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Literatura

Dia da Poesia. Mas e lá poesia tem dia?
Rafael Figueiredo

"O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga."
(Carlos Drummond de Andrade)


A partir do ano de 2015, passamos a comemorar o dia nacional da poesia no dia 31 de Outubro. A data, antes atribuída ao poeta Castro Alves, nascido em 14 de março de 1847, foi transferida para Carlos Drummond de Andrade, que nascera então em 31 de Outubro de 1902.

"Não! Não eram dois povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir - em frente do passado,
A Liberdade - em frente à Escravidão,
Era a luta das águias - e do abutre,
A revolta do pulso - contra os ferros,
O pugilato da razão - com os erros,
O duelo da treva - e do clarão!..."
(Castro Alves)


Pensemos um pouco sobre esses dois poetas, traçando sutil linha entre o tecido social e a poesia. Costurando delicados trapos de poetas, ponto a ponto, para formar a grandiosa colcha de retalhos que é a poesia brasileira. A verdade é que, tanto Castro quanto Carlos são ótimos representantes dessa linguagem, ainda mais velha que a própria linguagem como a entendemos. Entre a luta pelo fim da escravidão, que era tinta e pena de Castro, e a denúncia social contra a mineração predatória feita por Carlos, em seu papel de pedra e chumbo, contra empresas como a Vale do Rio Doce, ironicamente conterrânea de Drummond, a arte se presta e existe.

"A fome é invenção de quem come"
(Carolina Maria de Jesus)


Temos um dia para a poesia, para o poeta, para a arte de escrever palavras muito além das palavras. Mas nós não ouvimos nem Castro nem Carlos. Nos tornamos um país majoritariamente racista, com estruturas tão sólidas a respeito deste assunto que é preciso ainda que haja leis para garantir o respeito e a dignidade às pessoas negras. E nem é preciso relatar o estrago feito por empresas como a Vale, que novamente por ironia deposita seus rejeitos na própria Fazenda do Pontal, local onde Carlos Drummond de Andrade passou a infância.

"Quem é quem nessa multidão?
Hei, olhe ao seu redor, camarada
Pra que as trevas não levem seu brilho
Pra que as coisas não saiam do trilho"
(Emicida)


Mas, se por um lado a poesia virou mais um produto na mão do sistema capital, lira econômica de versos líquidos, paridos em parte pelo crescente narcisismo das redes sociais, por outro há e haverá poesia sempre em tudo. Nas ruas, debaixo de pedras e sobre os abismos e dentro deles. Há tanta poesia suspensa que é quase possível tocá-la. Que é possível tocá-la. Mas, muitas vezes ela nos escapa, por um lampejo. Porque é preciso esquecer as carências e ilusões do ego para tocar a poesia. É preciso sentir mais do que pensar. É não existir, perder e ganhar a forma; gesto vazio, a poesia indica o caminho para além de si. Essa dimensão, onde se pode tocar o poema é lugar em que tudo está suspenso, onde podemos tocar a verdadeira liberdade através da arte. Ou, como nos diria Friedrich Schiler:

"...as artes vivificam, exercitam, refinam a faculdade do sentir, levando-nos a gostos cada vez mais elaborados, até sermos capazes de sentir o exercício pleno da liberdade."

Porém, voltemos um pouquinho ao nosso tema: O dia da poesia! O que nos cabe, como poetas, sugiro que devemos compreender todo ser humano como poeta, visto que é apenas preciso uma leve inclinação ao ato de fazer poesia - com as mãos, palavras, caneta, barro, tinta, com o corpo, com o som, com o pensamento - para que ela, a poesia, se apresente. É importante lembrar aqui que poesia não é exatamente uma expressão da escrita ou uma forma de literatura. É possível que haja poema sem poesia, por exemplo, se formos considerar, é claro, o poema como uma expressão restrita ao gênero lírico de Aristóteles. O que, particularmente não creio que seja, afinal podemos gerar um soneto em decassílabo sobre tomates em aplicativos de computador. Visto desta forma, o soneto é um poema em sua estrutura, mas carece de algo, falta-lhe o espírito. Por outro lado, a poesia muitas vezes está ali, viva na fala dos loucos e das crianças. Poesia não é, poesia está. Na poesia ganhamos outros sentidos, e negamos as estruturas predeterminadas da linguagem. Ou como diria Octavio Paz:

"Se por obra da poesia a palavra recupera sua natureza original, isto é, sua possibilidade de significar duas ou mais coisas ao mesmo tempo, o poema parece negar a própria essência da linguagem: a significação ou sentido. A poesia seria uma empresa fútil e ao mesmo tempo monstruosa: despoja o homem de seu bem mais precioso, a linguagem, e lhe dá em troca um sonoro balbucio ininteligível. Que sentido têm, se é que têm algum, as palavras e frases do poema?"

Bom, para não nos alongarmos além daquilo que o tema representa, sugiro que pensemos nesta data (que é também o dia do Saci, viu?) como um dia para refletir sobre os caminhos que nós, como representantes da cultura brasileira, tomamos ao fazer nossas escolhas diárias. A verdade é que cada passo importa, cada milímetro é tão significativo quanto a medida que o compõe. Lembrar, que somos filhos do mesmo chão de Elisa Lucinda, Tarsila do Amaral, Gregório de Matos, Carolina Maria de Jesus, entre tantos outros. Entre tantos outros; Emicida, Conceição Evaristo, Ferreira Gullar, Cruz e Souza, João Cabral de Melo Neto, entre muitos; Carlos e Castro!


31/10/2023

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  Rafael Figueiredo

Rafael Figueiredo nasceu em 1985 e hoje reside na cidade de Sapiranga. Foi aluno do professor Marcos Maronez com quem iniciou seus estudos em violão, piano e composição. Começou a escrever peças teatrais ainda na escola. Seu repertório autoral conta com mais de duzentas músicas compostas e arranjadas por ele, e contemplam vertentes da música brasileira como as modas de viola, a trova, a musica popular, além de temas para peças de teatro.

figueired669@gmail.com


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