conhecia pela música. Não gostei. Gostava mais das suas músicas. Depois, li a antologia do Manuel Bandeira. Aí descobri o prazer do poema escrito. Desde então, escrevo poesia para ser lida. Descobri a genialidade que há nessa arte. Adoro o texto no papel, o poema no meio da página. Lá pelos 28 anos, junto com o Alexandre Brito e o Ricardo Portugal, comecei a compor. Os dois tocam violão (e os dois são poetas). Esse trabalho virou uma banda. Depois, tive outra banda, também como compositor e vocalista. Agora, nos poETs, novamente estou ao lado de dois poetas de livro que são também músicos/compositores - de novo o Alexandre, só que agora com o Ronald [Augusto].

MPBHoje - Como é a produção de vocês?
Ricardo Silvestrin - Eu continuo criando canções com eles. Componho letra e música. E de um tempo para cá, nos poETs, pegamos o hábito criativo de começar pela composição da melodia, os três juntos. Depois criamos a letra para a melodia. Fui aprimorando o canto. Recentemente, aprendi a ouvir mais o significado da melodia. A letra de música, como o próprio nome diz, é parte da música. Tem o ritmo da música, a harmonia, a melodia, o pulso, a interpretação, o a ataque e a letra. Isso é diferente da arte do poema na página.

MPBHoje - Existe uma linguagem específica para cada uma dessas práticas?
Ricardo Silvestrin - Os elementos estruturais são outros. É claro que ambos os textos usam recursos da função poética da linguagem (termo usado pelo Roman Jackobson, o estruturalista amigo do Maiakovski). Isso quer dizer que ambos usam o estranhamento -- a criatividade -- com a palavra, sendo a palavra ao mesmo tempo som, sentido e imagem (desenho). Na parte de usar os estranhamentos de significado e sonoros, há uma intersecção. Mas os outros elementos, papel, grafia, de um lado, e melodia, harmonia, ritmo, ataque, pulso, lalação (o laialaiá) as tornam práticas diferentes. Certo, alguém pode musicar um poema inclusive visual. Os Titãs fizeram isso com aquele poema circular do Arnaldo, "o que não é não pode ser". O que aconteceu? Na canção, o poema virou letra. Na página, é um poema. Caetano também fez algo semelhante atribuindo sons aos desenhos do poema Pulsar do Augusto de Campos. Na canção é uma letra de música -- pois interage com os outros elementos musicais. No livro, é um poema. Tem duas vidas. Vinícius, Arnaldo Antunes e eu não somos apenas letristas. Somos compositores e intérpretes também. Assim também com o Alexandre e o Ronald. E todos esses fazem duas artes.

MPBHoje - A letra da canção contemporânea se sustenta como poesia?
Ricardo Silvestrin - A questão não é se sustentar como poesia. A poesia não é uma arte superior à letra de canção. Há poesia boas e péssimas. Há letras boas e péssimas. Há grande arte nas duas práticas. A letra de canção se sustenta como letra de canção. É para isso que ela foi criada. Por que e para que ela deveria se sustentar como poema? Até porque o poema, que eu saiba, não sustenta nem o poeta.

MPBHoje - Fale um pouco sobre o CD "Música legal com letra bacana", dos PoETs. Como foi a idéia, o processo de criação e o lançamento?
Ricardo Silvestrin - É um CD com a nossa produção musical. São 14 canções compostas em parceria por nós 3. Já compomos juntos há muitos anos. E continuamos compondo. Nosso contrato com YB prevê a possibilidade de um segundo CD. Quando se vê três compositores que também são poetas compondo, pode-se pensar que eles estão colocando a letra em evidência, acima da música. Ou que estão musicando os seus poemas. Mas não. Nosso trabalho coloca a letra no mesmo nível da música. O bom da canção é ouvir. Canção boa é aquela que é boa de cantar. Por isso o título, "Música legal com letra bacana". Isso define o que fazemos. Compomos letra e música. É o mesmo caminho, na história da canção, do George Gerswin e do Ira Gerswin, do Cole Porter, dos Beatles, do Caymmi, do Noel Rosa, do Caetano, do Chico, do João Bosco e do Aldir Blanc, do Gil, do Nei Lisboa, da Graforréia Xilarmônica, do Elvis Costelo, do Itamar Assunçao, do Lulu Santos... A produção e os arranjos são todos do Maurício Tagliari, do Nouvelle Cousine, o mesmo produtor da Nação Zumbi.

MPBHoje - Como está sendo a recepção do trabalho?
Ricardo Silvestrin - O CD está tocando nas rádios. Aqui em Porto Alegre, em praticamente todas as rádios legais, como Ipanema, Cultura, Unisinos, Atlântida. Em São Paulo, está lá na Eldorado e a YB mandou para várias outras. Saíram já matéria de capa do Segundo Caderno do jornal Zero Hora, é um dos CDs indicados pela última Bravo, saiu nos indicados do Estadão, saiu na Revista da MTV, vai ter matéria também no Estadão, saiu no site Gafieiras, e a divulgação continua. Fomos convidados para fazer show no SESC Pompéia, no dia 27 de abril. Vem muita coisa ainda pela frente. O show, como o CD, é com banda: baixo, bateria e guitarra.

