Quanto custa fazer um poeta?

RODRIGO BREUNIG, Zero Hora / Data:17/10/2006

É lei que, no mundo editorial de hoje, poesia não vende nada. Que poesia é um gênero complicado para o mercado e em última instância complicado até mesmo para o poeta.
Bem, o poeta Ricardo Silvestrin lança hoje um livro chamado "O Menos Vendido". O poema do título está reproduzido na capa do livro e informa, na linguagem descomplicada de Silvestrin, que "Custa muito / pra se fazer um poeta", e que um poeta "É uma afronta à relação custo-benefício". Ler "O Menos Vendido", 336 páginas de poemas inéditos de Ricardo Silvestrin, é um antídoto contra as leis do consumismo na literatura.
E é bom registrar que Ricardo está a caminho dos 40 mil exemplares vendidos, só com livros de poesia - 33 mil desses exemplares são de (quatro) livros para crianças, mas os (cinco) adultos estão todos muito bem esgotados.
- Sem auto-elogio, eu acho que poesia boa vende - ele diz.
O Menos Vendido é uma empreitada dividida em três seções. A primeira, Manchas, une escritos produzidos nos últimos 10 anos, poemas isolados, poemas
em série, investigações de linguagem. Um poema sobre a arte poética ("As rimas ricas estão cada vez mais ricas / e as pobres cada vez mais pobres") dialoga com a Poética de Aristóteles. Um poema que dá voz a um guardador de carros ("Sou um guardador de carros, / e eles são todos meus / no meu pensamento") dialoga com O Guardador de Rebanhos de Fernando Pessoa.
Há uma série com poemas compostos sob trilha sonora intencional: ouvindo Barry White, Paul McCartney, Jackson Five, Black Sabbath, Bob Dylan. Barry White evoca para Ricardo uma limusine. Black Sabbath evoca uma floresta.
A segunda seção do livro, Quieto no Meu Canto, tem o que Silvestrin chama de observações da vida em voz baixa, versos pequenos. Na terceira, A Poesia de Cada Dia, o autor quis saber como seria, a exemplo de Walt Whitman, escrever poesia todos os dias, para sempre, celebrando tudo. Agüentou 87 dias, de 22 de janeiro a 18 de abril de 2002. No poema de 28 de janeiro, cita "Seqüestros, assassinato / de prefeito paulista e petista, / juiz mineiro morto no carro". No dia 13 de fevereiro, lê Elefante, de Francisco Alvim, e gosta. No dia 2 de abril, fala de Frank Jorge e sua cara "de sobrinho de capitão" no Sarau Elétrico.
Porto-alegrense de 1963, formado em Letras, publicitário, professor, oficineiro, poeta premiado e traduzido, Silvestrin criou há dois anos, com o poeta Alexandre Brito, a Ame o Poema, uma editora que lançou 14 títulos de uma só vez e já tem mais 10 para lançar. O grupo musical de Ricardo, os poETs, tem repertório pronto para um segundo CD. Daqui a duas semanas deve entrar no ar o site www.ricardosilvestrin.com.br, com praticamente tudo que ele publicou na vida.
Projetos do poeta para o mercado editorial: Retrô, uma reunião de suas quatro primeiras obras poéticas; Culto e Grosso, crônicas sobre arte e cultura de sua coluna em Zero Hora; Poesia em Estado Crítico, ensaios; um livro de haicais inéditos; e Play, uma narrativa longa seguida de 13 contos. Afirma Ricardo Silvestrin:
- Tem um monte de coisa legal pra ler e as pessoas estão perdendo tempo. As pessoas precisam pegar um livro de poesia e simplesmente ler.

 

 

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