Morfologia do Agora é que são elas

Ensaio no livro A linha que nunca termina – Pensando Leminski
(Ed. Lamparina, 2004)

Agora é que são elas é uma narrativa longa de Paulo Leminski, um romance, que parte de outro texto: Morfologia do Conto, de Vladimir Propp. Propp (1895-1970) lançou a primeira edição de seus estudos em 1928, em Leningrado. Era integrante de um grupo de estudiosos que ficaram conhecidos como os Formalistas Russos, companheiro de viagem, entre outros, de Jakobson. Um dos maiores méritos dessa geração de formalistas foi o de buscar métodos de exploração científica para os estudos da linguagem, entre eles, os estudos literários. A Morfologia do Conto nasce de uma analogia que Propp faz com os avanços para a época da botânica. Era possível a um estudioso entender perfeitamente as partes que constituem uma planta.

O trabalho de isolar as partes, de descrevê-las, de analisar as relações entre elas já tinha sido feito. A morfologia, o estudo das formas, na botânica, inspirou Propp a buscar o mesmo nas narrativas folclóricas, nos contos maravilhosos. Na sua época, os estudiosos de literatura centravam suas análises predominantemente nas questões de origem, de história. Mas Propp alerta que não se pode partir para a origem antes de se entender o objeto a ser investigado. Era preciso primeiro entender o que era o conto para depois ir analisar como se comportou através dos tempos. Assim, Propp parte de uma análise de um grupo de cem contos populares de origens diversas e descobre que todos eles se estruturam da mesma forma. Todos eles, segundo demonstra em seu livro, seguem uma mesma seqüência de ações a serem preenchidas pelos personagens. A essas ações ele dá o nome de Funções das Personagens. E descobre também que são em número fixo: 31. Sua análise é descritiva. As funções são retiradas da observação das narrativas, como se Propp descobrisse que há, na verdade, uma única narrativa que é atualizada por diferentes personagens em diferentes situações, criadas por anônimos, ao longo do tempo, pela tradição folclórica de diferentes nações. É quase como uma narrativa que se narra sozinha. O trabalho de Propp, bem como de todos os formalistas, foi sufocado pela Revolução Russa. Seu estudo só reapareceu trinta anos depois, numa tradução inglesa, influenciando, a partir de então, toda uma geração de estudiosos, notadamente, os semiólogos franceses. Haroldo de Campos resgatou um ponto de entendimento do Macunaíma de Mário de Andrade a partir do cotejo com as Funções das Personagens, no livro que chamou de Morfologia do Macunaíma. Haroldo mostra que há na estrutura da estória uma lógica fabular das narrativas folclóricas. A seqüência de ações comprova isso. Mostra a consciência de Mário de Andrade, que também estudou os contos populares, dessa lógica narrativa. E o curioso é que Macunaíma foi publicado no mesmo ano em que Propp publicou sua Morfologia. Ambos, sem saber, estavam estudando a mesma coisa, mas um publicou teoria e o outro, ficção. Um no Brasil, outro na Rússia. Impossível não lembrar do verso de Maiakovski, "em algum lugar, parece que no Brasil/existe um homem feliz". O Brasil nesse seu verso de contemporâneo de Propp é lá no fim do mundo, quase um lugar impossível. Esse Morfologia do Conto sobre o qual já se debruçaram gente como Claude Lévi-Strauss, Roland Barthes e Haroldo de Campos, todos no campo da análise teórica e ensaística, serviu para Leminski elaborar o diálogo criativo de Agora é que são elas. A narrativa abstrata de Propp, formulada a partir de narrativas concretas, é "reconcretizada" no romance de Leminski. O livro se divide em 31 capítulos. Leminski está propondo "leiam dois livros ao mesmo tempo, Agora é que são elas e Morfologia do Conto". Foi o que eu fiz.

