O homem que não queria ser rei

Ricardo Silvestrin publica seu primeiro romance

Embora poucas forças sejam tão presentes e concretas na vida humana quanto o poder, aparentemente as manifestações artísticas chegam com mais facilidade à sua essência quando apelam para o território abrangente e abstrato da parábola. É por esse caminho que segue O Videogame do Rei, primeiro romance de Ricardo Silvestrin. É a segunda incursão do autor na prosa de ficção, após os contos de Play, livro publicado ano passado.

Silvestrin, que também atua como músico e compositor no trio PoETs (leia mais abaixo), une em O Videogame do Rei – história contada em capítulos ágeis e com a linguagem direta e narrativa cujos ilustres antecedentes remontam à Bíblia e às fábulas – a tradição e a contemporaneidade. Da primeira, vêm a reflexão sobre o poder por meio da descrição dos atos do soberano de um reino sem nome (representativo de todos os governos, portanto) e acontecimentos que fogem, pela mágica da narrativa, do compromisso com a representação realista (o realismo é relativamente novo na tradição literária). Aos poucos, porém, elementos incongruentes vão sendo inseridos na história, remetendo à fantasia científica, servindo ao propósito dos contos e fábulas de reis e rainhas: falar do hoje de forma elíptica, em uma nação não-nomeada que bem poderia ser a nossa.

No país de O Videogame do Rei, a população, cansada da corrupção e das decepções com políticos de diferentes linhas, decide fazer uma última eleição e escolher um rei. O homem eleito no plebiscito para a volta da Monarquia (não faz mal lembrar que no mundo extraliterário já tivemos eleição semelhante há duas décadas) é justamente o maior crítico da ideia, um professor de filosofia que várias vezes protestou contra a iniciativa em entrevistas e pronunciamentos. Eleito rei, ele patrocina o desenvolvimento de um chip que, colocado no corpo dos ministros e altos funcionários, dá ao rei o poder de explodi-los com o apertar de um botão. Em vez de morrerem, contudo, os explodidos se reintegram – o professor de filosofia que o rei foi um dia espera que o trauma corrija vícios de raciocínio. O processo e a paciência do rei, contudo, não são infinitos: o número de vezes que cada um pode ser reconstituído é estabelecido por um saldo de pontos, como em um videogame, em que a pontuação dá direito a “vidas extras”. Se o saldo chegar a zero, a explosão é definitiva.

É do contraste entre as propostas do rei antes e depois do trono – de um filósofo crente na livre determinação do indivíduo a um tirano que quer mudar a cabeça das pessoas a força (e mudar a cabeça muitas vezes é sutilmente concordar com o rei) que se desenvolve o eixo de força de O Videogame do Rei, eixo que percorre os demais personagens, todos sem nome: a rainha, militante do feminismo, os ministros, e aqueles personagens para quem pouco muda, o povo da pobre nação – porque uma fábula se afasta no delírio imaginativo do autor, mas sempre retorna à condição humana demasiado humana de seu tempo.

CARLOS ANDRÉ MOREIRA, Zero Hora

 

 

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