Inteligência artística

Uma das crônicas publicadas na minha coluna quinzenal, às sextas-feiras, no Segundo Caderno do Jornal Zero Hora.

Um grande artista é movido no fundo por uma grande inteligência. Tem a criatividade, a sensibilidade, mas quem governa é a inteligência. Digo inteligência não como algo frio, enciclopédico, nerd. Mas como capacidade de avaliar, de escolher, de fazer o balanço do que serve e do que não serve, de tentar entender o que faz. Vi o Paulo Autran sendo entrevistado pela Ivete Brandalise na TVE. Quando perguntado como ele criava a interpretação dos seus personagens, ele respondeu que não havia nada de muito especial. Apenas lia várias vezes o texto, entendia, via que função o personagem desempenhava na história e formulava para ele o significado racional do que deveria interpretar. A interpretação teatral começa para ele na interpretação, no entendimento, do texto. De posse disso, e só depois de estar de posse disso, começava a exercitar até acontecer o momento em que ele tinha o estalo criativo, que achava a porta, que o personagem saía de dentro para fora. E isso não tinha um tempo para encontrar. Muitas vezes a temporada já tinha começado e só depois ele achava a interpretação forte de verdade. Mais uma vez a inteligência: primeiro para entender, depois para esperar. Método semelhante empregava o Frank Sinatra. Antes de gravar ou cantar uma música num show, passava alguns dias lendo a letra. Estudava, entendia a construção do texto, a função de cada palavra. Quando cantava, revelava tudo isso para nós. Suas pausas, as partes mais faladas do que cantadas, a hora de desenhar a melodia, a hora de subir, de ser breve, de cantar mais alto, mais baixo, tudo vinha do entendimento que ele tinha do texto. Era, antes de um cantor, um leitor. Seu canto lia o texto para ouvirmos a sua leitura. O ator francês Gérard Depardieu também disse que a sua interpretação teatral parte da leitura das nuances do texto. Para ele, interpretar é encontrar uma maneira bonita de dizer o texto. É uma questão de achar as pausas. Como na música, uma questão de ritmo, de duração. Pausas breves, longas, médias. A busca de cada artista é desenvolver esse saber sobre o que faz. Um saber que muitas vezes se transforma com o tempo. Daí os artistas com fases diferentes, com reviravoltas, os que são praticamente vários durante uma vida. Mas tem os que buscam a vida inteira o mesmo caminho. O poeta João Cabral de Melo Neto disse que sua poesia toda tem como princípio a descrição. Seus poemas vão descrevendo por vários ângulos diferentes um objeto, uma paisagem, uma pessoa, uma cidade, o mar, o canavial... Como uma câmera que passeasse em torno das coisas e a cada nova posição fosse revelando formas diferentes de ver. E como as coisas são infinitas e as formas de ver também, sua poesia é sempre a mesma e sempre outra. Uma necessidade de pensamento mágico, infantil, faz das pessoas esperarem do artista que ele feche os olhos e do nada incorpore uma idéia, um personagem, uma canção, trezentas páginas. Tem até os que incorporam, mas esses quase sempre não são os grandes artistas.


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