Fui ver em que medida o livro de Leminski se aproxima e se distancia do livro-guia de Propp. Li a cada função e cada capítulo correspondente. A primeira constatação é a de que o livro de Leminski não apenas se refere ao trabalho de Propp, mas é construído em aberto diálogo estrutural com as Funções das Personagens. As funções são a base da seqüência do Agora é que são elas, contudo, a irrefutabilidade da sua seqüência é o que está na raiz do conflito que o livro aborda. Assim, há funções que se realizam plenamente nos capítulos, há outras que em que as ações dos capítulos invertem, mostram a impossibilidade de realização ou até mesmo ironizam a função. E há momentos em que não consegui fazer uma ponte entre a função e o capítulo. O que não invalida em nada o evidente diálogo entre os dois textos. Pelo contrário, essa ausência por um lado é prevista por Propp, que alertava para o fato de que algumas funções poderiam não estar presentes em alguns contos, mas que a seqüência seria sempre preservada. No Agora é que são elas a narrativa recupera as pontes entre as funções e os capítulos a todo momento, e o fluxo segue até o final. Por outro lado, a ausência tem um papel na narrativa do Leminski. A estrutura alterada faz para do tema da sua obra. O livro conta a história de um personagem. É narrado em primeira pessoa. O personagem conta a sua história que se divide entre três narrativas: uma festa, seu relacionamento com Propp e sua filha e seus encontros com uma menininha que conheceu na festa. Nessas três narrativas ele está envolvido com três personagens femininas chamadas Norma. Norma Propp é a filha de Propp, sua namorada. Norma também é a cantora, estrela da festa. E Norma ainda é uma garotinha que sabe tudo de astronomia e conta para ele várias histórias imaginárias sobre os seres dos planetas e estrelas. Propp é o analista do personagem. Há várias consultas, sessões de análise com Propp em que o personagem está em busca da sabedoria. O drama do personagem, além de tudo o que acontece com ele, é o de buscar a sua autoconsciência, queria saber se poderia ser do dono do seu destino ou se estava fadado a cumprir as funções predeterminadas por Propp. Poderia agir por si mesmo ou cada ação sua era no fundo, por mais diferente que pudesse ser, uma das tantas máscaras da função que ele fatalmente acabaria desempenhando. Submete-se à análise do Propp. A analogia com um psicanalista, com Freud, é só a superfície. O óbvio me veio à tona: ora, o que faz Propp? Analisa personagens! Analisa suas ações. Assim, o personagem vai se analisar com Propp para se entender. Ele não é um personagem com um drama. Ele é o personagem com um drama. É o personagem que encena a categoria personagem. É o herói, como é tratado pelo Propp real no Morfologia do Conto, deitado no divã do analista de heróis, o Propp da ficção. Seu drama todo é com as normas, se deve segui-las ou não. Se deve cumprir as funções da narrativa ou não. Daí os seus impasses com três Normas. Daí também os desvios da norma, as alterações dos capítulos em relação às funções. No final, a desintegração de todas as normas se dá nas ações das três personagens Norma. A cantora Norma se perde do herói que a buscava pela festa, isso depois de ela morrer e ressuscitar. A menina Norma toca fogo na casa e acaba com a festa. E Norma Propp, de dezessete anos, fica grávida. Seu relacionamento sexual com o herói não tinha penetração. O herói pensava que ela era virgem. O filho é na verdade de um amante com quem ela foge, o que acaba fazendo seu pai, Propp, se suicidar. O Propp real fez um estudo. Suas leis da narrativa não têm o caráter normativo. São como leis científicas que se extraem dos fenômenos. Não se estende a todas as narrativas, só aos contos folclóricos. Mas acabou sendo uma espécie de pai da narrativa, e é assim que é tratado no livro de Leminski. Além disso, os contos populares evidenciam um mundo estático, que se repete. Um mundo organizado. Um mundo de normas. Propp, o personagem, não resistiu ao golpe de ver sua filha, Norma, romper com todas as normas. A narrativa estruturada repousava sobre um mundo que permitia tal estruturação. O herói, ao ver Propp morto, coloca suas impressões digitais na arma que o suicida usou. Ele passa a assumir que matou o pai da narrativa. Ele agora é livre para contar o que quiser do jeito que quiser. Da impossibilidade da narrativa convencional faz-se uma nova narrativa, baseada no livre-arbítrio, e, portanto, na invenção. É isso que Agora é que são elas vai buscar lá na Morfologia do Conto: o fim da narrativa tradicional. E, a partir disso, reivindicar uma narrativa como a vida, em permanente mudança, uma narrativa contemporânea. Viva como a frase de Leminski. Com a agilidade quase de vídeo-clipe de suas seqüências. Com a sexualidade dos nossos dias. Com a simultaneidade de narrar três estórias numa só. Com a consciência de se saber narrativa, quase uma história-ensaio, totalmente intertextual. Universal, pois vai lá na raiz de todas as estórias. E comunicativa, capaz de ser lida como uma novela de amor.

