Escrita
A personalidade linguÃstica e os diálogos
Marcelo Spalding
Ando às voltas com a finalização de um livro que será lançado em breve, DI�LOGOS , então hoje vou reproduzir uma parte do curso que trata exatamente deles: a linguagem dos personagens nos diálogos.
Assim, procure dar personalidade linguÃstica aos personagens, de forma que a gente saiba quem está falando apenas pela linguagem, pois as pessoas não falam todas da mesma forma, e isso deve se refletir no seu texto. Se o personagem é gaúcho, é possÃvel que ele use não apenas expressões mais estereotipadas como "bah", como também palavras como "guisado", "sinaleira" e "trilegal". Se o personagem é paulista, há grande chance de ele começar uma frase com "então". E se o personagem é português, ele deve utilizar menos locuções verbais. Vale a pena, aliás, conferir neste vÃdeo como nossos sotaques podem ser tão diferentes:
VIDEO
Para dar personalidade linguÃstica a um personagem o autor deve observar o vocabulário , a organização sintática  (gaúcho usa "tu foi", por exemplo"), as expressões idiomáticas  (bah, uai) e eventuais alterações semânticas  ("não tem portância", "nós semo", etc). Evite alterações ortográficas, pois na fala não há elementos ortográficos, e sim fonéticos. Cuide, também, ao tentar reproduzir na escrita o sotaque, evitando o estereótipo e o preconceito linguÃstico.
Um bom exemplo de reprodução de sotaque em um texto literário é este abaixo, do livro Enchentes, de Guido Kopittke (trecho impróprio para menores de 18 anos).
Margot carregava nos erres, fazendo sotaque francês. (...) Despiu-se com pressa, olhando para o teto sem ver as goteiras que se infiltravam pelas gretas das tábuas empenadas. Uma sensação de sufocamente oprimia a garganta da moça.
E essa chuva que não para, e esse velho que não goza, a gasolina não vai esperar, falta comprar os cavalinhos de pau dos meninos, mas valeu pelo dinheiro, "ai, metê tudo, meu machô", nunca mais te vejo, velho burro, perdão pela Margot, Paizinho, aquela cama nojenta, tosse filha da puta, catarro filho da puta, "ainsi, ainsi que j'aime", agora está tudo no lugar, dinheiro no bolso e doente no hospital, fedor de remédio, "ui, ui que pau gostosô, mon amour", Mãezinha está feliz, as crianças sem medo, goza de uma vez, seu velho brocha, daqui ao porto são dez minutos.
Note que, no trecho acima, a personagem é caracterizada por uma tentativa falsa de parecer francesa, por isso os trechos sem aspas são os pensamentos dela, com escrita normal. Entretanto, quando ela fala com o homem está marcado entre aspas, e aà há uma tentativa de reproduzir o jeito dos franceses falar, com algumas palavras do idioma e o acento oxÃtono. O estereótipo, no caso, contribui com a construção da personagem, já que não é uma estrangeira no Brasil, e sim alguém forçando um sotaque que desconhece.
Para terminar, deixo outro vÃdeo do Porta dos Fundos sobre o sotaque/pronúncia de termos estrangeiros.
VIDEO
19/04/2017
Comentários:
Caro Marcelo:Tenho andado meio perdido com o
material do curso.Confesso que hoje foi a primeira vez que gozei com o texto. É que tenho
uma ideia de um conto com protagonistas de uma
casa de massagem.Muito bom o diálogo.Rubens Furtado é o meu autor favorito.
Manuel M. Pereira , Rio de Janeiro 24/06/2017 - 17:26
Envie seu comentário
Preencha os campos abaixo.
Marcelo Spalding
Marcelo Spalding é professor, escritor com 8 livros individuais, editor de mais de 80 livros e jornalista. É pós-doutor em Escrita Criativa pela PUCRS, doutor em Literatura Comparada pela UFRGS, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS e formado em Jornalismo e Letras.
Colunas de Marcelo Spalding:
Selecione
Bambino a Roma, um passeio pela infância de Chico Buarque na capital italiana (31/07/2025) Vale a pena participar de Bienais do Livro? (18/09/2024) O uso de pseudônimos para o escritor (04/07/2024) O que faz um livro ter êxito em concursos literários (05/10/2023) O ChatGPT e a Escrita Criativa (01/07/2023) Novas voltas em torno do umbigo (02/01/2023) Entrevista com Marina Mainardi, vencedora do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica - Narrativa Longa de Fantasia (03/11/2022) Cursos de escrita on-line ao vivo — 13 dicas para aproveitar ao máximo (20/06/2021) Como funcionam, o que diferencia e como escolher um curso online (17/05/2021) A ambientação em textos futuristas (10/07/2020) A ambientação em textos históricos (10/05/2020) A personagem mais importante de um texto (04/01/2020) Literatura e interatividade: os ciberpoemas (04/10/2019) Politicamente correto ou potencialmente ofensivo? (09/05/2019) Narrador e foco narrativo (12/01/2019) Capacidade de expressão X capacidade linguÃstica (26/05/2017) A personalidade linguÃstica e os diálogos (19/04/2017) Reaprender a olhar OU a praga dos celulares em shows (26/01/2017) “Temos de discutir sobre o que queremos com e dos nossos livros” (24/06/2016) “Uma escola sem biblioteca é uma escola mutilada” (17/03/2016) "Uma única professora, comprometida e bem informada, salva a leitura numa escola" (05/02/2016) "A