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Resenha

O legado de Chiquinha Gonzaga
Emilly Garcia

Assistir ao recital "Abram Alas para Chiquinha Gonzaga" foi como me reencontrar com a figura da mulher que há anos admiro. O espetáculo aconteceu em maio, no Instituto Ling, em Porto Alegre, e foi conduzido pela pianista gaúcha, Olinda Allessandrini. Em pouco mais de uma hora, Olinda não só tocou as principais composições de Chiquinha ("Atraente", "Gaúcho, o Corta Jaca" e "Abre Alas"), como vestiu-se a caráter e encenou momentos importantes da vida e obra da compositora, pianista e primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.

A primeira vez que ouvi falar de Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847-1935), ou Chiquinha Gonzaga, foi em 1999, quando a Rede Globo exibiu a minissérie baseada em sua biografia. Eu tinha dez anos e não fazia ideia do que era empoderamento feminino, mas achei incrível saber que existiu uma mulher como ela, num Brasil imperial, escravista, misógino e ainda com resquícios de colônia.

Na minissérie, Gabriela Duarte interpretou Chiquinha na fase jovem, e Regina Duarte na fase madura. Ainda que a produção da Rede Globo atenda a padrões tecno-estéticos próprios, acredito que cumpriu seu papel ao trazer para o horário nobre a trajetória dessa mulher importantíssima para a história da música brasileira, e isso quando a televisão ainda era o principal meio de comunicação de massa.

Nascida no Rio de Janeiro, Chiquinha era neta de ex-escrava alforriada. Sua mãe, Rosa, descrita na época como uma "humilde mestiça", casou-se com um militar influente, homem branco e de posses, o que possibilitou a Chiquinha receber uma boa educação formal. Abolicionista e pró-República, Chiquinha foi pioneira em vários aspectos. Era questionadora, de espírito livre, engajada na causa abolicionista (vendia suas partituras para comprar cartas de alforria) e transgressora dos bons costumes (casou-se mais de uma vez e teve um relacionamento com um homem muito mais jovem).

Oprimida pelo marido e rejeitada pelo próprio pai, Chiquinha foi colocada para fora de casa e proibida de criar os filhos. Decidiu, então, dedicar-se inteiramente à música. Dava aulas de piano e era assídua na boemia carioca, tocava na noite para ajudar no seu sustento. Conheceu personalidades como Carlos Gomes, além de conviver com artistas de teatro, escritores e outros músicos. Ela nunca nutriu o desejo de seguir os rumos da música erudita. Sua veia era mesmo popular, tanto que trouxe para suas composições os ritmos que embalavam as classes trabalhadoras daquele Rio de Janeiro que começava a se urbanizar e que misturavam sons africanos a outros gêneros, como o maxixe, o lundu e o choro. Tal foi a influência de Chiquinha Gonzaga que o dia de seu nascimento, 17 de outubro, entrou para o calendário nacional como o Dia da Música Popular Brasileira. Estima-se que ela tenha deixado mais de "duas mil canções e 77 partituras para peças teatrais, maior do que qualquer compositor de seu tempo".

No livro "Chiquinha Gonzaga: uma história de vida" (Editora Zahar, 2009), considerado um dos principais registros biográficos da maestrina, a autora, a socióloga e pesquisadora Edinha Diniz, elucida fatos históricos com base em documentos oficiais e evidencia o peso do pioneirismo de Chiquinha para além da música, passando pela luta por liberdade, pelos direitos humanos e pela emancipação feminina, como mostra o trecho:

"Porque a história das ruas se confunde com a história de Chiquinha Gonzaga, pelo ineditismo com que ela usou esse espaço numa sociedade que demarcava rigidamente o espaço feminino: a casa para a mulher, o salão para a dama e a rua para o escravo e a 'mulher da vida'" (Diniz, 2009, p. 13)

Outra contribuição de Chiquinha Gonzaga diz respeito aos direitos autorais, tema bastante discutido hoje. Sentindo-se lograda pelos donos dos estabelecimentos onde tocava e inconformada ao ver suas músicas sendo reproduzidas sem seu consentimento, ajudou a fundar a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), apontada como a primeira iniciativa do país nesse sentido. Chiquinha era a única mulher entre os fundadores.

Há controvérsias sobre a cor étnica de Chiquinha Gonzaga. Alguns entusiastas de sua biografia a denominam como negra, devido a origem da mãe e da avó, outros como parda, por causa de seu pai. Em fotos oficiais, e até na minissérie da Globo, vemos uma Chiquinha com a pele mais clara. O fato é que apenas a maestrina poderia fazer uma autodeclaração, mas, a julgar pelo seu ativismo e resgate de elementos da música africana em suas composições, podemos ter alguma ideia do que ela possivelmente diria.

Em linhas breves tentei resumir a essência de Chiquinha Gonzaga, uma tarefa difícil. Mas espero que minha admiração por ela tenha servido para despertar o interesse do leitor sobre sua vida e obra. Seja prestigiando recitais como o que fui, seja assistindo à minissérie da Rede Globo, lendo sua biografia ou mesmo escutando suas músicas no Spotify, compreender quem foi Chiquinha Gonzaga é manter vivo o seu legado. Abram alas para a maestrina!

05/06/2023

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  Emilly Garcia

Emilly Garcia nasceu em Marabá-PA, é bacharel em Jornalismo pela Universidade da Amazônia-PA (2010), pós-graduanda em Filosofia pela Universidade Estácio de Sá e pós-graduada em Televisão e Convergência Digital pela UNISINOS-RS (2012). Participou de oficinas, saraus e de três coletâneas. Estudou Literatura e Teorias do Imaginário na PUC-RS (2022) e foi aluna do Curso Livre de Formação de Escritores (2020), da Editora Metamorfose.

garcia.emilly@gmail.com


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