Para encerrar, coloco aqui o resultado da minha investigação da morfologia do Agora é que são elas. São as 31 funções comparadas com os 31 capítulos. Pincei apenas as partes que ressaltam a coincidência, que podem ser lidas como aproximações, ou que marcam a diferença.

Morfologia do Conto

Situação inicial: o herói é apresentado.

Função I: um dos membros da família
afasta-se de casa.

Função II: ao herói impõe-se uma inter-
dição.


Função III: transgressão da interdição - uma nova personagem aparece no conto.


Função IV: agressor tenta obter informações, faz perguntas.

Função V: o agressor recebe informações.

Função VI: o agressor tentar enganar a sua vítima para se apoderar dela e de
seus bens.

Função VII: a vítima deixa-se enganar e
ajuda seu inimigo sem o saber.


Função VIII: o agressor faz mal a um dos
membros da família.
Função VIIIa: herói solteiro parte em busca de uma noiva.

Função IX: a notícia da malfeitoria (ou da falta) é divulgada; dirige-se ao herói um pedido ou uma ordem... ("Ivan parte em busca de uma jovem que desapareceu do horizonte paterno.")


Função X: o herói-que-demanda aceita ou decide agir

Função XI: o herói deixa a casa.
"Uma jovem é raptada e o herói parte na sua procura".
"Uma nova personagem entra no conto: provedor/doador. O herói a encontra por acaso na floresta, na estrada e recebe dela um poder mágico reparador do dano sofrido".

Função XII: o herói passa por uma prova(...) "Mostra-se ao herói um objeto mágico e propõe-se-lhe uma troca".


Função XIII: o herói reage às ações do futuro doador.

Função XIV: o objeto mágico é posto à disposição do herói.

Função XV: o herói é transportado, conduzido ou levado perto de sua demanda.
"O objeto da sua demanda encontra-se noutro reino. Este reino pode estar, por um lado, muito longe na horizontal, ou, por outro lado, muito alto ou muito baixo, na vertical".

Função XVI: o herói e o seu agressor defrontam-se me combate.


Função XVII: o herói recebe uma marca.

Função XVIII: o agressor é vencido.


Função XIX: a malfeitoria ou a falta são reparadas.
"O morto ressuscitado".

Função XX: o herói volta.


Função XXI: o herói é perseguido.

Função XXII: o herói é socorrido.

Função XXIII: o herói chega incógnito a sua casa ou a outro país.

Função XXIV: um falso herói faz valer pretensões falsas.

Função XXV: propõe-se ao herói uma tarefa difícil.


Função XXVI: a tarefa é cumprida.

Função: XXVII: o herói é reconhecido.


Função XXVIII: o falso herói, ou o agressor, o mau, é desmascarado.


Função XXIX: o herói recebe uma nova aparência.

Função XXX: o falso herói ou agressor é punido.

Função XXXI: o herói se casa e sobe ao trono.

Agora é que são elas

Situação inicial: o herói fala de suas mulheres.

Capítulo 1: o herói vai à festa.


Capítulo 2: Propp disse que o herói, como era o narrador, não seria reconhecido na festa, pois os heróis dos contos maravilhosos são todos em terceira pessoa. Mas nosso herói narra em primeira.

