UM LIVRO BOM ANTES DE OUTRO por Ronald Augusto

A poesia de Ricardo Silvestrin impele o vento do pensamento, é subversiva como a rede, "este objeto da preguiça". Não há poeta mais inteligente do que ele no território ignoto da invenção verbal contemporânea. Mas, o que pretendo sugerir com inteligente? Não cabe aqui a lembrança do jovem hacker, muito menos evocar a imagem do erudito da hora e suas tiradas espirituosas. Assim como sua inteligência, a poesia de Ricardo Silvestrin pulsa em estado líquido. Ideograma e hemograma. Líquidos, o abraço da rede, o vento que sabe ser áspero ao embaralhar a ramagem dos signos.
Em nossa tradição poética predominam sólidos e gasosos. Por isso, como se dizia no meu tempo, não será difícil para o leitor "derreter-se" diante da beleza não regulamentada da poesia de Ricardo Silvestrin: um chega-pra-lá neste antagonismo. Poesia que não traz conhecimento, não produz saber, nem resolve enigmas. Ela nunca permanece no lugar onde até há pouco a deixamos. Vazante socrática. Agora, em cada poema, podemos apalpar o íntimo das coisas na pele mesma do aparente.
A linguagem de Ricardo Silvestrin, que se mantém intrinsecamente experimental desde o seu Viagem dos Olhos (1985), é um lance de puro pensamento-arte. Tudo o que os fast thinkers , baratas tontas, piolhos formados à sombra da opinião alheia, mais odeiam. Silvestrin troca idéias por palavras, ou seja, não se faz de rogado quando os efeitos paronomásticos exigem espaço para a sua dublagem paralela e, ao mesmo tempo, permanece atento àquele sentido em que no jargão cotidiano reconhecemos uma formidável equivalência entre linguagem e pensamento, tanto que em tradução a isso se cunhou a expressão "trocar uma(s) idéia(s)", que indica a intenção ou ato de conversar, de dialogar com outrem.
Para quem quiser ler/ver e comprovar com espírito livre isso e mais um pouco, basta percorrer, por exemplo, ex, Peri, mental (ameopoema editora, 2004). Aí, mais do que quatro livros estão enfeixados, na verdade, quatro comportamentos ou projetos distintos de linguagem. Em cada um deles, Ricardo Silvestrin inaugura e exaure uma chance de discurso poético. Em cada uma dessas vertentes - na tentativa de alargar os parâmetros representacionais do gênero -, o poeta experimenta uma formulação peculiar, uma variação, um desvio possível no curso e nos recursos da signagem do idioma literário.
Então, vejamos. Na primeira parte, "Faço minhas as suas palavras", Ricardo Silvestrin se diverte, enquanto nos perturba, com assemblages textuais cujos empréstimos provém de frases e palavras recortadas de jornais e revistas, restos de retórica da indústria cultural. O poeta nos desvela sentidos não-contabilizados através da historiografia fragmentária do jornalário e suas imposturas. E a propósito desses poemas revestidos de sintagmas ready made, não posso sonegar a menção a Oswald de Andrade, que no "Manifesto da Poesia Pau-Brasil" anota, à sua maneira telegráfica, isto: "No jornal anda todo o presente". Além disso, o poeta antropófago também inventou um livro onde fez suas as palavras-idéias do escriba Pero Vaz de Caminha. Mas, digamos que o trabalho de Oswald tenha sido mais fácil ou estava melhor pavimentado, pois há um sujeito - ou uma voz bem empostada - e interesses bem determinados materializados nos caprichos caligráficos da Carta do Descobrimento. Isto é, as tresleituras esquivas e equívocas que Oswald extrai de tal material, não obstante certa tonalidade crítica, acabam por sublinhar a beleza do quadro paradisíaco que o texto português seqüestra para o interior da linguagem enquanto se põe a descrevê-lo.
Por sua vez, Ricardo Silvestrin num tour de force precisou conferir coerência estética a essa massa incongruente de vozes e aparas de conflitos ideológicos, essa pasta de idéias-feitas, essas páginas à toa dos suplementos culturais, enfim, todo esse tolicionário em que se converteu parte considerável da imprensa escrita e que, ao fim e ao cabo, vai constituir a matéria do seu canto. À disposição de Silvestrin, essa carta de encobrimento dos transes cotidianos; a álacre sujidade da vida transformada em representação redutora. Assim, Ricardo Silvestrin re-embaralha a "linguagem do mundo" - círculo de algaravias e de interesses intransigentes -, o discurso pulverizado da inflação verbal, transformando-o em poema, isto é, "mundo da linguagem" que revê a cenografia estimulante da realidade num tranco de cunho estético a partir dos estratos sígnicos que a compõem. O conjunto de poemas da seção "Faço minhas as suas palavras", afirma-se a um só tempo como colagem e palimpsesto, ensaio de di-versão plagiotrópica, onde a intertextualidade, as cogitações desembaraçadas e a metalíngua desaforada com que o poeta desafia o leitor, fazem vacilar a ficção autoral e a originalidade que lhe é correlata. Uma amostra: "E ele diz:/ tudo é história./ Idéia de uma história universal/ de um ponto de vista cosmopolita./ Põe na conta./ Agora é que são elas:/ sobre a poesia,/ origem do drama,/ amor sublime:/ com os meus olhos de cão,/ o azul do céu/ só tem novidades."
