Luís Augusto Fischer sobre Viagem dos Olhos

“Um drama típico de Porto Alegre serviu para Ricardo Silvestrin na composição de “32°C”, a temperatura ideal para fugir em direção ao litoral:

na rua da praia
todo olhar com
vida a mar

É com essa secura que Silvestrin está habituado: secura sintática e vocabular haurida na disciplina do hai-kai, de que é cultor, num procedimento que às vezes serve ao lirismo, como a primeira parte de “presente”:

conviver
viver con
tigo é andar
digo estar
por ora fora
de perigo

Um depoimento sintomático de sua poética está em “segundo tempo”, no qual o traço lírico ganha força tal que impugna a poesia-lamentação, em lugar da qual entra em cena uma crença declarativa:

ela me deu um beijo
nem me disse nada
essa menina amalucada
nem sabe que eu tenho asma

joguei fora minha corda
revólver formicida
não entro mais na história
dos poetas suicidas”

Luís Augusto Fischer, Um passado pela frente – poesia gaúcha ontem e hoje, Editora da Universidade (UFRGS), páginas 135 e 136, Porto Alegre, 1992.



 

 

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