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Reflexão

Mia Couto no Fronteiras do Pensamento 2020
Soraia Schmidt

A edição do Fronteiras do Pensamento 2020 tem como tema a Reinvenção do Humano. Mia Couto é um dos conferencistas e intitulou sua fala “Em defesa da Impureza”. Com sua linguajem criativa, poética, profunda, nos brindou como uma brilhante travessia por entre ideias, valores e concepções da vida. Trouxe reflexões sobre as fronteiras. Fronteiras entre o humano e o não humano, fronteiras entre os humanos: a diversidade e heterogeneidade das culturas, religiões, sociedades; a tecnologia e o poder e o momento atual, a pandemia do coronavírus. Nos instigou a pensar sobre o que define o humano, o que é ser humano. O que nos constitui? Somos todos iguais na categoria humano?

Mia Couto diz que “quando escolhemos dizer no singular – humano –, corremos, o risco de definirmos de uma forma redutora um conceito que é básico. Porque a primeira condição daquilo que é humano é exatamente o oposto. Ser humano é o indefinível, sua heterogeneidade e profunda diversidade.” Reitera que o importante não está na verdade de cada cultura, mas sim na fronteira entre elas, na cosmogonia. Por isto a defesa da impureza. Cada ser humano é uma criatura única com a sua história, cultura, religião, crenças e visão de mundo, o que dará diferentes identidades ao que é humano. Nos conta que em Moçambique, há muitas culturas que não definem a fronteira entre o humano e o não humano, pois não existe um espaço entre os vivos os mortos e as coisas. Mesmo os inanimados são animados, ou seja, têm vida: a casa, as árvores, a terra, as pedras, o rio. E falam. Não é só uma questão poética, mas sim uma concepção de mundo. Temos não só que respeitar, mas repensar. Não com superioridade, mas com humildade. Há verdade aqui, não são meras histórias inventadas. Há humanidade. Um jeito diferente de ser.

A concepção do que é humano foi construída ao longo da história. A religião arquitetou-a a partir de um Deus, a nossa imagem e semelhança, e atuou junto da ciência para inventar uma natureza humana distinta, singular, ideologicamente definida. Atualmente, a ciência busca desvendar a nossa identidade a partir de um pressuposto de que os genes são determinantes de tudo que somos. Entretanto, os genes só se expressam quando interagem com outros fatores que são igualmente determinantes, como o meio ambiente, alimentação, estilo de vida, etc. Então, não é uma questão tão simples. A diversidade, mais uma vez se contrapõem a uma ideia de pureza no humano.

A ciência descobriu que a maior parte de nossas células não são, realmente, humanas. São constituídas de bactérias, vírus e fungos. Foram essas criaturas que deram origem ao nosso corpo e a vida no planeta. Nas palavras de Mia: “Isso quer dizer que é, sobretudo, um não humano, que nos ajuda a sermos humanos”.

A visão no singular do humano é determinada por um padrão purista, do poder hegemônico, socio-político-econômico, que visa manter-se na dominância, a qualquer custo, a despeito da viabilidade da vida, humana e do planeta. Disseminaram a ideia de que somos uma sociedade global para nos sentirmos pertencentes ao mundo e ligados entre nós, porque temos acesso à internet, Twitter, Facebook ou WhatsApp. A tecnologia nos aproximou, sim, mas não nos tornou iguais. Mais da metade da humanidade não tem acesso à internet. Muitas pessoas não têm água potável, esgoto e o que comer.

E então, surgiu, de repente, o COVID-19. Um vírus que invadiu nosso corpo da mesma forma que invadimos as fronteiras dos demais seres, vivos e inanimados que coabitam o planeta. Mortalmente. Mostrou nossa fragilidade e vulnerabilidade enquanto espécie. Afrontou nossa inabalável fé na tecnologia e nas nossas certezas. Evidenciou que a nossa supremacia sobre as demais espécies não é infalível. Não bastaram os evidentes efeitos climáticos que nos assombram diariamente, com a destruição de biomas que garantem a vida na Terra. Mas será o suficiente para uma mudança de paradigma?

Mia Couto, poeticamente, contou a história da mitocôndria. Uma organela que se refugiou dentro das nossas células quando ainda nem éramos “nós”. “Foi o primeiro grande refugiado do planeta e escapou de uma catástrofe, o acidente que gerou o oxigênio na Terra e o nosso céu azul. Essa refugiada não atravessou, exatamente, continentes, mas atravessou a parede das células hospedeiras e fez essa viagem, fez essa travessia e nunca foi forçada a falar a língua das células hospedeiras. E ainda hoje, milhões de anos depois, bilhões de anos depois, essas células e essas mitocôndrias convivem e não podem viver longe umas das outras.”

O COVID-19 veio para relembrar que os grandes maestros da vida no planeta são os vírus. São eles que se incorporam aos genes e mudam o curso da evolução e da nossa história. É assim desde os primórdios da vida no planeta. Precisamos entender que, para a evolução, o que é mais poderoso e mais forte são as trocas simbióticas. Não a dominância. Não a eliminação do mais fraco.

Compartilho com a ideia de que, para reinventarmos o humano, precisamos assumir que somos capazes de sermos outros e retirar a crença de que o homem é o centro do universo. Precisamos nos livrar das certezas e não ter medo. Romper fronteiras, ser humano no plural.

“Na educação das novas gerações isto é o que uma criança deve aprender: que é feita desta diversidade do humano e do não humano. Essa criança dificilmente será manipulada quando for adulta por movimentos que se inspirem nesta ideia da pureza racial religiosa ou da pureza étnica.”


Mia Couto é escritor, jornalista, biólogo e professor universitário. É considerado um dos escritores africanos mais importantes. Tem uma obra literária extensa e diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crônicas. Já recebeu inúmeros prêmios literários, entre eles o Prémio Camões (2013) e Neustadt International Prize for Literature (2014) e é membro da Academia Brasileira de Letras. Como biólogo, dirige a empresa que faz estudos de impacto ambiental, em Moçambique e é professor da cadeira de Ecologia em diversas faculdades da Universidade Eduardo Mondlane.

13/10/2020

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