Ricardo Portugal sobre Bashô um santo em mim (haicais)

“Ricardo vai desfiando um fio de poesia que nos leva no embalo por si mesmo, poema por poema, para compor um conjunto que nos traz alguma coisa a mais, uma espécie de supra-haicai (Sol/Lua/Luz) que tematiza, a partir das unidades poéticas do livro, um momento cultural, estético, vivencial, onde se encontra o traço de união Ocidente-Oriente e toda a especificidade desta união-confronto no Brasil (Porto Alegre, “petit poa”) dos anos 80.

Ele já começa no nome do livro, em que Bashô é um santo (japonês) que baixa no Ricardo, à maneira da Umbanda. Introduz o livro com “poemas a esmo/introdução/a mim mesmo”, poema em que a relação (conflituada e sincrética) entre o ego (e o eu-lírico) da tradição ocidental e o não-eu budista é apresentada, abrindo a ego-trip transcendental que se desdobrará daí pra frente. Arte e vida, ego e discurso do ego, tudo se combina e se dissocia nesse haicai.

Então o livro se constrói, ideogramicamente, por SOL, LUA e LUZ, e nessa organização interna, novamente, Ocidente e Oriente se alinham. Se a formulação do ideograma chinês LUZ é a síntese de SOL e LUA, a luz do dia e a luz da noite estão exploradas por Ricardo ocidentalmente, como centros de momentos diferentes em nível de processo de individuação, de vivência e consciência de si no mundo. Assim, o SOL é a luz diária de um mundo claro, explícito, que vai sendo assimilado em experiência no impulso apolíneo, organizador. Do mínimo início “a trilha/da formiga/quem liga” aos seres da rua, da rua, da escola, de casa; as primeiras experiências com o insólito, no circo (o equilibrista); com expansão e dissolução (o mar); namoro de banco de praça, dúvida, perplexidade, no amor; em tudo sempre o lado de dentro se funde ao lado de fora, na experiência, que é junto seu próprio discurso, consciência de si e do mundo na trajetória da criança rumo à apreensão da condição de adulto.

Então se descobre a luz do lado escuro, o mundo lunar, instável, que ressalta avesso, contrastes, interiores; que funde as coisas com as sombras das coisas, dissolve e refaz certezas, mundo anti-apolíneo.

“céu escuro
lua branca
apago todas as lâmpadas”

Nota: contraponha este haicai de Ricardo, leitor, com aquele de Bashô que é citado na abertura do livro:

“acenda a luz de leve
eu lhe mostro uma beleza
a bola de neve”

LUA caminha entre a vivência da intimidade e da solidão, a presença (de si, repito) no amor e a ausência (idem) nas coisas da cidade noturna, às vezes vice-versa. LUA expressa um movimento de retorno, reflexo, a volta da espiral, pois LUA também pressupõe Lilith.

E LUZ é “ser/e/star”. É a síntese de SOL e LUA em consciência, que é expansão e beleza vividas. É o ser que se tornou (mais que estar) star. E star é dentro e fora, perto e longe. É, ocidentalmente, arte, mas é Buda também (o Gautama e o Bananeira... e talvez alguns outros).
E o último poema do livro (o do Bananeira) é o contraponto do primeiro (“poema a mesmo”) e também retorno. Por quê? Descubra você, leitor. O livro é todo fechadinho, nada aí é gratuito; há muito por descobrir nele.”

Ricardo Portugal, 1988, trecho de Yes, nós temos haicai.

 

 

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