Goulart Gomes sobre Play

O maluco beleza do Ricardo Silvestrin conseguiu me surpreender de novo! O seu livro de contos PLAY (Record, 2008), é uma seleção de 17 textos escolhidos a dedo. Brincando com diversas formas narrativas e com personagens impactantes, Silvestrin afirma-se como um dos melhores autores dessa minha geração, que nem sei mais sei se é nova ou semi-nova.

Suas influências são perceptíveis, de forma sutil, revelando uma herança literária de grande riqueza. Não pude deixar de lembrar do Guimarães Rosa, em A Terceira Margem do Rio, lendo o conto O Filme, na película cinematográfica que segue por todas as estradas, por todos os caminhos, na impossibilidade da partida do ator figurante. A Estrada daria inveja a Kafka, um enredo extremamente metafórico e com um toque machadiano: “A dúvida é irmã do infortúnio”. Preto no preto, a história do reformista, instiga pelo estado de dúvida do próprio personagem, auto-acusado de deixar de ser ele próprio. As metáforas continuam em Urubus, conto curto e de grande densidade, em que penetramos na insanidade do narrador belicoso. Já O Atraque nos remete a Bertolt Brecht, quando critica a nossa passividade e os abusos de poder a que somos submetidos, cotidianamente. Circular tem uma esmerada construção textual, que nos faz lembrar da Quadrilha de Drummond, pelo cruzamento dos personagens. Finalmente, Gaiolas, um interessante diálogo de dois irmãos sobre a Liberdade, em que Silvestrin nos impõe com uma verdade gritante: “Vai ver que tem passarinho que gosta de ficar na gaiola”. A voz do jogador de futebol em Preleção afirma, contundente: o torcedor quer que o seu time lhe dê todas as alegrias que ele não tem na vida. "Devia ter psicólogo pra torcedor também". Assim como "parece que não é todo dia que a gente está pronto pra felicidade".

Parabéns ao poeta, agora também prosador de excelência, por este seu novo livro. Se é real o que ele disse no conto Play, "como se as palavras pudessem não significar o que nasceram para significar", espero que Silvestrin continue não podendo deixar de ser escritor, e sempre nos presenteie com novas obras dessa mesma qualidade. Aguardemos, ansiosos, suas próximas “histórias".

Goulart Gomes

 

 

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