MPBHoje - Você acha que o CD será mais ouvido do que seus livros são lidos?
Ricardo Silvestrin - Claro. Como disse, livro de poesia tem sido para uma audiência restrita. E música é para a mídia de massa. Mas, fique claro: não estamos fazendo música para veicular nossas poesias. Estamos fazendo porque somos músicos, porque gostamos de criar música. É para veicular nossas canções. Nem todo poeta consegue fazer música. E nem todo músico consegue escrever poesia. Nós, como outros que citei acima, fazemos as duas coisas. E cada uma no seu espaço. Nossos poemas estão nos nossos livros. Nossas músicas no nosso cd. Não temos nada contra poemas musicados. Mas não é o que fazemos. Criamos canções, letra e música.
Quanto ao CD vender mais do que já vendi em poesia é outra questão. Já vendi ao todo, levando em consideração que já publiquei 8 livros de poesia (5 adultos e 3 infantis), uns 20 mil livros. Todos de poesia! O CD vai ter que comer muito feijão para alcançar.

MPBHoje - A Editora Ameopoema incorporou, como elemento gráfico, uma prática mais próxima ao CD (nas capas, utiliza fotos dos autores). Por que isso aconteceu? Qual o objetivo?
Ricardo Silvestrin - Porque na poesia, mais do que na prosa, há uma voz. Há uma cara por trás do poema. Às vezes, o eu lírico se confunde com o eu, eu. A cara e a voz de Drummond, por exemplo, estão na nossa memória junto com seu texto. Isso aproxima do cantor, da banda.

MPBHoje - Como os poetas podem se engajar para aproximar a poesia do público?
Ricardo Silvestrin - Eu acho é que o público é que deve pensar o que deve fazer para se aproximar da poesia. Quem está perdendo mais é o público. Os poetas já descobriram como é legal essa arte.

MPBHoje - Você acha que a persistência de uma "visão parnasiana" da poesia prejudica sua popularidade? Se os modernistas iam contra isso, por que o panorama não se alterou?
Ricardo Silvestrin - Acho que a poesia é uma arte que tem público. Há vários sites. Vários livros editados. Várias revistas. Há poesia chata e boa. Como em toda a arte. O parnasianismo era muito lido. Todo mundo conhecia Bilac. A poesia moderna também continua sendo lida. Muita gente conhece Drummond, Bandeira, Quintana, Cecília Meireles... É claro que a arte literária, da poesia e da prosa, não é um produto de consumo de massa. A mídia livro não é uma mídia de massa. Mas há livros que vendem muito. Normalmente não são livros artísticos. São depoimentos, textos que caem no gosto de um público maior. Com algumas exceções, são livros cultos, artísticos.
Teve uma época em que era moda comprar (ler é outra história) "O Nome da Rosa", do Umberto Eco. Milan Kundera, Saramago, entre outros, viraram autores muito editados, vendidos. Mas são exceções frente à produção como um todo. Isso quer dizer que não há público para a literatura como arte, que há uma crise? Não. Há público sim. Livros com tiragens de mil exemplares, de dois mil. São mil pessoas que estão lendo. Isso também é mercado. O parâmetro contemporâneo é muito o do sucesso na mídia de massa. Um monte de gente que fica famosa por nada é o parâmetro. Apresentadores de TV, modelos, atrizes do programa tal, a Playboy. Há inclusive uma legião de celebridades desempregadas. Os parâmetros da arte são os da segmentação.
Tem um monte de gente que lê poesia. Um monte que lê conto. Um monte que vai a exposições de arte. Um monte que vai aos filmes fora do circuitão. A Ameopoema está nesse segmento. Não é uma editora para popularizar a poesia, para fazer quem nunca leu um poema na vida ler. Se isso acontecer, ótimo. Mas não é o foco. Criar mercado, seja em qualquer área, demanda um grande investimento. É possível fazer, mas aí o buraco é bem mais embaixo. A Ameopoema está chegando, e para isso foi pensada, no público que gosta e consome poesia. Nossos lançamentos têm vendido cerca de 100 exemplares por noite de autógrafos. No lançamento aqui em Porto Alegre, vendemos 300 livros. Em Curitiba, 100, e em São Paulo mais 100. Estamos na internet, na livraria virtual paubrasil (paubrasil.com.br/ameopoema), onde a venda vai indo bem. Tem público para poesia. O que é preciso é editar bons autores e levar seus livros até as pessoas interessadas no gênero.

MPBHoje - Na sua opinião, o diálogo entre música e poesia irá continuar acontecendo?
Ricardo Silvestrin - Não tem nada que não possa continuar acontecendo em arte. Se houver criadores interessados nisso, vai.

fonte: Site MPBHoje/ Ricardo Santhiago/ Agosto de 2005

 

 

acessos: 249326  | Site desenvolvido pela msmidia.com