Invenção de um poeta.

Ricardo Silvestrin inventou o poeta. Está lançando É tudo invenção, com ilustrações do premiado Luiz Maia, que já ganhou um Jabuti com os desenhos do livro Poemas para brincar, de José Paulo Paes. É preciso ser muito casmurro ou doente de pé e língua para não ser contagiado pela espontaneidade dessa obra. Silvestrin, poeta de "Palavra Mágica", Açorianos 1996/1999, já havia incursionado com sucesso na área infanto-juvenil com "Pequenas observações sobre a vida em outros planetas".
Aqui ele extrapola a graça. Conta - ou melhor, reconta - como as coisas e os prazeres da vida foram inventados. Não são poemas para refletir, mas para confiar. Extravagâncias da linguagem viram verdades. Uma verdade poética não precisa ser explicada, nem refutada. Ela é simples e inconseqüentemente sentida. Como um comichão nos olhos, que faz a criança (ou o adulto, com sua infância guardada) enxergar mais longe. Até porque as provas para o nascimento são desnecessárias - só cabem para a morte.
É tudo invenção oferece 25 poemas extraídos de situações aparentemente banais e que mostram como os pequenos mistérios são os mais deliciosos. O que é uma canção? O livro diz que são "palavras espichadas". Não há como contrariar. Aquilo que não se havia pensado antes, o escritor pensa primeiro. A rede teve inspiração em uma mãe embalando o bebê. O assobio veio da boca de um menino com dentes para frente. A realidade é criada mediante antiga amizade com a imaginação. O mágico toma de assalto o banco de dados. Silvestrin abre os vocábulos com espátula (ou seria com palito da picolé?). Percebe que o ponto de interrogação representa em sua linha um ouvido que escuta. A música surgiu da escala cardíaca; a meia, da divisão dos pés; o "tal vez", da indecisão entre o sim e o não; o cinto, da expressão "sinto muito" da calça caindo.
Em tom leve e humorado, com rimas que não forçam a barra das vogais, ritmadas como a batida dos pés, Silvestrin inventa o poeta como quem descobre a si mesmo. E, assim, em respostas naturais dadas a um filho, descobre o leitor.

Fabrício Carpinejar
(Site da ed. Ática)


 

 

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