Um contista

Ricardo Silvestrin é o excelente poeta que todos conhecemos: vários prêmios, carreira sólida e respeitada. Isso não o acomodou. Isso o fez pesquisar outras formas de expressão literária. Essa inquietação levou-o à narrativa, ao texto curto. Todas as virtudes que percebo no poeta estão presentes no contista: a essencialidade, em primeiro ligar; a palavra certa, em segundo. A arte, finalmente.

Sabendo por onde pisava, ele não caiu nas armadilhas dessa transição, e a mais perigosa é a de sobrecarregar a narrativa com imagens e metáforas. Outra não foi a razão pela qual o poeta Paul Valéry recusava-se a escrever a frase la marquise sortit à cinq heures; com isso queria dizer que era um poeta, e não um narrador.

No caso deste livro, seu autor desvestiu-se da roupagem do poeta, arregaçou as mangas e não teve problema algum para escrever a sua marquesa saindo às cinco horas, penetrando sem dificuldades no universo dos narradores. No caso, dos bons narradores.

Play, este título críptico à primeira vista, vai-se desvelando à medida em que a leitura avança: as personagens de Ricardo Silvestrin parecem estar ali, mudas e estáticas, a espera de que o escritor as acione. E quando as aciona, liberta-as para um mundo já dado, estranho, múltiplo, perigoso, freqüentemente absurdo: a dado momento do conto Preto no preto, o narrador diz: Dormi e acordei no escuro. Há dias já não sei se anoitece ou amanhece. Aí está o desvalimento ontológico que acompanha as personagens. Por mais que façam por entender a vida, a vida as ultrapassa, estabelecendo novos enigmas. Não há certezas, não há mais certezas. Mas, como está em Urubus, luto até o último instante.

Estamos, leitor, ante um narrador que inquieta, que exige uma segunda e uma terceira leituras, um narrador que nos mostra quem somos: apenas seres humanos desprotegidos, pasmos perante a vida e o mundo.”

Luiz Antonio de Assis Brasil
(orelha do livro)


 

 

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