Já em "Um", segunda seção de ex, Peri, mental, Silvestrin projeta poemas de apenas um verso. Com isso, o poeta dá por aberto o círculo inventivo do verso, fazendo com que ele se desdobre como estrutura significante, como que independente da poesia. Torna-se meio, media. Ricardo Silvestrin se transforma num vers-maker. No entanto, aqui, tal designação não sabe à pecha. Por outro lado, esses versos são de uma outra liga de aço. Nem metrificados, nem livres. Exalam uma música, por assim dizer, logopaica e indeterminada, feita de modulações resultantes de cortes-vírgulas e espaçamentos sugeridos em pontos que ocultam - ou mesmo abolem - a respiração versificatória ou frásica consagrada, cuja definição pressupõe o enclausuramento de um sentido completo. Preste atenção, leitor: "pé de página, orelha do livro, corpo do texto". Ritmo por justaposição.
O terceiro movimento de ex, Peri, mental, intitula-se "Coisa com coisa", e é composto de poemas que dialogam com questões pictóricas. Em nota ao leitor, Ricardo Silvestrin revela que as pinturas que motivaram os poemas surgiram, por sua vez, a partir de outros poemas. Trata-se, portanto, de transposições de mão dupla. De que modo o verbal mimetiza o não-verbal? Que tipo de recepção o icônico da plasticidade e a poética da visualidade inventam para o simbólico da palavra? Silvestrin propõe a não-eloqüência, a parataxe como procedimento de linguagem para representar a sobreposição de camadas de cores-pulsões, as texturas eloqüentes da pintura. Esses poemas se aproximam da linguagem do desenho, pelos traços mínimos que apresentam, pelo esboço que se configura em achado, ou seja: "fundo branco/ o par de chinelos"; "fundo vermelho/ você decidindo/ pra que lado seguir".
A última parte do volume, "Descurso", traz para o leitor a visada de Ricardo Silvestrin acerca de uma questão ainda hoje traumática para alguns círculos de poetas - em que pese a poesia concreta, matriz de todas as polêmicas, já ser uma bela cinqüentona -, a saber, a aparente incomunicabilidade da poesia de vanguarda. Com efeito, o prefixo des, como que se intrometendo no compósito que dá título à seção de encerramento de ex, Peri, mental, isto é, perturbando a normalidade e a nossa expectativa, parece nos antecipar não a desestruturação ou a transgressão do discurso, mas, quando muito, a visada enviesada, le parti pris auto-irônico que Silvestrin, fruidor de amplos repertórios poéticos, desenvolveu a respeito dessa e de questões similares. O curso natural da história literária, isto é, o novo e o velho consagrados à força de uma mediocrização inercial que foge ao debate, não interessa a Ricardo Silvestrin. O trobar clus das vanguardas não passa de um falso problema. Para Salman Rushdie - e suspeito que Silvestrin está de acordo com ele -, a "solução" para o texto difícil é render-se. Segundo o romancista, tão logo deixamos de cobrar o que falta ao texto, percebemos o que ele contém. O autor de É tudo invenção (2003) sabe que um poema de verdade não admite solução. Aceitando a "hesitação entre som e sentido" como uma das marcas da (des)comunicação poética, lemos em "Descurso" que a "letra lenta tenta ser clara mas é preta". Cada letra-pictograma (fonte tamanho 72 ou mais) da frase-verso ocupa o seu lugar no centro da página. O olhar háptico sobre a letra esquadrinha suas medidas com a minúcia de um tipógrafo. Silvestrin enxerga em sua dimensão visual a figura metonímica de um discurso ou de sua iminência. Na inscrição rupestre da letra a gestalt da idéia se apodera de um quadrículo virtual, um palmilhar indicial pelo branco da página. "Descurso" se inicia com um / l / cujo design se limita tanto com o icônico quanto com o simbólico. Pode ser lido/visto tanto como letra ou fonema, quanto como traço, rasura, pincelada "sem intenção alfabética".
Muito bem, agora preciso confidenciar algo ao leitor. Minha intenção de partida para este artigo era comentar O menos vendido (Nanquin Editorial, 2006). Entretanto, no meio do caminho, me dei conta de que ex, Peri, mental, em função de sua extrema abertura inventiva, não merecia uma notação "de passagem", do tipo rodapé; a respeito de semelhante livro, avançar uma ou duas palavras quer de elogio, quer de censura seria um ato de charlatanismo crítico. É certo que não desatei - nem poderia - todos os nós sugestivos que permanecem entranhados à trama dos seus signos. Ofereço ao leitor apenas minha leitura provisória, possível; um lance interpretativo em busca de interlocução. Com isso, quero dizer que não posso atravessar assim às pressas um livro como O menos vendido que, embora menos disruptivo no que toca ao tratamento com a linguagem, requer um igual investimento de atenção e pensamento. Pois, a poesia de Ricardo Silvestrin compele o leitor a pensar, para além dos limites da ligeireza retardatária, novos significados e formas a esse mundo no qual deitam raízes nossas inquietações, sejam as mais íntimas, sejam as mais superficiais.
Por outro lado, e sem querer escapar ao desafio, mas tão só adiando-o, assim espero, para daqui em breve, posso dizer que Ricardo Silvestrin com O menos vendido, mais uma vez nos coloca frente a frente com sua poesia de invenção que, felizmente, parece estar bem longe de estancar. Aliás, com esses dois livros aqui comentados de modo desigual, Ricardo Silvestrin começa a ficar em dia com aquela parte de sua obra poética que permanecia inédita. No entanto, ainda falta alguma coisa a ser publicada, a julgar pelo que consta no item projetos na nota sobre o autor que fecha o recente livro. Que bom. Mais beleza não regulamentada ele nos reserva.”

(blog Clareira na Selva - http://clareira.naselva.com/2006/12/um-livro-bom-antes-de-outro/)

Ronald Augusto Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).


 

 

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