Literatura é um Poderoso processo de Humanização" (19/01/2016) José Saramago X Paulo Coelho (10/01/2016) Por que não tenho leitores, ouvintes, público? (29/05/2015) Por que insistir na carreira de escritor? (01/03/2015) A Feira do Livro de POA é muito mais que a Feira (03/12/2014) Oficina literária é como uma aula de piano, se aprende técnicas (01/12/2014) Para que servem oficinas literárias? (07/10/2014) O mercado editorial sob a ótica dos escritores VII: escritora de Caxias mostra a força da literatura fora das capitais (20/06/2014) O mercado editorial sob a ótica dos escritores VI: "O importante sempre é o caráter do escritor e a qualidade de seus livros" (17/06/2014) O mercado editorial sob a ótica dos escritores V: "Sem o mediador, a leitura não se estabelece como valor e desejo" (12/06/2014) O mercado editorial sob a ótica dos escritores IV: A leitora que virou professora que virou escritora (10/06/2014) O mercado editorial sob a ótica dos escritores III: a escritora que conhece e-books como poucos também quer publicar em papel (06/06/2014) O mercado editorial sob a ótica dos escritores II: "Não me sentiria um escritor sem ter o meu nome impresso numa capa" (04/06/2014) O mercado editorial sob a ótica dos escritores (27/05/2014) O desafio de publicar (21/02/2014) Sobre a crÃtica ao texto (21/02/2014) A literatura infanto-juvenil que vem de longe (28/01/2013) Contos Gauchescos chega ao cinema (21/11/2012) 3 dicas do mestre Assis Brasil para a escrita criativa (25/10/2012) Literatura, Interação e Interatividade (24/08/2012) Uma nova forma de captação para projetos culturais (17/07/2012) O Guia Prático do Português Correto da L&PM (17/06/2012) O fim do livro didático (28/05/2012) Contra a Cavalgada do Mar (22/02/2012) A capacidade de expressão e o ensino de lÃngua portuguesa (02/02/2012) Entrevista com Jane Tutikian, patrona da Feira do Livro de POA (10/11/2011) Yes, nós queremos preservar a lÃngua portuguesa (16/05/2011) História da leitura (VI): o iPad aponta o futuro? (14/04/2011) História da leitura (V): o livro na Era Digital (14/04/2011) História da leitura (IV): a ascensão do romance (11/04/2011) História da leitura (II): o códice medieval (10/04/2011) História da leitura (III): a imprensa de Gutenberg (07/04/2011) História da leitura (I): as tábuas da lei e o rolo (17/03/2011) Escritora fala sobre a vida literária em Osório (31/01/2011) O livro Toy Story para iPad: uma revolução? (07/01/2011) Prêmios, panelinhas, tapinhas nas costas e afins (13/12/2010) A contÃstica madura de Cleci Silveira (15/11/2010) Autobiografia de um ex-negro (31/10/2010) Por que os artistas devem dar seu trabalho de graça (27/09/2010) Luiz Antonio de Assis Brasil (08/09/2010) A quem interessa uma sociedade alienada? (31/08/2010) O fim do livro? (16/08/2010) Uma novela para ler de graça (20/02/2010) O videogame de Ricardo Silvestrin (25/12/2009) A arte de narrar a História (25/11/2009) Um papo histórico com Affonso Romano de Sant'Ana e Marina Colasanti (09/11/2009) Pelo fim do complexo de vira-latas (20/10/2009) Pelo fim do complexo de Vira-Latas (03/10/2009) O Guri de Uruguaiana (25/09/2009) Como será a literatura na internet? (16/09/2009) Cravo e Rosa para adultos e crianças (07/09/2009) Literatura e interatividade: do Jogo da Amarelinha ao Jogo do Chá (27/08/2009) A cauda longa dos artistas somos nós (11/06/2009) Quanto custa rechear seu CurrÃculo Lattes (05/03/2009) Dicas da semana para o Porto Verão Alegre IV (12/02/2009) Dicas da semana para o Porto Verão Alegre III (06/02/2009) Dicas da semana para o Porto Verão Alegre IV (06/02/2009) Dicas da semana para o Porto Verão Alegre II (30/01/2009) Dicas da semana para o Porto Verão Alegre I (22/01/2009) E a Turma da Mônica cresceu (15/01/2009) Aperte o play (14/01/2009) Ideia acordou sem acento (05/11/2008) Literatura é coisa pra jovem? (03/09/2008) Literatura é coisa para jovem? (03/09/2008) O inventário da dor de Lya Luft (24/06/2008) Geração Coca Zero (12/06/2008) Palavras e silêncio ao espelho (20/05/2008) Ideia acordou sem acento (11/05/2008) Literatura vira motivo de festa (26/03/2008) Olhos de morcego para enxergar além (13/03/2008) Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha (06/03/2008) Preconceito LingüÃstico no Romance Cidade de Deus (10/02/2008) O que a greve dos roteiristas tem a nos ensinar (09/01/2008) Literatura policial ou literatura bandida? (03/01/2008) Por detrás dos números (24/12/2007) Sobre a milésima segunda noite (16/12/2007) Qual é, afinal, a melhor idade? (27/11/2007) Com a palavra, as gordas, feias e mal amadas (20/11/2007) Poder, sexo e fé na história dos vendilhões (20/11/2007) Escrever não é trabalho, é ofÃcio (20/11/2007) Sexo, drogas e rock'n'roll (13/11/2007) Livros do bem e do mal (13/11/2007) Um Jabuti para o miniconto (12/11/2007) Micronarrativa e pornografia (21/03/2006)
Os comentários são publicados no portal da forma como foram enviados em respeito
ao usuário, não responsabilizando-se o AG ou o autor pelo teor dos comentários
nem pela sua correção linguística.