LEITURA DA POESIA SELVAGEM

Até as metáforas cansam, por mais que funcionem nesse jogo de caça que é a leitura. Precisamos nos insurgir contra esse cansaço. Metáfora é fiambre, serve para salvar a vida no meio da madrugada. Uso metáfora quando ninguém está vendo, porque hoje pega mal. Tudo pega mal, hoje. O esnobismo intelectual viceja em todos os cantos. Mas para quem tem os sapatos rotos de tanto andar no pedregulho literário, isso não importa. Prefiro pegar a unha a poesia mutante de Ricardo Silvestrin, que nos engana pela leveza ("Não tenho todo o tempo que preciso para escrever um grande poema conciso"), nos seduz pelos materiais aparentemente concretos que usa (a cidade, o time de futebol, a personalidade pública, os filhos, os poetas) e nos impressiona pelo leite que tira das letras que formam palavras e denunciam essências, liberam fragrâncias e inventam ritmos. É uma poesia profunda por não negar sua aparência. E que se impregna na memória, apesar de sugerir que poderá ser esquecida.

PROPOSTA - Dividido em três capítulos - Manchas, Quieto no meu Canto e A Poesia de cada dia - o livro O Menos Vendido (Nankim Editorial, 336 páginas), de Ricardo Silvestrin, é filosofia pelo que entende da palavra, é proposta pela enorme conjugação de vetores da poesia brasileira, é reportagem pelo convívio criativo com os contemporâneos, e é só poesia pela nudez com que convoca o leitor. É muita coisa num livro só, que se lê como se estivesse viajando de trem. Foi assim comigo. Li numa redada, ou seja, numa só sessão de rede, na varanda, em sábado de mormaço, com besouros interrompendo o verso e pingos de chuva pedindo atenção.

ESTAÇÃO - Às metáforas, cidadãos. Poesia não tem fim da linha, apesar de tantos poetas definitivos que nos encantam por terem dito (acreditamos) tudo. Aparentemente, o trem parou para sempre (é o que nos parece, a nós, leitores exaustos de tanto verbo perfeito) numa estação fantasma, onde o poeta recém chegado tenta embarcar. Ele sabe que não haverá viagem de volta. Na cabine, ele pode ver os posters dos mestres com seus garranchos tantas vezes decifrados e consumidos. Mas o poeta da primeira viagem tem um trunfo: a janela, de onde se descortina a poesia, continua atuante, e a paisagem é sempre outra, por mais que digam que é a mesma. O que o poeta emergente não deve negar, é que tudo já foi dito e por isso mesmo outro tudo precisa ser reinventado, desde que não se volte à origem pensando que se chega a algum destino.

REVOLUÇÃO - Sabendo que o concretismo e o modernismo já esgotaram os cartuchos da insurgência, o poeta deita e rola : "Vou me rebelar contra mim/ tome isto, tome aquilo/ Ricardo Silvestrin". É o fim dos movimentos, há tempos decretado pela extrema diversidade da poesia. Não se faz um trabalho de demolição do que quer que seja se o edifício que conserva os poemas mortos não existe mais. É como se um condomínio inteiro de luxo estético e de contundência viesse abaixo pelo simples movimento de rotação da Terra. "Vão-se os papéis, ficam os textos", diz o poeta, que redescobre um outro monumento: a permanência, o que fica mesmo quando a cidade some, e a civilização entra em outra. Já não depende mais de livro nem mesmo de autores, mas desse sinal riscado em pedras virtuais de encantamento: nome de batismo para todas as coisas, leitura, sacrifício de quem se constrói fonema a fonema. É um paradoxo: nada importa nessa composição de eternidades.

LACRE - Como palavra não é jogo, embora a poesia se preste a isso (é o equívoco maior dos pseudopoetas), vamos decidir (escolher, precariamente) o que conta em Silvestrin. A paisagem mutante vista da janela fica retida na memória e se esvanece. É a poesia, dizem. Nem tanto. Cada fotograma percebido tem sua consistência, sua força, sua densidade. O poeta passa a mão recolhendo essas flores do asfalto, mas sua poesia não é o ramalhete, mas o chão que o gerou. Por isso é impossível, quando dois poetas se encontram, falar sobre poesia. É incomensurável o espaço ocupado pela poesia de cada um no latifúndio da criação. Quem inventa, está só (mesmo que precise de bandos, como os pássaros de arribação). Quando há o encontro, o lacre se solta, como diz Silvestrin, mas acredito que o vôo continua isolado. Queremos pomba, mas somos águia.

SACRIFÍCIO - O olhar do poeta fisga a isca do leitor fujão. Nessa poesia selvagem, a única lei é a leitura (para usar a metáfora do próprio poeta). Queremos chegar ao fim do livro, para saber onde quer chegar. Mas ele chega onde embarcamos, nesse trem liso como dorso de mar em dia nublado. Quando descemos, podemos até ter esquecido o livro em cima do banco. Mas os poemas nos acompanham, "como filhos que esquecem seu berço", como diz o poeta em uma de suas inúmeras metáforas. Sim, ele as usa sem nenhuma vergonha. Em dia claro, solar, da sua continência verbal: "um poeta se faz com sacrifício/ é uma afronta ao custo-benefício". O que torna O Menos Vendido um objeto essencial de uso, aparentemente descartável no confronto de tantas necessidades, mas insubstítuível pela denúncia que faz sem levantar bandeiras. A poesia vale pelo que lemos, não pelo que pagamos. Se vale tanto, vende, contrariando assim o boicote da idéia fixa (poesia não vende) sobre algo tão real quanto uma cerveja, com uma vantagem: jamais dá ressaca.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: foto de Marcelo Min. O assombro da leveza na cidade de concreto.2. Em "O Menos Vendido", sou citado como um dos poetas lidos pelo autor aos 16 anos. Meu livro de estréia, Outubro, está bem acompanhado por Oswald de Andrade. É a leitura generosa desse objeto não domesticável, a poesia.

Nei Duclós no site http://outubro.blogspot.com


 

 

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