Prefácio ao livro Palavra Mágica por Donaldo Schüler

“Ainda somos modernos? É a pergunta que me vem depois de ler o último poema de Palavra Mágica. Modernos nós nos declaramos em 1922, ainda que nossa vanguarda modernista não tenha sido mais do que um dos muitos movimentos renovadores que inquietam o Ocidente desde o século XII. Fala-se agora com insistência crescente de pós-modernidade. Seja difícil definir o pós-moderno, seja impossível determinar lugar e data de seu nascimento, como preocupação o pós-moderno já não pode ser recusado.

Sabemos, ao menos, o que é moderno? No emaranhado do debate teórico, localizemos um núcleo inquestionável: o moderno se constrói sobre a idéia do novo. Se concordamos nisso, fica fácil deduzir outras características: o moderno privilegia a vanguarda, a irreversibilidade do tempo, a angústia, a luta contra o desgaste e a morte. Valores modernos: a última doutrina, a última moda, o último estilo. Símbolo da modernidade: o ângelus novus produzido por Klee e analisado por Benjamin. De face voltada para o passado e irresistivelmente empurrado para o futuro, o ângelus novus vê ruínas – as ruínas do que já foi.

Para uma concepção pós-moderna, hostil à seqüência temporal, não há lugar para a ruína, nem para o novo, arquiteto de ruínas.
Progresso já não encontra acolhida na poesia de Ricardo Silvestrin. Bashô aparece ao lado de Cruz e Souza e de sonoridades populares. A aristotélica seqüência princípio-meio-fim se anula no oceano sem começo nem fim ou no redemunho, mistura de tudo. Conceitos como tempo e eternidade, alto e baixo, esquerda e direita, vida e morte, Oriente e Ocidente, velho e novo, vanguarda e retaguarda já não se opõem. Tampouco signo e referente. Palavras são densas como pedras e como pedras não conhecem além. Não se diminua a importância dessa visão. De Hesíodo a Freud pensamos com esquema dicotômico. Depois da ruína das essências, o universo reduziu-se a simulacros, sombras de sombras, sombras de nada. E isso, sem melancolia kafkiana.

Pós-moderno é termo inadequado como pós-clássico, pós-romântico, pós-realista. “Pós” declara o depois sem caracterizá-lo. Nada impede que o depois já se tenha anunciado antes.

Como designar de “pós” um movimento que recusa cronologias? O que não podemos é fazer ouvidos de mercador a um conjunto de fenômenos em filosofia, política, psicologia, arquitetura, cinema, teatro, ficção e poesia que já não cabe nas categorias do moderno.

Declarar Ricardo Silvestrin vanguardista seria obrigá-lo a ocupar um lugar na modernidade, o que não convém nem a ele nem à modernidade. Ricardo também não vem depois. Ele vem. Vem sem estardalhaço. (O estardalhaço é moderno!) Vem silenciosamente no caminho dos que trilham veredas fora do tempo e do espaço. Os versos de Ricardo, desafiadores, nos obrigam a pensar no que fazemos e somos.”

Donaldo Schüler
(Prefácio ao livro Palavra Mágica)


 

 

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