O GÊNERO MENOS VENDIDO JÁ É O MAIS PROCURADO NO SÉCULO XXI

Se for mesmo que a poesia será a linguagem do século XXI já temos o seu arauto. Isso mesmo, como nos tempos medievais: o pregoeiro, o anunciador. As cigarras cantam e as formigas agradecem: terão o alimento para todos os invernos. O verso saído do inferno queimando um novo pentecostes já chega espicaçando: O MENOS VENDIDO. Tirando de prima um sarro com os derroteiros de plantão, aqueles propagadores da falácia, que o gênero poesia não vende. Ricardo Silvestrin, poeta criativo, ousa e desafia logo na capa mandando um recado no tom que permeia todo o livro: a ironia e o humor sardônicos.

Custa muito
para se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra sapatos pras crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.

Mas não pense que essa escolha seja apenas sua, personalista. Não. Há lugares para todos nessa festa. Os barrados serão chamados para (des)construir a nova fala. O falo do eu na conjugação até do falo em vós para caminhar entre a fanopéia, logopéia e melopéia. Desde os gregos, Apollinaire, Pound, mimeógrafos & que tais. Tradição, modernidade e a tal pós-modernidade aliadas às instigações filosóficas (para aqueles do ramo idealista) numa convivência harmoniosa e bem dosada. Não há excessos.

No plano formal não há nenhuma preocupação com metrificação e rimas. No entanto elas se fazem presentes em muitos poemas imprimindo um ritmo gostoso de ler. Em outros casos sentimos a melodia através de aliterações e assonâncias, mas as figuras de linguagem como a metonímia e a metáfora quase não se apresentam. Talvez em face do modelo direto, ou uma prática adquirida com a espartana arte do haicai, da qual o autor se insere como haijin. Daí vermos estampado ao lado de poemas minimalistas o "longo" Samba-enredo em homenagem ao poeta
japonês Matsuo Bashô, o Bananeira, que alude ao famoso haicai do sapo no lago. Veja o trecho final:

" Bashô, Bashô,
baixou Buda no pandeiro.
Saltou, saltou,
saltou o sapo a noite inteira.
Deixou, deixou,
em três versos um samba-enredo:

céu de fevereiro
quem tem samba no pé
se ilumina primeiro"

Irreverência e criatividade se espalham por todo o livro desse gaúcho que se socorre também de sua profissão de publicitário, acostumado a conviver com as exigências de mercado, para se debruçar em temas considerados residuais, ordinários, comuns. Tudo é matéria para sua inspiração e para construção do poema. Da bula de remédio a experiências psicanalíticas lacanianas. Da crônica diária de jornal a fala simples do povo com seu sábio adagiário. Mas, atente para um detalhe muito sutil: mesmo trabalhando com clichês, frases feitas, o poeta nos surpreende com algo novo, como um soco, um nockdown.

Anibal Beça é poeta, membro da Academia Amazonense de Letras, autor de Suíte
para os habitantes da noite, entre outros.


 

 

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