Um mosaico de realidades

Narrativas cheias de poesia. Assim pode ser definido o livro "Play", do escritor gaúcho Ricardo Silvestrin, um amante da fragmentação dos textos poéticos, que agora se aventura nos contos. A obra é um lançamento da editora Record, com orelha assinada pelo também escritor Luiz Antonio de Assis Brasil.

A estréia de Silvestrin na prosa mostra sua habilidade em histórias curtas. Os textos, de efeito narcotizante, trazem enredos que desaconselham a leitura superficial, pois estão repletos de reflexões sobre a condição humana.

O autor é conhecido no meio literário como um poeta de renome, também dedicado às histórias infantis. Entre suas diversas publicações, as mais recentes são "O Menos Vendido" (2006), "ex, Peri, mental" (2004), "Mmmmmonstros!" (2005) e "É Tudo Invenção" (2003), estes dois últimos voltados para as crianças.

Moacyr Scliar assina a orelha de "Play", em que lembra que a realidade do Brasil está presente em muitas histórias do livro. Política, traição, relações sociais, liberdade, confiança, prisão, escolha, perdão: tudo o que é difícil definir ou julgar, o narrador prova que pode complicar ainda mais.

Para entender como, só mesmo apertando o botão play : ao todo, são 17 contos com uma voraz seqüência de palavras, que levam a um entendimento de que a vida não pode ser decifrada.

Metáfora
No texto "A Estrada", o narrador relata o drama de quem não pode voltar por um caminho diferente, somente seguir adiante. A metáfora envolve uma estrada vigiada por policiais treinados para impedir quem ouse burlar o sistema e um homem disposto a quebrar as regras. A trama mergulha na tentativa de definir a liberdade de forma simples, mas ao mesmo tempo reflexiva.

A agonia de um preso à espera de julgamento por um crime que não existiu é outra história que prende o leitor à narrativa. "(...) Sou acusado de deixar de ser eu. Não é uma acusação muito comum. E creio piamente que já se trata de uma causa perdida (...)", revela o personagem do conto "Preto no Preto".

O suspense da trama vem acompanhado das lamúrias de um homem que se sente só, sem noção de tempo e sem saber se um dia terá a tão sonhada liberdade novamente: "O silêncio aqui é como o escuro. Ambos não respondem nada", diz.

No conto "Leões", um serviçal incomum explica como cumpre a tarefa de alimentar leões de um rei que teme ser traído. A situação surreal é mostrada como rotina no reino em que as pessoas são jogadas diariamente na arena, caso sejam acusadas de traição. Fragilidade e medo são camufladas por uma apenas aparente coragem.

O estilo do texto é bem peculiar em alguns contos. "(...) as palavras são mesmo um labirinto que começa não se sabe onde e termina num lugar totalmente diferente de onde se partiu como se fosse possível andar por um caminho que anda sozinho(...)".

O trecho acima não é um erro. A falta de pontuação nas 19 páginas do texto que leva o título do livro é proposital. Vem para o leitor como a falta de placas de sinalização em uma via, com motoristas que optam entre correr ou vagar com seus carros, de acordo com a ousadia ou prudência de cada um. Assim, sem vírgulas, parágrafos ou qualquer outro sinal, o texto pode levar o leitor por diferentes caminhos.

Em geral, as histórias de "Play" se mostram como uma brincadeira – com o perdão do trocadilho – do escritor com o pensamento do leitor. "Play" é assim mesmo, um dispositivo para acionar a mente.

Gaúcho de 45 anos, Silvestrin recebeu o Prêmio Açorianos de Melhor Livro de Poesia editado no Rio Grande do Sul, em 1995, com "Palavra Mágica"; e repetiu a premiação em 2007, com a obra "O Menos Vendido". Esses foram apenas dois de outros prêmios mais que o escritor já recebeu.

Em seu currículo também consta a participação como colunista do Segundo Caderno do jornal "Zero Hora", de Porto Alegre, e no grupo musical Os poETs.

Confira

Ricardo Silvestrin
Play
Record 176 páginas
Quanto: R$ 29, em média

Trecho

"Ninguém poderia saber daquilo. Ele pensava. Quase pensava. Na sua cabeça de 8 anos de idade, era essa a informação que chegava. Nebulosa, em pedaços. Mais sentimento do que palavras. Algo espesso que se avolumava pelo peiro, dava uma sensação ruim na barriga, afrouxava um pouco as perninhas. Temia que tudo aquilo fosse para o rosto. Daí é impossível não verem que ele escondia algo. Iriam vasculhar com perguntas. Uma atrás da outra. Num método que sempre dava certo pelo cansaço. Como um boxeador que se protege de um soco cmo as duas luvas em frente ao rosto. Vem uma pancada, e ele segura. Mais outra e outra e outra. Agora uma na cintura, depois outras na orelha. A velocidade dos golpes o vence. Se fosse um por dia, conseguiria desviar de todos. Foi se olhar no espelho. O que escondia ainda não estava evidente na sua face redonda com cabelos loiros. Via um menino por fora. E por dentro, uma ruína. Mas, felizmente, estava lá dentro, muito bem guardada. Foi à escola. Brincou com os amigos no pátio. Voltou. Fez os temas. Contas e mais contas de matemática. O pensamento lógico, claro, calmo, dos números, acabou lhe fazendo bem. Pela primeira vez, sentiu que ali havia um refúgio. Se tirar 204 de 629, quanto fica? E se somar mais 328? Quando terminou, sua mãe o convidou para ir ao parque. Andou de montanha-russa. A coisa-gosma-cinza que estava lá dentro subia e descia. Quase saía pela boca. Ele gritava pra ver se ela ia embora e nunca mais voltava". Trecho do conto "Primeiro Delito"

Dani Costa
dcosta@redegazeta.com.br

 

 

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