Capítulo 3: Já houve a transgressão no capítulo anterior. Aparece o mordomo, que mente ao herói.

Capítulo 4: o herói revela quem é Propp; fala das funções e do drama de ter que realizá-las. Há revelações, mas não foram perguntadas por um agressor.

Capítulo 5: o mordomo diz que está sozinho na casa, mas aparece Norma, a cantora.

Capítulo 6: o herói pergunta a Propp por que não tem um nome como todos os outros personagens.

Capítulo 7: o herói sai da casa da festa, que houve, convencido de que não houve festa alguma.

Capítulo 8: Propp obriga o herói a falar sobre o que não queria. O herói acaba vomitando.
Norma Propp diz para o herói que o ama.
Herói: "Como não percebi logo que encontrá-la
era a variante B da função 9, "herói se apaixona pela filha do pai?"

Capítulo 9: o herói conta suas transas com Norma Propp; ela não queria penetração.

Capítulo 10: o herói volta à festa que recomeça; várias coisas se repetem.

Capítulo 11: o herói deixa a casa onde acontecia a festa.

O herói encontra uma menina, Norma, no jardim da casa.


Capítulo 12: "Cuidado, pode ser que eu troque você por um outro brinquedo", diz a menina ao herói.


Capítulo 13: o herói, depois de ouvir a menina, vai embora da festa.

Capítulo 14: Norma, a cantora, é sacrificada na festa. A menina Norma diz ser a mãe da cantora muito mais velha do que ela.


Capítulo 15: o personagem volta ao salão de festas empurrado por Propp. A menina o leva para baixo: " O dedinho me chamou em direção ao subterrâneo. Comecei a descer..."

Capítulo 16: o mordomo diz que o nome do herói não está na lista de convidados da festa.


Capítulo 17: o herói é perseguido a tiros.

Capítulo 18: o herói começa a se rebelar; não que mais ser regido por Propp.
Norma não pára de falar de Bernardo, um possível amante.

Capítulo 19: Norma, a cantora que havia sido sacrificada, ressuscitou.


Capítulo 20: o herói e Norma voltam à festa, anunciando noivado.

Capítulo 21: "O narrador é um fantasma, ele mal-assombra as histórias, elas poderiam passar muito bem sem ele".

Capítulo 22: o herói tem um caso com Mai, um socorro para amenizar a frieza com que Norma Propp o estava tratando.

Capítulo 23: o herói volta ao velório de Norma, a cantora, no escuro para vê-la no caixão.

Capítulo 24: Norma, a garotinha, diz que a Norma cantora nunca existiu.

Capítulo 25: Propp diz ao herói que as funções tinham sido roubadas de outro estudioso, não eram criações suas.

Capítulo 26: o personagem quer mandar todas as normas pelos ares.


Capítulo 27: o herói volta à festa, avista Propp, que não o reconhece (suprema ironia; o Propp não fez se cumprir a função, ele mesmo não reconheceu o herói).

Capítulo 28: o herói quase diz que vasculhou a agenda de Norma Propp e não achou nenhum nome ou telefone de Bernardo. Queria provar que Bernardo era só uma invenção.


Capítulo 29: segundo o herói, Norma Propp a chamou de Bernardo.

Capítulo 30: Propp diz que o herói não é necessário, que não há função para ele.

Capítulo 31: Norma Propp, que estava grávida, não casa com o herói. Ao contrário, foge com Bernardo. A menina Norma incendeia a casa da festa. Norma, a cantora, desaparece. Propp se mata. O herói põe as impressões digitais na arma e chama a polícia dizendo que matou um homem.
"Não quero a vida eterna. Quero o inferno."

 

por um prática teórica
meteórica lucidez
ensinando o gesto
a entender o que fez
aprendendo com ele
a fazer o que diz
palavra e gesto
cada um com seu texto
façam o que eu digo
digam o que eu fiz

Ricardo Silvestrin


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